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POR EM 24/06/2008 ÀS 12:06 PM

O automóvel

publicado em

Durante anos Alfredo Lisboa cuidou daquele automóvel negro, como se fosse algo profundamente seu. Durante anos não fizera outra coisa senão lavar, limpar e amar aquele carro daquela funerária de Balsas. Era um homem solitário, de pouca conversa. Andava sempre vestido de preto, embora não acreditando que a morte e seu enigma fossem apenas passagem para o outro lado da vida. Tinha suas crenças, sobretudo a de entender que a morte do ser humano era como a de qualquer outro animal, ou seja, quando se morre, acaba-se de vez. Tinha ele uma figura esquelética, corcunda, retraída e amarelada pelos linhos do Tempo, lembrando às vezes a de um sacerdote de um templo egípcio. Fumava muito e, de quando em quando, perdia-se por entre os uivos dos cães, as sombras e os açoites dos ventos noturnos, bebendo aqui e ali, de boteco em boteco. O que se sabia dele era que não tinha um parente sequer naquela cidade. Chegara ali numa jardineira antiga, ocre, GMC, como que fugindo de si mesmo, de algum trauma. Quem conta isso é o barbeiro Olício, tido por todos como confessionário, espécie de desabafo. Sabe-se que tivera sua família, mas a abandonara, a esposa lhe traíra com o jovem açougueiro Leônidas, e o filho, único por sinal, fora morar atrás das grades. Motivo: tráfico e estelionato. Agora, quase não tinha amigos.Tinha, no entanto, enquanto troca de palavras, apenas a presença do Dr. Elias Barreto, dono da única funerária daquelas bandas.
 
Quando pegou aquele emprego, fora por ser bom motorista, naturalmente pelo fato de que ninguém em Balsas tinha a ousadia de guiar aquele estranho Cadillac negro. Assim que alguém falecia, lá ia o Dr. Elias à casa de Ermidas, no outro lado do rio, solicitá-lo, por obséquio, que fosse dirigir aquele auto, levar o defunto à cova, à fome da terra.
 
Muitos diziam coisas sobre aquele automóvel. Até o lojista Anastácio, último a guiar o veículo, dizia que, numa noite, estacionado à porta de sua casa, quando dentro do mesmo, alguém soprou, às suas costas, na orelha sua, seguido, ainda, de uma gargalhada e um arroto. Em suma, havia muitas supertições acerca do Cadillac. Ele mesmo nunca vira nada. Sossegado guiava, sossegado falava, sossegado dormia nos fundos da funerária, junto aos ataúdes. O esquivo Alfredo era, na certa, uma espécie de sombra. Nunca tivera doença alguma que soubesse. Não tinha hábitos comuns, sequer freqüentava a casa das mulheres de vida “fácil”. Se gozava, se tinha prazer de orgasmo, talvez fosse lá no silêncio da funerária, atrás dos ataúdes, fumando seu cigarro-de-palha, masturbando-se, repensando na fazer de sua mulher e o jovem açougueiro.
 
Um dia, Alfredo Lisboa amanheceu frio, duro, amarelo feito açafrão, caído no fundo da funerária. E agora? Quem, uma vez que seu único irmão solicitara o corpo, iria levá-lo à sua antiga cidade, distante dali a uns quarenta quilômetros?, pensou Dr. Elias.
 
Apressado, Dr. Elias foi até o outro lado do rio. Lá chegando, soube que Ermidas viajara, não estava. A solução foi convocar dois amigos, Pedro e Thiago. Thiago era gay, mas corajoso. Pedro era tímido e sofria do coração, apesar de metido a macho.
 
O fúnebre automóvel avançou pela estrada barrenta rumo à cidade do irmão de Alfredo. Fazia um frio enorme. A noite descia escura e fechada. O vento zumbia nas copas das árvores. O silêncio cortava feito navalha. O ataúde, então semicerrado, com a tampa destravada, guardava o corpo de Alfredo. A noite já ia alta, quando aquela tampa do caixão rangeu e o velho Alfredo, que sem jamais saber que sofria de catalepsia, colocou a mão para fora do ataúde, afastando a mesma. Apático, sem compreender, bateu com a mão fechada no vidro transparente da cabina, aquele que fica atrás do motorista, dizendo meio fanhoso: “Que houve? Aonde vamos?” Num repente, Thiago largou a direção e saiu em desesperada carreira, enquanto Pedro, olhando atrás de si, estufou os olhos, começando a entrar em pânico, esticando-se todo, bufando, o coração uma mola propulsora, a boca entortando, e tic e toc e tac e fim.
 
O velho Alfredo nada pôde fazer senão sair do ataúde e colocar o corpo, ainda quente, morto, de Pedro, no interior do mesmo.O dia estava quase raiando, assim que aquele Cadillac negro entrou de volta na principal avenida de Balsas.

 
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