Desenho de  Wendy MacNaughton
revista bula

compartilhe



últimos comentários

  • Chega ser desonesto articular a situação ambiental degradante atual à religião, como se doutrinas religiosas fossem reponsáveis pelo buraco na camada de ozônio, por exemplo ou quem sabe pelas tonelada ...

    11 horas atrás por Carlos Rio sobre Pode detonar que Deus recupera
  • Compartilho da mesma angústia. ...

    16 horas atrás por Elizabeth sobre Garrafa ao mar
  • Euler e Elder, obrigado pelos comentários. ...

    17 horas atrás por eberth vencio
  • Caro, lei sempre seus textos. Gosto sempre. Entretanto, quando exagera na conversão de estrangeirismos para a língua portuguesa, fica bobo. Uma sugestão: não deixe de fazê-lo, mas faça com cautela, d ...

    17 horas atrás por Elder sobre A pior coisa que já escrevi na vida

últimas no twitter

  • Respire: 'Summertime' (George Benson e Jill Scott): http://t.co/CFRBWEat
    7 horas atrás
  • Numa carta escrita um ano antes de sua morte, Marilyn Monroe já se despedia: http://t.co/aQGLv7T0
    7 horas atrás
  • Busque um lugar para se hospedar, diretamente com os proprietários, em 19 mil cidades de 192 países: http://t.co/E28pOJhQ
    7 horas atrás
  • Navegue pelo corpo humano em 3D (é mais detalhado do que o aplicativo do Google): http://t.co/vHI5k5gi
    7 horas atrás
  • @myriamkazue Normalmente, não?
    10 horas atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

  • e eventualmente nojentas de casais escatológicos

sugestões de filmes

POR EM 14/07/2008 ÀS 09:46 PM

Adagio appassionato

publicado em

Sua mão estremece sábia e desconfiada após o afago. Corpo estranho, este corpo crescido, ela tateia: fora de seu controle. Contorna com os dedos o lóbulo da orelha, flácida curva. Definitivamente, com exceção do corpo, a mesma Estela que subia das ondas do mar, aureolada de sol, e vinha correndo ao seu encontro, aspergindo areia e o doce perfume de seu hálito infantil, e, cheia de inquietação, de longe, ainda, perguntava mãe, foi mesmo Deus quem salgou a água do mar?, e ela respondia que sim, minha filha, por saber que a menina em tudo dependia dela e isso a fazia sentir-se forte. Vê-la era sempre como um susto, por gosto. Com uma ponta do lençol, seca o rosto da filha, suavemente, porque mais que isso ela sabe que não conseguirá fazer.
 
Conhecera-lhe o corpo, saliências e reentrâncias, cada espaço, porque em si a tinha gerado. Apenas o corpo, que estava em si controlar. Você, pensa Lígia quase envergonhada, vinha correndo de dentro do mar, banhada de luz, respingada de água e areia e então eu a reconhecia. Como era bom aquele tempo em que eu a sabia uma parte de mim.
 
Há mais de meia hora a claridade azulada se esvai lenta e resig-nadamente pelas cortinas cerradas, abandonando o quarto. A cama, colcha repuxada, perdeu a aspereza das formas exatas: ninho de nuvens, agora. O Cristo da parede, coração exposto, não aparece mais na paisagem que até há pouco o sustentava. Lígia olha para o Cristo e para a janela, olhar duro e reto, irritada com a impotência dos dois. Então olha para o vulto impreciso de Estela sem saber mais nada, seu mundo vazio.
 
Nada, então, a solução de tudo? Por mais que se desespere tentando resolver a questão, apenas uma fina camada de suor no buço e as palmas das mãos frias e úmidas. Não está preparada para as transformações nem as deseja.
 
Às vezes tem a impressão de que Estela dorme, por isso torce bruscamente os dedos, temendo o impasse.
 
Com a mão trêmula e gasta de vida, sacode de leve o ombro da filha. Seu pai, Estela, daqui a pouco em casa. E a filha a encara, os olhos vermelhos ainda. E inchados. E eu, que faço de mim, desorientada? Lígia volta a olhar para a janela, em fuga, agora, para não se machucar naquelas duas brasas que a perscrutam. A janela é mancha azulada que nada diz.
 
Aguda e travosa, uma coisa arranhando o interior de sua garganta - a consciência da perda. E antiga. Não pode desvencilhar-se da idéia de que abdicara de alguma coisa sagrada no deserto instante em que recebia nos braços o corpo molhado de Estela. Que sim, sua resposta invariável, que Deus. Que outra coisa poderia responder, se ela era tão pequena e sua cabeleira loira empastada de água salgada nada revelava sobre o futuro?
 
No ar morno do quarto protegido, convidou Lígia. Assuntos de alcova. Estela estava tensa, o semblante destruído. Mas então, o que é isso? Não que ignorasse totalmente por que caminhos perigosos andava a filha. Não ignorava. Mas havia sempre a esperança de que não passasse tudo de boatos. Essa maldade que nos faz destruir com certo gosto. Mesmo, entretanto, tendo já tido notícias, precisava ouvir da própria boca, a boca de Estela, com a força de seu hálito, para então acreditar. Quando ouviu sua voz pelo telefone, logo depois do almoço, meu Deus do céu, uma voz assim, e achou que havia fundamento nas histórias.
 
No ar morno do quarto protegido, Lígia pensa horrorizada que o silêncio a vai estrangular. Então não eram mentiras, dizia o olhar com que recebeu na sala, logo depois do almoço, a filha desesperada. No ar morno do quarto protegido, ela convidou, porque dividia sua casa por assuntos. Tenta com afinco encontrar a Estela que emergia das ondas, mas só a encontra perquiridora refazendo as significações. Sem auréola de sol - tenebrosa. Bem mais fácil enlaçar-lhe o corpo quando molhado, apesar do sal e do frio. Conhecia-lhe, então, todas as curvas existentes e as que apenas se prometiam.
 
De repente, aproveitando-se de um dos muitos momentos de silêncio que se estabelecem no quase impossível diálogo, Lígia arrepende-se de ter trazido a filha para seu quarto. E é com horror que pensa nisso, porque aquela é a filha que criou, tentando todos os dias educá-la, fazê-la igual a si mesma. Tê-la agora deitada em sua cama, com a cabeça abandonada em seu regaço, é uma espécie de conivência indesejada. Há pecados contagiosos como doenças. Mesmo sem vê-lo, ela sabe que o coração exposto do Cristo vela acima da cabeceira. De súbito lhe vem à mente a palavra violação: seu significado perigoso. Se já estava há algum tempo aflita com a falta de progressão da entrevista, agora está convencida de que não deveria tê-la começado. Pelo menos ali, no quarto do casal.
 
O que de certa maneira abranda a cumplicidade entre mãe e filha, ela descobre, são as sombras que silenciosamente foram diluindo todas as formas nítidas. Não ver alguma coisa pode significar sua anulação. E Lígia, então, volta a sentir-se calma e segura. Mesmo assim, contudo, é com alguma relutância que seu dedo desenha no escuro o rosto de Estela, numa carícia tão antiga quanto dissimulada.
 
Estela retrucava, às vezes, o coração cheio de suspeitas, mas como é que você sabe?, querendo descobrir as razões que se escondiam nas respostas da mãe. Ora, porque sempre foi assim. Cansada ou incrédula, sentava-se na areia e construía castelos de curta vida. Mas eles eram reais e decifráveis. Às vezes espichava os beiços e enrugava a testa, significando sua discordância. Era assim que costumava encarar os adultos, seu modo de ser insolente, de os considerar sempre culpados.
 
Ao fecharem sem ruído a porta do quarto, apesar da penumbra em que imergiam, por causa das cortinas, Lígia percebeu que era ainda dia claro. Examinou a janela, sem muita atenção, entretanto, pois sabia que a tarde vagava ainda entre sexta e noa. Antes que pudesse proferir uma única palavra, Estela jogara-se na cama, de bruços, engasgada em seu próprio choro. E assim ficara, por mais de meia hora. Entre soluços e suspiros, ao final de muito tempo, contou indignada a decisão do marido. Irrevogável. Ele, um advogado com seu vocabulário. Assim mesmo dissera: irrevogável. Afinal, quais são os limites do amor?, fitando a mãe, a interrogação naquela mesma cara com expressão de areia e mar. Por que há de ser o coração tão estreito que nele caiba apenas um amor?
 
Horrorizada, Lígia fizera o sinal da cruz. Que Deus, o mesmo que salgara o mar, perdoasse aquela menina pelo nonsense do que dizia. E tentou afastar-se, mas era-lhe impossível sem que empurrasse a cabeça da filha em prantos. E apesar do horror, e do suor, e do olhar manso e puro do Cristo de coração exposto, afagou com suavidade a cabeça jogada em seu colo. Que Deus nos perdoe a todos nós, humildes pecadores.
 
Volta-lhe o sentimento da violação, cujo zumbido, aliás, não tinha deixado de ouvir num espaço por baixo da consciência. E observa, então, como naquele momento se arrependera de ter trazido a filha para seu quarto. Nunca se pensara capaz de sentimento tão mesquinho. E este arrependimento do arrependimento anterior, que é negação por fechar o círculo, ele é que a impulsiona a curvar-se e, lábios tateantes, procurar a face da filha. Difícil entender a vida, minha filha. Há muito renunciei a qualquer entendimento. E no escuro do quarto, sente-se por momentos enternecida. Estela, ao jogar-se em seus braços - encharcado, seu maiô azul salpicado de estrelas - está entanguida de frio, a pele arrepiada. Ao enlaçá-la pela cintura, aquela mesma sensação de que a está perdendo. Já não sei quem foi, minha querida, não sei quem foi que salgou a água do mar. Mas onde foi isso, quando? Lígia olha para o Cristo de coração exposto, olha para a janela, como se fossem mais do que apenas duas direções, suas formas desfeitas na escuridão, e lhe pudessem sugerir alguma resposta.
 
Lígia não sabe mais se a filha vela - debruçada sobre sua dor - ou dorme, finalmente aliviada. Sacode-a com delicadeza e cheia de medo do que poderá estar acordando.
 
- Estela, minha filha. Agora temos de levantar. Já ouço os passos de seu pai.

 
Bookmark and Share

Comentários (0)



*Obs — todos os comentários são moderados.
Não é aceito nenhum tipo de script ou formatação, caso queira adicionar um link apenas cole o endereço normalmente.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2009 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — editorial@revistabula.com


renovatio