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POR EM 27/10/2008 ÀS 11:56 AM

Sobre o inconsciente

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Cornélio Basso fez uma pausa. Agarrou o copo e o levou aos lábios. Na platéia houve inquietação. Alguém tossiu. Da primeira fila de cadeiras pareceu sair um homem agachado, ou pequeno. Uma criança, talvez. Pôs-se de quatro, de costas para o orador, no início do corredor atapetado. Cornélio voltou a falar. Os desejos recalcados não deixam de ter uma existência no inconsciente. No entanto, a platéia se mostrava inquieta. Ouviram-se sussurros. O homem agachado pôs-se a andar pelo carpete vermelho, rumo à saída. Subiu o primeiro degrau, caminhou, subiu o segundo. No inconsciente os desejos inconciliáveis podem coexistir. Na primeira fila uma cabeça olhou para trás. O fugitivo já ia quase ao meio do corredor, a passos lentos e cadenciados. Os desejos inconscientes não são modificados nem pela realidade exterior nem no decorrer do tempo.

À saída, uma hora depois do início destes acontecimentos, Terêncio Floro perguntou a Helvídio Lucano se vira um vulto deixar a sala. Não, não vira nada, a não ser Cornélio. Vira e ouvira. Pois fora ali para ver e ouvir Cornélio Basso. Por acaso esse vulto tinha alguma importância? Terêncio desculpou-se.

Pensou tratar-se do vulto de Torquato Gélio. Porém Torquato jamais faria aquilo. Nunca se retiraria de uma conferência. Ainda mais se o conferencista fosse Cornélio Basso. A não ser que tivesse sentido algum mal-estar.

Lélio Silvano chegou à calçada, olhou para os grupinhos formados aqui e ali, e optou por Terêncio e Helvídio. Deram-se palmadinhas nas costas. Cornélio estivera magnífico. Sim, o inconsciente só obedece ao princípio do prazer. Ele disse isso? Não lembro de ter ouvido isso. Provavelmente falou isso no exato momento em que acontecia aquilo. Lélio sorriu, ensaiou uma risada, conteve-se.

Referia-se Terêncio ao cachorro? Helvídio olhou, espantado, para Lélio e, em seguida, para o chão.

Cachorro? Que cachorro? Ora, não entendia como haviam deixado um animal entrar no anfiteatro.

Desleixo total dos diretores. Descuido gravíssimo. E se se tratasse de um cão raivoso? Terêncio tomou a palavra: Esse animal não era um homem? Lélio sorriu. Estando na primeira fila, podia esclarecer o fato. O cão dormia recostado ao estrado. Ao ouvir a voz de Cornélio, acordou. Helvídio não gostou da frase. Se o cão dormia, não podia ouvir a voz de Cornélio. Seja como for — continuou Lélio — , olhou para a platéia, teve medo e meteu o rabo entre as pernas.

Terêncio levou as mãos aos olhos: estou ficando cego.

Muito sério, Lélio imitou o cão. Saiu pé ante pé pelo corredor e mansamente desapareceu.

Lívio e Júlia retiravam-se, saídos de outro grupinho. Passaram por Terêncio, Helvídio e Lélio, deram boa-noite e pararam. Lívio se voltou para os três amigos. Vocês viram o vexame desta noite?

Lamentável, horrível, inexplicável. Como trazer uma criança para a palestra de Cornélio Basso?!

Nervosa, Júlia arrastou Lívio para o grupo. De quem será filho esse pobre menino? Helvídio parecia horrorizado, embora sorrisse. Afinal, o vulto visto por todos mudava de figura a cada momento.

Aproximou-se deles um rapaz. Disse chamar-se Torquato Basso. Lívida, Júlia recuou. O moço gargalhou. Se quisessem, chamassem-no Cornélio Gélio. Ou Terêncio Lucano. Ou Lélio Floro. Ou Helvídio Silvano. Afinal, o inconsciente só obedece ao princípio da dor. Os desejos inconscientes são modificados a cada momento e de acordo com a realidade exterior.

Pôs-se a gritar o estranho. Aterrorizados, os espectadores saíram em disparada pela rua.

Um cão pôs-se a latir diante do anfiteatro.

 

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