A época de Tatsumi Orimoto
Já ficou para trás o tempo em que pintar uma tela fazia enorme sucesso
![]() |
Tatsumi Orimoto é um famoso artista contemporâneo japonês. Quando se falava de arte, uma ou duas décadas atrás, pensava-se apenas em artistas ocidentais: consulte-se os livros de história da arte e praticamente só há europeus e norte-americanos. A África, a Polinésia e o próprio Japão apareciam desde o século XIX através da pintura feita na França, especialmente a impressionista e mais tarde a cubista. A descoberta que a civilização liberal fez dos povos primitivos, com a criação da antropologia, não repercutiu na arte senão como uma influência de lugares remotos. Favoreceu a revolução de Picasso, mas foi marcada pelo estigma da evasão propriamente dita, em Paul Gauguin. Os japoneses não eram tribais como os nativos congoleses ou os polinésios, mas as famosas estampas de Katsushika Hokusai eram mesmo assim relíquias um tanto exóticas. O mundo deu voltas, e agora, além da arte do Ocidente, existe uma arte oriental igualmente respeitada, por aqui: bem-vindos ao mundo de Tatsumi Orimoto.
A obra mais importante de Orimoto chama-se Small Mama + Big Shoes, e consiste numa performance protagonizada pela mãe do artista, uma senhora miúda chamada Odai Orimoto. O insólito da realização está ao rés do chão: um enorme, feio e engomado par de sapatos verdes, calçado por Odai, que assim se deixa fotografar no meio de uma rua qualquer, da periferia de Tóquio. Noutro trabalho, a mesma velhinha aparece ao centro de um cômodo de casa, agora dentro de uma gigantesca caixa de papelão: dela só enxergamos o busto, e tem a mesma compleição empapuçada da obra anterior. Numa terceira imagem, eis que a boa e resignada mãe posa para as lentes do filho entre duas amigas num quintal ou jardim. Desta vez, Tatsumi meteu-lhe um pneu no pescoço, e de quebra nas outras duas sorridentes vovós. Clicou e eis a obra, pronta para ser levada à galeria e ao museu. Francamente!
Considerado an passant, o nonsense é um prato cheio para o deboche e a esculhambação. Muitos podem dizer que Tatsumi é apenas um alienado, alguém que devia arranjar o que fazer, ao invés de expor a coitada da mãe ao ridículo. Porque alguém não teria essa primeira impressão? Principalmente, porque censurar alguém por tê-la, se é natural? Outra do japonês foi amarrar dois pães baguetes sobre os olhos e sair à ruas, para ver a reação das pessoas (cf: diversao.uol.com.br.). Parece fácil, mas sobretudo exige coragem, e verdade é que ninguém torna-se artista apenas porque tem um pão ou uma empada à disposição.
A sério: como explicar tais obras? Fumio Nanjo, curador do Japão na 25ª Bienal de São Paulo (2002), esclarece que a mãe do artista sofria de Alzheimer, e que o filho performático concebeu as obras em que Odai participa no intuito de estabelecer com ela uma comunicação: “São atos de amor transformados em ações, segundo o artista.” (Esclareça-se que Tatsumi não tem pai nem constituiu família, dedicando-se exclusivamente à saúde da mãe.) Vê-se, por aí, que há um significado muito particular, cuja ressonância cultural está em dialogar com uma postura artística que é hoje universal. Hoje o sentido da obra de arte parece ser, mais do que nunca, sentido para o artista, não necessariamente para os outros: a obra é um fenômeno como qualquer outro, como um galho ou uma pedra. Simplesmente existe. Aliás, se a pedra de Paraúna nos encanta, porque não nos encantariam as instalações de Sarah Sze? Se parece ter sentido - embora tenha sido esculpida pelo vento ou pela água -, porque não teria o trabalho da última? Tatsumi, portanto, pode brincar e se divertir como quiser: o que faz é, sim, interessante para os não preconceituosos; para os que sabem que a cultura é (p)arte da natureza, tal qual um arroio ou uma árvore.
Sociologicamente, haverá com certeza uma explicação razoável para as esquisitices da arte contemporâneo, da qual Tatsumi é só um exemplo: são narrativas ou fragmentos de um mundo absurdo e infestado de maluquices de toda ordem. A estética é compatível com a realidade à sua volta, fora da qual talvez não haja outro sentido que se possa reconhecer como comum. Há um momento, creio, em que deixamos de partilhar o mesmo palco de insanidades que o artista, e nos tornamos simples e intrigados espectadores da índole narcísica do gênio. O sentido torna-se exclusivamente privado, por isso mesmo opaco demais. A performance serve bem a este tipo de leitura, pois, na maioria das vezes, custa acreditar que não passa dum espetáculo da egolatria.
Sirva de exemplo o artista português Vasco Araújo, quando este adentra ao recinto do pavilhão Ibirapuera, na 28ª bienal de São Paulo, carregado por seis marmanjos sarados, trajando apenas sunguinhas pretas. Vasco deitou-se nos ombros musculosos feito uma diva, dentro de um enorme vestido, pronta para um suposto abate sacrificial, diante dos olhares curiosos e provavelmente ignorantes do público não especializado. O que afinal de contas quer dizer esse trabalho?
Outra questão inevitável: a beleza ainda existe, digo, aquela sensação intraduzível que de algum modo satisfaz a nossa expectativa, quando olhamos para a Mona Lisa? Acho que não. Não se deve mais procurar a beleza na arte, mesmo que ela eventualmente ainda dê o ar da graça, em uma ou outra obra. O que há de belo, de extasiante, nas duas performances sucintamente descritas? Aparentemente nada, a exceção dos corpos seminus para os olhares gulosos de algumas mulheres ou gays presentes ao espetáculo do luso. A manifestação, em si, não é bela, ou se o é será menos pelo seu aspecto aparente – claramente extravagante, apelativo - do que pelo seu sentido teórico-discursivo, que existe e revela o problema, o debate, a justificação de tudo. A arte, sem o discurso, é um ponto de interrogação, e mesmo esse discurso é de natureza hermética, posto que iminentemente metalingüístico.
Questão complexa, esta da beleza, pois em outra época consideraram a arte abstrata igualmente escandalosa; época em que muitos achavam horríveis eram as pinceladas “mal feitas” da pintura de vanguarda. Visto em perspectiva, tudo isso assumiu um aspecto relativamente comportado: até o dadaísmo (pai ou mãe da performance) ficou para trás, quando se acreditava que era o limite, além do qual não havia mais o que propor.
Mas a arte contemporânea não se parece mais com a arte (ou antiarte) que reconhecíamos como tal, até há bem pouco tempo. É outra coisa, muito diferente, datada de características únicas: é antropológica, multiétnica, verdadeiramente internacional, informal, precária e multimidiática; festa de todas as linguagens, sob o rótulo insuficiente de “artes plásticas”. Normal, hoje, é deparar nas grandes exposições com ambientes arquitetônicos, fotografias, designs, vídeos, músicas, danças, interpretações dramáticas e, muito excepcionalmente, com a pintura, atração inquestionável até meados do século XX. Já ficou para trás o tempo em que pintar uma tela fazia enorme sucesso; ela torna-se cada dia mais clássica, ao passo que a visão perdeu a majestade sobre os demais sentidos: tato, audição e olfato. Não existem mais limites ou fronteiras nesse jogo intensamente cambiante. A arte contemporânea é um cruzamento de meios expressivos; é literalmente outra coisa.
Podemos achar que ela é frívola ou idiota, mas é verdade que também inquieta-nos. O registro individual, numa sociedade que elevou a individualidade ao paroxismo, tornou-se o registro da própria época. Tampouco existe um código partilhado por grupos, à moda dos ismos modernistas: cada um é inteiramente original. O criador contemporâneo é um solitário, entregue aos próprios delírios, taras e perversões, expondo-se muitas vezes sem reservas ao escrutínio alheio. É de um realismo extremo, contundente, dolorido.
Por trás dessa exuberante liberdade ou anarquia, pulsa o caos que leva à pergunta inevitável e provavelmente relativa: tem sentido? A época de Tatsumi Orimoto tem a resposta.







