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POR EM 08/12/2008 ÀS 01:59 PM

A nação do filme se desmancha

publicado em

Quando se observa a sociedade e o cinema numa perspectiva de longa duração, surgem aspectos importantes para pensar a experiência brasileira

O cinema brasileiro contemporâneo abriu dois caminhos, nos anos 1990, que levam a resultados interessantes. Uma série de filmes vem recontando a experiência da ditadura militar e retoma a linha das memórias dos guerrilheiros, escritas mais de 20 anos atrás, que foi abandonada pelos escritores.

Outra vertente da produção cinematográfica é o retrato da sociedade brasileira em acentuada transformação e amedrontada pela violência urbana. Esse duplo movimento aparece de forma precisa no filme
Quase dois irmãos (2004), de Lúcia Murat, que mostra a herança dos militares tanto na repressão política, como no posterior desmonte social do país. 

Quando se observa a sociedade e o cinema numa perspectiva de longa duração, surgem aspectos importantes para pensar a experiência brasileira. O país mergulhou numa crise econômica que o paralisou por, pelo menos, 25 anos e deixou marcas visíveis. Há uma fratura exposta no cotidiano das cidades – herdada, por sinal, do período sem democracia do regime militar. Mas, em contraste à brutalidade, persiste a imagem da nação próspera e que, de alguma maneira, acomoda suas diferenças. Filmes, romances, contos e letras de música realizam um trabalho inverso e tentam desfazer a imagem oficial (e positiva) do país que tem um futuro promissor à espera.

O filme
Linha de passe (2008), de Walter Salles Jr e Daniela Thomas, surpreende ao enfocar os “sujeitos monetários sem dinheiro” de São Paulo. Uma mãe vive sozinha com quatro filhos em um bairro da periferia paulistana. Todos sobrevivem na exceção do mundo do trabalho. Ela é uma empregada doméstica e está grávida. Os filhos são um motoboy, um frentista de posto de gasolina que freqüenta igreja pentecostal, um aspirante a jogador de futebol e o mais jovem que apenas estuda. 

Note-se que o filme reitera o lugar comum do futebol como uma possibilidade de harmonia social – algo usado também em O ano em que meus pais saíram de férias (2006), de Cao Hamburger.   

O interessante da estrutura narrativa de Linha de passe é a repetição. A família sai de casa pela manhã e volta à noite. Essa seqüência aparece inúmeras vezes, evidenciando a monotonia e a incapacidade de se sair do lugar. Numa época que alardeia a mobilidade, os personagens seguem presos à sina de permanecer no mesmo lugar. O único a escapar do imobilismo é o filho mais novo, Reginaldo, o único negro na família de brancos pobres. Diariamente, ele entra e sai (também repetidamente) dos ônibus em busca do pai que jamais conheceu. Ao final, no ponto mais melodramático e fraco do filme, Reginaldo pega um ônibus e sai dirigindo pelas ruas de São Paulo.

Como se chegou a esse país desfigurado de Linha de passe? Para isso, vale a pena retornar a
Eles não usam black tie (1981), de Leon Hirszman. O filme foi uma adaptação da famosa peça teatral para o cenário do movimento operário do ABC paulista, na transição da ditadura militar para a democratização. 

Temos o conflito da família de operários cujo filho pretende furar a greve organizada pelo próprio pai. O sindicato dos trabalhadores ainda representa um ponto de união entre pessoas da mesma classe social. A família também é uma referência. Por último, o contexto político e social do filme reverberava a expectativa de que “amanhã será outro dia” na época.  

O contexto elaborado em Linha de passe é o desmanche de qualquer laço social entre os personagens. Eles vivem à própria sorte, numa metrópole que só consegue unir as pessoas em torno da paixão pelo futebol. Nem a família pode se considerada de forma positiva. A mãe/doméstica e o filho/motoboy são figuras igualmente modernas do trabalho hiper-flexível da globalização e sem sindicatos. Eles não têm direitos e devem estar sempre a postos para realizar suas tarefas. Contra o quê lutam? Se os operários de Eles não usam black tie tinham o horizonte de mudança e brigavam por isso, os de Linha de passe sonham apenas em criar suas estratégias de sobrevivência.

Nos meios de comunicação e na política, a narrativa da redemocratização pós-1985 se construiu pela imagem do país que tenta um lugar ao sol na globalização e que consolida uma nova sociedade civil.

De Eles não usam black tie a Linha de passe, no entanto, emerge uma contra-narrativa. A nação do filme brasileiro toma outras formas. Como bem assinalou Lúcia Nagib, caminhamos da utopia do Cinema Novo à distopia do “cinema da retomada” da última década. Nos melhores momentos (
O invasor, Cronicamente Inviável, Garotas do ABC e Baixio das bestas), os filmes brasileiros atuais estão buscando novas linguagens para capturar esse real complexo e negativo. 

 

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