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POR EM 11/07/2008 ÀS 12:00 PM

Os azares de Nazeno

publicado em

Quando Nazeno instalou seu pitidog naquele arrabalde de Munducaia, jamais podia imaginar que um empreendimento tão miúdo pudesse lhe trazer tamanhas dores de cabeça. 
 
Primeiramente foi o fiscal de postura do município que, sem compostura nenhuma, lhe extorquia o rico dinheirinho, toda semana, em suposta operação fiscalizatória.
 
Recorreu a um vereador representante do bairro e conseguiu os documentos que supostamente lhe faltavam e o fiscal achacador deu uma trégua. Mas o que ele não esperava é que o vereador passasse a ser uma pedra no seu sapato. Volta e meia mandava alguém pegar um balaio de cachorros-quentes, refrigerantes e latinhas de cerveja. E pagar que era bom, neca.

Mas o pior de tudo ainda estava por vir. Tomezinho, o chefe da boca-de-fumo da área, resolveu fazer ponto na porta de seu estabelecimento. Não bastasse o desconforto de ter um traficante azedando o ambiente, o malfeitor ainda resolveu cobrar dízimo pela proteção.
 
Por último, a ronda policial resolveu dar um bacolejo nos malas da região. Quando Tomezinho viu que o pau ia pegar, achou por bem dar uma de esquerdo. Enfiou-se no estabelecimento, guardou junto com os pertences de Nazeno os seus petrechos: uma pistola automática de uso exclusivo das forças armadas, buchas de maconha, pedras de craque, papelotes de cocaína, além de umas latinhas de merla.

E ainda ameaçou o proprietário: “Os meganhas não vão achar. Mas se achar é tudo seu.” Imediatamente avançou num sanduíche que estava saindo para outro cliente e começou a comer disfarçadamente.

O ardil de Tomezinho não vigorou. Um policial a paisano viu tudo e os fardados chegaram e não pegaram apenas a tranqueira. Primeiro algemaram o traficante, depois pegou as muambas sem maiores aborrecimentos ao comerciante.
 
Foi então que Tomezinho ameaçou Nazeno: “Uma classe de gente que não merece viver é cagueta. Quando eu sair você me paga.”
 
Nazeno é um cara do bem, mas medroso que péla. E maior que o medo em si é o medo de deixar o medo transparecer. Ante a ameaça não teve coragem de contar pra ninguém. Sofria sozinho. O medo vinha em ondas. Começava como uma dor de dente, descia pro queixo. Fazia o queixo bater. Descia depois para o intestino, para se esparramar por fim para todos os nervos do corpo. E tremia feito um maleitoso.

Mas o tempo amenizou aqueles surtos e ele quase esquecia que era um homem jurado de morte. Mas ontem a justiça relaxou a prisão de Tomezinho, o que foi o mesmo que assinar a sentença de morte de Nazeno. A mãe do comerciante, que inesperadamente veio lhe visitar, mal teve tempo de aparar o corpo, para que o filho morresse em seus braços, vitimado por cinco tiros a queima-bucha, desferidos pelo malfeitor.

 
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