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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:30 PM

A história ao modo de Emerson

publicado em

Uma breve lembrança da história dos Estados Unidos basta para nos convencer de que, neste curto período, um surto de prosperidade varreu a sua nação, dotando-a do mesmo espírito que contaminaria seu maior ensaísta. Emerson foi um intérprete nacional vigoroso, e se quisermos ter a idéia aproximada da psicologia que permeou a sociedade norte-americana, durante aqueles dois decênios e meio, é indispensável conhecê-lo

( Parte 1)



Ralph Waldo Emerson é um dos grandes ensaístas mundiais dos últimos cento e cinquenta anos. Nasceu em 1803, em Boston, EUA, e ficou famoso sobretudo pela publicação dos seus Ensaios, que viriam a lume quase em meados do século XIX, 1841. De acordo com Erick Hobsbawm, um século não equivale necessariamente a cem anos, podendo muito bem ser confinado entre dois marcos capazes de conferir uma relativa unidade nas grandes estruturas material e ideológica, formando uma Era. O evento conhecido como a Paz de Gand propiciou o começo de algo parecido na história norte-americana; com efeito, consideremos a seguinte conjectura: “Tanto para os Estados Unidos como para a Europa, o século XIX começou em 1815.” (André Maurois, História dos Estados Unidos). 1841, aquela outra ponta que nos interessa, não é um divisor de águas desta natureza, mas entre estas duas datas se passaram 26 anos – uma idade possível do novecentos “americano” que serviu de base para Emerson.

Uma breve lembrança da história dos Estados Unidos basta para nos convencer de que, neste curto período, um surto de prosperidade varreu a sua nação, dotando-a do mesmo espírito que contaminaria seu maior ensaísta. Emerson foi um intérprete nacional vigoroso, e se quisermos ter a idéia aproximada da psicologia que permeou a sociedade norte-americana, durante aqueles dois decênios e meio, é indispensável conhecê-lo. Tal psicologia – ou melhor, aquilo que gostam de chamar de caráter – esbanjou-se depois de 1815, quando, de uma vez por todas, foram rompidos seus últimos grilhões coloniais. Souberam, como nenhum outro povo à época, tirar proveito de suas duas independências – a política e em seguida a econômica – criando um sistema genuinamente seu, abraçando o nacionalismo e desdobrando sua maré humana na direção do oceano Pacífico. À expansão geográfica coincidiu a expansão do espírito: “Nascida da Geografia, nutrida pela História e confirmada pela Filosofia, a confiança própria foi elevada a credo filosófico e, com o tempo, individualismo se tornou sinônimo de americanismo.” (Henry Steele Commager, O espírito norte-americano).

Individualismo, otimismo, autoconfiança. Tais disposições de caráter já transbordavam de modo exuberante desde a época colonial nos Estados Unidos, levando-os a desprezar suas limitações objetivas, derivadas de seu estatuto político. Ausentava-lhes uma mentalidade histórica, dimensão por excelência da presença coletiva, mas isso pouco importava: de acordo com uma visão peculiar de mundo, não lhes faltaram personalidades exemplares, cujas vidas converteram em alegorias de Clio, respeitando a precedência do indivíduo sobre a sociedade. Foi assim com Thomas Jefferson: através deste homem os norte-americanos prescindiram de sua independência econômica para se afirmarem diante do mundo, bastando para isso a de ordem política. Em 1774, contando apenas 32 anos, impressiona a naturalidade com que o jovem estadista dispôs os Estados Unidos entre “as potências da terra”, ao redigir a Declaração da Independência. Entendera, na ocasião, que tal direito era “divino” e ponto final, alheio à real distância que separava o seu país das principais potências da época, no mundo Ocidental, França e Inglaterra. Diz Jefferson, “Quando o curso dos acontecimentos humanos obriga o povo a romper os vínculos políticos que o unem a outro povo para ocupar entre as potências da terra a posição igual e distinta à qual as leis naturais e divinas lhes dão direitos, um elementar respeito humano obriga-o a declarar as causas que motivaram esse rompimento.” 

Seria inimaginável um estadista brasileiro proferindo estas palavras no curso do século XVIII, ou mesmo agora, no tardio século XXI - mas que diferença, afinal, existiria entre nossa atitude e a dos EUA diante da metrópole britânica? Uma coragem semelhante causaria o escândalo de nossos homens públicos, dedicados executores daquilo que a mídia ironicamente classifica como “dever de casa” (Míriam Leitão, da Rede Globo, foi uma refinada manipuladora da expressão). Eis a fórmula unilateralmente responsável que por muitos anos empatou o nosso destino histórico, como o colonialismo inglês empatou o norte-americano - ou estariam os seus grandes estadistas enganados sobre a necessidade de se opor, também, à opressão econômica?

Fôssemos um dos Estados confederados naquele tempo, com a mentalidade política que tivemos e possivelmente ainda temos, é provável que, no Congresso Continental reunido em Anapolis, aconselhássemos os nossos irmãos a continuar pagando seus tributos ao rei Jorge III. Fica claro que nosso erro político mais imperdoável é fingir que revolução é coisa de radical, com que se alcunham os antigos comunistas, quando tão bem no-la ensinam os liberais de cepa, desde sempre. Por uma perversa distorção dos fatos, quando algum líder latino-americano é nutrido por um móvel semelhante ao de Jefferson, logo o acusam de insuflar a instabilidade e a baderna no continente. Não precisa de um algoz externo que o combata, como Washington e seus exércitos improvisados precisaram: nós mesmos cuidamos de massacrá-lo em favor alienígena. Se é que a América Latina é mesmo uma terra de excentricidades, esta é com certeza uma delas.

O insucesso das idéias republicanas entre nós na mesma época da Revolução Americana, culminando no assassinato de Tiradentes – entregue sem qualquer resistência à Coroa portuguesa - não me deixa mentir a respeito deste assunto. Mas, por ora, deixemos de lado as ilações, reconhecendo que a lição de Jefferson, genuína, acabou refletindo nas palavras de Emerson:
 
“Exprimi vossa convicção latente e ela será a opinião universal; pois aquilo que é mais íntimo torna-se, no seu devido tempo, o mais externo”.

História e sociedade estão entre as piores associações que se pode fazer em relação a Emerson, que aqui nos fala, evidentemente, na intimidade dos espíritos. A sociedade que Emerson aprova é, no máximo, aquela pequena comunidade de amigos com a qual mantém estreitas relações de afeto e cordialidade. Há um dualismo que há por trás de seu pensamento e consiste nisso: num extremo a sociedade, no outro o indivíduo, incompatíveis como água e óleo. A impossibilidade de conciliação entre ambos determina o seu próprio pessimismo. Melhor, portanto, é continuar absorvendo exemplos puramente pessoais para compreendê-lo e à sua nação, ainda que aqui nos interesse tirar algumas conclusões úteis da associação entre indivíduo e história. Gostaria, por isso, de insistir num segundo exemplo de natureza pública: James Monroe.

Em 1823 – portanto quase meio século depois da Declaração de Jefferson – os Estados Unidos eram ainda um território bastante incompleto, sem grande valia econômica e dotada de um poderio militar quase inexpressivo. E daí?, poderiam perguntar com franco desdém os conterrâneos do Benjamin Franklin, porque a despeito disso só prosperava a confiança no seu destino. A Doutrina Monroe, recémanunciada ao mundo, faria suspeitar que uma potência de fato existia por trás deste importante documento de política externa. Bastou que arrogassem na seguinte declaração: “é inadmissível a intervenção de qualquer país europeu nos negócios internos e externos de países americanos.”Ninguém disse que Monroe era um louco por causa disso, muito embora o país devesse esperar ainda pela transição ao novo século para sustentar esta posição com armas, se necessário, várias décadas depois (e não hesitou em fazê-lo contra o estertorante Império espanhol). Mas apenas depois da Guerra da Secessão é que a futura potência – graças à unificação norte-sul, ao expressivo aumento populacional e ao vertiginoso crescimento econômico – passou a ter as condições materiais para ensejar um efetivo controle geopolítico da região, baseado na força. 

Continua... 
 
 
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