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POR EM 17/11/2008 ÀS 04:46 PM

Paisagem do pequeno rei

publicado em

Mastigando ainda restos do desjejum, sem pensamento nenhum em sua cabeça, Juninho levantou-se da mesa e grudou a testa no vitrô fechado: seu modo de espiar aquele mundo que se mantinha escondido por trás das paredes. Pela boca aberta em cilindro, divertiu-se algum tempo expelindo o bafo quente com que embaçou pequeno círculo na vidraça transparente. E meio que riu, satisfeito com tal poder, o de cobrir a parte que quisesse do terreiro com sua cerração, aquele bafo que lhe subia do peito. Para além da janela, no fundo, a inundação de azul de um céu despenhadeiro: uma vertigem. Bem ao fundo, a inundação de azul, onde um rebanho de alvos cirros se deixava singrar por alguns pontos pretos movediços - pequenos e trágicos pontos finais - que, uns atrás dos outros, desenhavam largos e lentos círculos. Alheio ao significado do que ultrapassava os muros de seu terreiro, o menino desenhou, com a ponta do dedo, um grande jota arredondado: exercício necessário da própria afirmação. No gancho da letra, seus olhos enquadraram, no recanto mais afastado do terreiro, o imenso flamboiã de tronco rugoso, já meio decrépito, no exato momento em que um bando de maritacas marulhentas alçou vôo e mergulhou no céu, deixando a árvore, com seus galhos retorcidos, inteiramente desfolhada.

Grupo remanescente de andorinhas sobrevoou o terreiro - as claras penas do peito quase roçando os galhos mais altos da árvore praticamente nua. Talvez uma despedida, véspera da grande viagem. O menino olhou as andorinhas, o flamboiã, olhou as maritacas, distante e indiferente. Ele olhava com a boca aberta, olhava com as mãos espalmadas na vidraça, com os olhos, olhava com o corpo todo, mas nada entendia, porque tinha o olhar bronco de quem ainda não aprendera a possuir as coisas a distância.

Só ao ver o passarinho pular do nada para o meio da galharia é que se agitou um pouco mais. Como um chumaço de algodão embebido em mercúrio cromo, saltitando com vivacidade de um galho a outro, ágil, certeiro, encheu os olhos do menino, que, deslumbrado, apressou-se a limpar com as duas mãos a vidraça embaçada. Mas o que era aquilo, aquela pequenina bola púrpura, tão cheia de vida e de vontade própria? Gritou com estridência, chamando o irmão, para que viesse ver o que nunca tinham visto nem sabiam que em algum lugar existisse. O irmão terminava calmamente de tomar seu café com leite e não se moveu na cadeira. Juninho insistiu, aflito, parecendo-lhe aquela uma oportunidade única na vida, primeira e última. O pensamento foi-se, então, formando devagar, um grande círculo, como um remanso do ar em volta do terreiro, das árvores, um remanso lento, mas irreprimível. Um espetáculo que era seu, tão-somente seu. Além do irmão, a mais ninguém permitiria seu desfrute. Mas aquilo não chegava a ser um pensamento, porque ele apenas o sentia, embora com o corpo todo.

- Mas onde?!

Dois vidros acima, o irmão, impaciente, nada via além do que sempre ali estivera: as árvores, a pequena horta, um galpão coberto com folhas de zinco, uma gangorra e alguns trastes inumeráveis e invisíveis, de tão fixos na paisagem.

O menino gritou que no flamboiã, cada vez mais aflito, porque agora ele também nada via e relampejou-lhe a sensação quase insuportável da perda mesmo antes da posse. E sacudia as mãozinhas gordas preparando o choro.

Como se o mundo, de repente, estivesse a se apagar, o menino pensou com urgência.

- Lá!

Ele gritou com o dedo teso, quase furando a vidraça. Tinha acabado de rever, fascinado, a pequena bola vermelha a saltitar. Então, em pânico, vislumbrou o perigo: o passarinho não estava preso dentro daquela cena, que, de um momento para outro, poderia dissolver-se. - Eu que vi primeiro. Ele é meu!

O irmão não percebeu logo o sentido daquelas palavras proferidas com tamanha veemência e confirmou que sim, que era dele, e que ninguém, por enquanto, ameaçava privá-lo do que era seu. Ele não sabia que o pequeno jamais aprenderia a dispor de tudo com todos, pois era do tipo que só consegue sentir que é seu quando possui sozinho, sem partilhar com mais ninguém. E por não conhecer o próprio irmão é que tentou ainda por algum tempo mostrar-lhe o quanto é de todos aquilo que, a princípio, parece de ninguém.

Mas não é isso, foi a resposta exasperada que o som estrepitoso do sapateado abafou. O cabelo empastado na testa suarenta era sua irritação com a conhecida conversa de enganar, que já adivinhava: depois ele esquece. Não é isso. Meu é o que minha mão segura, seus membros agitados como em espasmo, por causa do medo.

Só aos poucos a compreensão foi-lhe penetrando venenosa. Suas propostas não demoviam o menino, cujo torvo olhar ameaçava sorver a paisagem toda: meu é na minha mão. Nem o canarinho da terra, estralando na gaiola, nem o hamster acrobata, que tanto o encantava. Nada. Quase certo que já os considerava seus. Necessidade nenhuma de barganha. Meu é na minha mão. E esperneava barulhento.

O corpo tenso ligeiramente inclinado para a janela, estúpido e esperançoso, Juninho acompanhou o imergir de seu irmão na loira claridade do terreiro. A expectativa machucava-lhe os músculos, mas a dor não o distraía. Sentia-se ligeiramente compensado das aflições ainda há pouco vividas, ao enquadrar na mesma cena o passarinho vermelho, nos galhos do flamboiã, e seu irmão, gestos atávicos de caçador, esgueirando-se rente ao muro, corpo em arco, longas esperas de cócoras - o estilingue preso pelas extremidades. Compensado, mas temeroso, ainda, com a possibilidade de uma fuga repentina, definitiva. O suor, por isso, porejava-lhe no buço, na testa, empastava-lhe o cabelo da nuca. Meu é na minha mão, sentia cansado mais do que pensava. Mas é meu, parecia responder seu olhar vitorioso, logo depois, ao olhar acusador do irmão, quando este, assomando à porta da cozinha, entregou-lhe nas mãos o passarinho. É meu. E reparou, enquanto lhe assoprava as penas, que visto de perto era ainda mais belo do que de longe, apesar da flacidez do pescoço de onde pendia inerme uma cabecinha inútil.

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