A origem social de Bentinho
Em “Dom Casmurro”, a influência religiosa articula-se muito claramente com o desastre conjugal de Bentinho, símbolo talvez dos efeitos deletérios da moralidade religiosa, especificamente católica, sobre o destino familiar

É consabido que o texto de Machado de Assis, a despeito de sua inesgotável qualidade puramente estética, presta-se muito bem a múltiplas interpretações. Se se trata de identificar a “função primordial” de um romance, pode-se concluir que certas abordagens não correspondem ao seu objetivo maior, e nem seria o caso. Devemos ler sobretudo para nos deleitar com a linguagem, que é a via de acesso à psicologia dos personagens. Ou seja, se a linguagem funciona, se consegue com seus recursos instigar e convencer o leitor, então temos heróis bem constituídos e um parâmetro seguro para avaliar com justiça o trabalho de contistas, novelistas e romancistas. Artistas são o que são e não pretendem ser outra coisa: a beleza continua definindo o seu propósito, acima de qualquer outro. É assim também com Machado de Assis, artista supremo.
Mas o romance, muito ao contrário da poesia lírica, é um gênero que intercambia particularmente com a realidade objetiva, e não há como ou porque fugir dessa característica essencial: se também ela revela aspectos interessantes, o que justificaria omitir sua análise? Pensemos nas categorias de tempo e lugar. Ambas são intrínsecas àquele gênero, e se quisermos podemos abstraí-las nos livros de nosso romancista com a finalidade de compor um conjunto explicativo da vida íntima de suas criaturas. Podemos também subtrair dessa relação um entendimento do que seria o ponto de vista da burguesia urbana de meados do século XIX no Brasil, tanto quanto sua interação com outras camadas da população.
Como qualquer outro contexto, o da crítica vive de extremos: de um lado os que reivindicam a determinação dessas relações sobre a obra de arte (exemplo do marxismo ortodoxo), de outro os que propugnam a autonomia da arte, presos a um formalismo igualmente improvável (exemplo do new criticism).
É tanto mais óbvio, pelo contrário, que tanto as relações sociais quanto a subjetividade são realidades tangíveis, atuando em conjunto: toda e qualquer obra de arte é uma amálgama dessa relação inescapável, invariavelmente tensa. Essa relação – e não apenas um dos seus termos – explica porque mesmo a poesia de nossa época difere da de um século atrás. Com efeito, se uma ou outra vertente parece preponderar, a razão há de ser encontrada nas convicções ideológicas e no temperamento do artista e do crítico, não na obra em si, qualquer que seja ela – o que a princípio não desabona uns e outros, desde que prevaleça a honestidade. E não é preciso concordar para enxergar a honestidade: basta bom senso. A filosofia chinesa ensina que o melhor caminho é o do meio, mas, como diria Carlos Drummond de Andrade, cada um prefere enxergar consoante seu capricho, sua ilusão e miopia.
Pois bem. O lugar social das personagens machadianas em “Dom Casmurro” podem, e provavelmente implicam, o destino do herói. Bento Santiago compõe a burguesia urbana do Segundo Império. Muda-se do meio rural para a cidade do Rio de Janeiro (capital do Brasil desde 1763, quando o eixo econômico nacional desloca-se para o Sudeste e acentua-se o conflito com os espanhóis, em função da delimitação de fronteiras no extremo sul do país). Sabemos que a classe dominante em todo esse período, e até muito depois, era a aristocracia rural, não a classe média liberal e comerciante dos personagens de “Dom Casmurro”, que nem por isso deixam de cogitar as carreiras políticas. Esses estratos em ascensão terão de esperar a década de 1870 para que suas aspirações comecem a balançar o edifício social hegemonizado pelo setor agrário. Um Quintino Bocaiúva e um Aristedes Lobo, homens letrados e influentes, seriam talvez as vozes efêmeras dessa camada, fora do plano fictício. (Fundamentalmente porque, no dizer dos marxistas, não controlam os meios de produção).
Em meados do século XIX, a fonte de renda dessa camada social média pode ser tanto o aluguel de escravos (conforme o Cap. XCIII), quanto a propriedade imobiliária – não confundir, aqui, com o domínio da terra; das grandes unidades de produção monocultoras – , mas o esforço pessoal, por meio das profissões liberais, concorre para explicar a origem de sua existência material. O pai de Bentinho foi deputado imperial e advogado; ele próprio termina advogado, num período de nossa história em que o bacharelismo seduzia já os espíritos, convergindo os interesses profissionais de sua classe, desejosa de status. Era uma vida sem necessidades; pelo contrário, até de luxos, tanto que o herói e a família – à parte as motivações dramáticas – passeiam à Europa, e na Suíça instala-se Capitu às expensas do marido, até a morte. O intercâmbio com a cultura européia, especificamente francesa, exerce sua influência no comportamento dessa classe média, reparado com acuidade pelo autor no simples modo de caminhar das damas pelo passeio público, nas ruas da capital federal. O costume merece de José Dias (não obstante, ele mesmo um amaneirado) esta reprimenda:
“ – Este gosto de imitar as francesas da Rua do Ouvidor – dizia-me José Dias (...) – é evidentemente um erro. As nossas moças devem andar como sempre andaram, com seu vagar e paciência, e não este tique-tique afrancesado...” (Cap. LVIII)
“vagar e paciência...” – seria este o modo particular de nossas moças! Tipicamente brasileira, a família do herói é um cadinho cultural e social que explica a absorção fácil de elementos alienígenas, não só genericamente em solo pátrio quanto no recinto doméstico. Além dos parentes consanguíneos, existem em seu seio os agregados vivendo de algum ordenado ou “casa e comida” – caso de José Dias. Com base na estruturação econômica tipicamente brasileira (a fazenda de engenho), pode-se dizer que a mistura entre pessoas da família e estranhos a ela, convivendo sob o mesmo teto, era lugar-comum há séculos. José Dias, em particular – esse personagem que Vianna Moog considera “o primeiro símbolo histórico completo da malandragem nacional” (cf: “Bandeirantes e pioneiros”, cap.V), auxilia nas tarefas miúdas do lar, no cuidado das crianças, podendo divertir “ao serão e à sobremesa”. O retrato que Machado pinta do agregado é, a despeito dos traços individuais que caracterizam seu coadjuvante, alguém que exerce influência moral sobre família, nesse aspecto visivelmente liberal: “com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, certa audiência, ao menos”. Há obviamente uma hierarquia que Bentinho, em particular, deixa claro existir, quando nele a vontade fala mais alta que a timidez.
Além dos agregados, há em cópia os escravos, que trabalham em casa ou nas ruas vendendo doces, a lembrar as gravuras de Debret nesta cena (de lambujem, reparem o português “modernista” a lá Oswald de Andrade):
“Tínhamos chegado à janela; um preto, que, desde algum tempo, vinha pregoando cocadas, parou em frente e perguntou:
– Sinhazinha, qué cocada hoje?
– Não – respondeu Capitu.
– Cocadinha tá boa.
– Vá-se embora – replicou ela sem rispidez.
– Dê cá! – disse eu descendo o braço para receber duas.”
O trato humano, aí, parece ser dos mais cordiais: na vida cotidiana a escravaria é inteiramente integrada à existência familiar, e aparentemente dócil na relação com os proprietários brancos, confirmando em certa medida Gilberto Freyre (tão criticado, por exemplo, por Roberto da Matta, que duvida da chamada “democracia racial”). Mas fica naturalmente a impressão de que, se o agregado é “de dentro”, o escravo é “de fora”, apesar de frequentar a casa e exercer atividades domésticas. Em “Dom Casmurro”, o preto é o melhor amigo do homem: está no terreiro; chama-o e lhe vem servir, todo coração. Não se trata de juízo de valor, pejorativo ou não: é a apenas a impressão que a obra dá.
Um terceiro elemento presente nas relações familiares, menos encarnado num tipo e mais simbólico, é o religioso. Padre Cabral é a encarnação da Igreja, em “Dom Casmurro”. A vida feminina e a da infância à adolescência parecem estar particularmente sujeitas à sua vigilância onipresente. Dona Glória e Bentinho não participam do mundo exterior menos quando vão aos vizinhos ou à missa, esta um de seus únicos recreios de maior pompa. Quando não comparecem à celebração religiosa, é a Igreja que vem visitá-los, na figura do padre. Dá-se assim a influência da instituição católica na formação da família de Bentinho, aliás a mais marcante nesse romance e por certo decisiva. O mesmo Vianna Moog observa que a vocação religiosa foi, no Brasil, sempre um problema para Igreja, à falta de ambiente propício: “E como haver tais ambiências, se toda a história do Brasil reflete os trunfos do Império sobre a Fé?” De fato, Bentinho é desprovido de vocação para o seminário: esta é um produto do que Freud chama de superego, isto é, Dona Glória, José Dias e Padre Cabral conjugados.
O catolicismo já foi acusado pelas interpretações culturalistas da história por quase todas as mazelas da formação brasileira, em contraste com o que aconteceu na América do Norte, sob o influxo do protestantismo calvinista. A conclusão do leitor, ao ler “Dom Casmurro”, não é mais generosa com nossa matriz espiritual.
A presença de um sacerdote é constante e íntima em casa de Bentinho, até porque é conselheiro maior e autoridade espiritual, porque não dizê-lo, de uma importante parcela da Nação. A idéia de culpa, associada a essa relação, parece ser muito presente no espírito individual das pessoas. Tomando por base Dona Glória e Bentinho, os destinos individuais nessa camada tomariam rumos amiúde alheios aos interesses das pessoas: a mãe, não fosse a promessa e a culpabilidade, eximiria o filho de um compromisso seu e não dele; ele, de sua parte, cumpre o desígnio muito mais compungido por obrigação moral do que por vontade própria. Ao fim e ao cabo, desiste, mas a Igreja não fica sem sua parcela, apesar da perversidade: imolam um órfão obscuro e todos aliviam a consciência: Dona Glória, Bentinho, Escobar – que deu a idéia – e, é claro, o “Protonotário Apostólico”.
Em “Dom Casmurro”, a influência religiosa articula-se muito claramente com o desastre conjugal de Bentinho, símbolo talvez dos efeitos deletérios da moralidade religiosa, especificamente católica, sobre o destino familiar. Os instintos do herói são reprimidos por sua formação, uma vez que a mãe leva-o à Igreja desde criança, no intuito de acostumá-lo à vida meditativa e sacerdotal. Machado não deixa, porém, de apontar os instintos reprimidos por meio das taras do aspirante a religioso: numa das páginas mais escandalosas do livro – também, uma das páginas mais sarcásticas ou irônicas –, Bentinho, em companhia do agregado, testemunha a queda de uma dama afrancesada que deixa à mostra suas meias e ligas azuis. O erotismo invade e naufraga a alma do menino, que padece autênticas tentações de Santo Antão: “Dali em diante, até o seminário, não vi mulher na rua a quem não desejasse uma queda...” (Cap.LVIII)
Mas suas taras são reprimidas em benefício da promessa materna e o herói persevera em seu destino, moldando-se pela beatitude, pela pureza ingênua que um dia lhe trai, embora a sexualidade permaneça latente e, com frequência, excessivamente graciosa. Quando extravasa, tende naturalmente a exagerar, daí o ciúme, talvez justificável porém doentio. Por não conseguir desvencilhar-se do compromisso da mãe, Bentinho por fim provoca a ira de Capitu, que se ofende e disputa com D. Glória o amor do adolescente. O fato desencadeia a promessa que há um século atordoa os leitores: “Olhe, prometo outra coisa; prometo que há de batizar o meu primeiro filho.” (Cap. XLIV) Não seria esta – quero dizer, “o compromisso religioso de mãe e filho” - a origem da traição sexual, se houve? Não fosse a influência religiosa – persistente, incisiva - poderia até haver traição por outros motivos, mas não haveria a frustração de Capitu “em função” dessa disputa, nem seminário muito menos Escobar. Quem sabe os protagonistas até viveriam felizes para sempre. É uma conclusão razoável, das muitas possíveis.





