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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:55 PM

A história ao modo de Emerson 2

publicado em

Registremos que, da Guerra da Sessessão (como dizíamos na priemeira parte), até pelo menos 1862, quando o México declina em favor de Napoleão III, a Doutrina Monroe não passou, literalmente, de uma ousadia do espírito. Eis, então, de forma cabal, outro desprezo invejável pelas limitações de ordem material: como seus pares, o ex-presidente Monroe “via o presente com os olhos no futuro: não via aquelas cidades dispersas e empoeiradas, mas as metrópoles luminosas; não a oficina miserável, mas a fábrica palpitante; não as estradas sulcadas, mas os trilhos cintilantes”, consoante Henry Steele Commager (in: O espírito norte-americano). Isto nos leva à hipótese de que a auto-suficiência estadunidense – e se quisermos, a sua arrogância - não é um produto de sua hegemonia nos campos militar, político e econômico, como os vê nossa conjuntura perpassada pelo antiamericanismo. Pelo contrário: nossa tese é de que tornaram-se hegemônicos porque tinham disposição de caráter para isso, mesmo quando eram virtualmente impotentes em face da dominação européia.  

De modo que estes dois exemplos emprestados pela história – Jefferson e Monroe - servem para situar Emerson no seu contexto mental, provando que a matéria-prima de que se valeu – a autoconfinça – estava à sua disposição e a fonte, podemos acreditar, era abundante. Esses dois homens de Estado eram, de acordo com a interpretação histórica do século XIX por Commager, apenas a expressão de um espírito disseminado de alto abaixo, na sociedade norte-americana de seu tempo. Exceto o Sul escravista, seu temperamento era provavelmente o do mineiro e do lavrador que desbravaram o Oeste e do puritano industrioso da Nova Inglaterra. Ao lado de Whitman, Emerson é, assim, o fiel remanescente da mentalidade norte-americana oitocentista, célebre pela maneira com que encarava o mundo. Autêntica injeção de ânimo, os dois escritores seriam a síntese acabada desse ethos social invejável - embora Emerson provavelmente não acreditasse nisso! Afinal, é bom repetir, tinha ele aversão à sociedade:
 
“Por toda parte a sociedade está em conspiração contra a virilidade de cada um de seus membros. A sociedade é uma companhia por ações, na qual os sócios concordam, para melhor assegurar o pão de cada acionista, em renunciar à liberdade e à cultura de quem dela desfruta. A virtude de maior demanda é a conformidade. A autoconfiança é causa de aversão. À sociedade não aprazem realidades e criadores, mas nomes e costumes.” (Ensaio Autoconfiança).
 
Os norte-americanos do século XXI começam-no dando mostras de uma degenerescência cultural e espiritual desencadeada, provavelmente, no final dos anos 80 do século passado, quando sobraram como a única potência mundial, iniciando paradoxalmente sua lenta e incontornável agonia. O contraste romano é inevitável: quando o maior império da antigüidade se viu na solidão do superpoder, seguiu-se a famosa pax romana. Os quarenta anos do consulado de Augusto redundaram numa ventura jamais experimentada, antes e depois. Com o moderno Império de George Walker Bush acontece exatamente o oposto: o que assistimos é uma verdadeira cruzada bélica americana, capitaneada por neo-conservadores da pior espécie possível. O que, no século XIX, era um sentimento admirável de autoconfiança, magistralmente captada nas melhores páginas de Emerson e Whitman, no último século e no despontar do atual degenerou-se em bárbaro fundamentalismo, puro e simples.
 
Este impasse moral deve-se, na lógica do ensaísta, à ausência de um grande personagem no centro das decisões políticas. Emerson é um metafísico, o que o torna bastante excêntrico nos dias de hoje.

Historiograficamente, tem afinidades com a concepção vigente no século XVIII, o que o coloca em companhia do idealismo e de um ente abstrato chamado espírito. Afinal, segundo ele, “toda a história deslinda-se muito facilmente na biografia de umas poucas pessoas decididas e convictas”, do que discordarmos, mas esta é a sua opinião. Opinião que serve para refletirmos sobre um determinado e importante sentido de ausência: enquanto, na Antigüidade, Virgílio privava da corte augustana, um festejado crítico norte-americano comentou, com ceticismo: “duvido que esse George Bush II tenha lido Walt Whitman, ou sequer ouvido falar de Hart Crane.” Problemático, este não é naturalmente um critério inequívoco de avaliação de um governante, mas também não há dúvida possível de que os comensais de Bush, ao invés de poetas capazes de legar ao mundo uma Eneida, são broncos e genocidas da espécie de Karl Rove e Paul Wolfowitz..
 
Estes e outros personagens representam, além da virulenta corrupção moral das instituições públicas norte-americanas, um fundamentalismo enraizado na cultura nacional tão torpe quanto o dos terroristas árabes: como para estes, Deus é que os conduz ao assassinato, justificando-os. Invocando o absoluto, tiram de nós qualquer contra-argumento possível. De modo que, embora os “bárbaros” – principalmente os latinos - estejam mesclando maciçamente o último império da humanidade e Osama bin Laden tenha aspirado a ser o novo Odoacro, o belicismo da Doutrina Bush deixa-nos esta lição, tendo a época de Augusto por parâmetro: a história nunca se repete, e parece continuar fora da lista das ciências nomotéticas (aquelas regidas por leis), obscurecendo de vez a herança iluminista.
 
É por tais circunstâncias que, do ponto de vista espiritual, pode-se afirmar com alguma segurança que o grande século norte-americano foi aquele em que viveram Emerson e Whitman:
 
“Com o otimismo veio uma sensação de poder e de enormes reservas de energia. O norte-americano tinha idéias amplas, sua imaginação vagava por um continente e ele se impacientava com as pequenas transações, com as hesitações e a timidez. Criar uma fazenda de uma milha quadrada ou um rancho de cem milhas quadradas, educar milhões de crianças e alimentar o Mundo Ocidental com o seu trigo e o seu milho não lhe pareciam coisas notáveis.” (Commager, op.cit.)
 
 O século XIX foi um período diverso dos últimos cem anos e do inicio do século XXI, pois foi realmente a época do otimismo, que cedeu à arrogância crescente derivada do expansionismo, passando pelos governos de James Polk e T. Roosevel e culminando com a desastrosa família Bush, da qual o Estado americano se tornou um braço militar. O oitocentos foi quase todo dedicado pelos Estados Unidos às realizações domésticas, e foi sempre do contato com o outro – a principiar dos índios e dos mexicanos – que vicejou o lado mais sombrio do seu caráter.     

Enfim, nos parece que Emerson foi a mais fiel expressão de seu povo, inacessível àqueles que não lhe assemelhem os instintos sociais. Quem mais poderia olhar à sua volta com um sentimento tão grande de indiferença? Não encontro outro palavra para designar tal instinto. Em contraste, somos tentados a acreditar que os brasileiros custariam a ensejar um projeto tão ousado (e é claro: tantas vezes indesejável) de nação, simplesmente porque – se possui dimensão territorial e população o bastante – lhe falta o principal: a têmpera. Por ironia, um dos mais eloqüentes sintomas da enorme diferença entre nós e os norte-americanos é que, ao mimetizar o american way of life, nossa sociedade acaba por dispensar justamente o indispensável, na ótica deles: o sentimento auto-referente que fundamenta sua moral. A insistência cabotina em absorver os códigos culturais ianques – um exemplo: o uso freqüente do idioma inglês para nomear coisas e lugares - é, na verdade, o lado mais irritante de nossa própria têmpera. Isso revela de nossa parte pouco auto-estima, e alimenta o desprezo dos que, com razão, respeitam apenas a auto-afirmação e a originalidade: e o que entendemos por isso? Nosso débil patriotismo nunca dura mais que a execução do hino nacional.
 
Conclusão: Emerson deve ser, para um número maciço de brasileiros – leia-se parte considerável de nossas elites políticas e econômicas -, como um idioma ininteligível. Ficamos a pensar, neste caso, a dificuldade que teria para ser compreendido em culturas como a nossa, diversa da estadunidense, de sorte que a crença em si mesmos parece ter sido uma virtude intrinsecamente ianque. Sinceramente, não acho que temos muita crença em nós mesmos, e ler Emerson nos impõe essa reflexão, tão estranha ao nosso caráter.
 
 
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