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POR EM 23/11/2009 ÀS 09:32 PM

O olho

publicado em

olhoexistem aqui:

mais ou menos trezentas pessoas e o olho não presta; mas não se engane leitor, não é do tipo de ausência presente: poesia tagarelada nas aulas de Heidegger; é de outra lonjura que a retina manca: nem tchum pra tanta cabeça: cabelo: couro cabeludo: e por dentro alguém que nem é aquilo mesmo. pior de tudo: sou jovem demais; foge da minha jurisdição adjetivá-las de fadigadas; em primeira instância perdi as pernas; em segunda estância o controle; no supremo Ela me tomou o juízo; não; não; não, leitor! metáforas só vão embaralhar a vista: tampar o sol com a peneira, isso sim! esse comichão na nuca: carujando lembrança que nem vai: preguiça do aqui, leitor: apodrece: cavuca silêncio: ferroando no vão: em vão; ah, leitor! você não compreende essa coisa; não dá pra engolir feito aprazolam genérico e dormir; ah, se eu fosse médium: encorporava você: nesta cadeira azul pra ver o que eu não vejo; um momento leitor:

não é Ela;

estão fazendo uma fila bem ali na frente; como no INSS só que sem doenças, sem tantas doenças, pelo menos: sem doenças de má-fé, pra ser mais exato; querem tirar fotos comigo, desocupados! mas vou dizer um negócio: - fiz previsão destas burocracias: mais ou menos trezentas pessoas e o olho digere uma única ausência; essa camisa social que estou usando é novinha, leitor; mas o tênis, como você pode ver muito bem, é aquele de sempre; aquele que usei ontem; você se lembra, hein? só passei um pano na ponta dele pra tirar os pisões no pé; a camisa está um pouco amarrota nas costas: foi por calor: riçado na bunda e na cadeira; pare a leitura leitor; deixe minha bunda suada em paz; não preste atenção nesses acidentes: esqueça; o que eu preciso dizer é outra coisa: bem simples, aliás: mais ou menos umas trezentas pessoas e o olho não vê só Ela: ou só vê Ela; gruda na ausência feito mosca em papel grudento (papel pega mosca se preferir); que nem olho de pião em bunda de crioula: cachorro em frango de padaria: criança em videogame: o olho pregado na cruz invisível: esqueça essa cruz, aliás esqueça toda a frase anterior. não sou burro, leitor; literatura é um plágio enfeitado da vida; puro congelamento: escrevo essas coisas porque não posso viver: mais ou menos trezentas pessoas e o olho não presta atenção no que vê.

 

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Comentários (1)

  • texto escrito rápido, pra se ler rápido e se pensar muito. pra procurar portões que dão para o fundo das palavras, para o quintal escondido onde se guardam as coisas que quem passa pela rua não deve ver. então vc pensa que vê, e vira o rosto pro outro lado, e rápido torna o rosto ao quintal de novo, pq vc quer ver. e quando vê sabe que está vendo. e vê todas as coisas amontoadas...
    e pensa consigo que seu quintal é igual, igual de medos, ambições e... desmemórias.


    2 anos atrás por Pam


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