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POR EM 23/03/2009 ÀS 04:23 PM

Variações em torno do paraíso

publicado em

Proscritos de aurora  

Vivíamos com os búfalos e éramos soberanos em Aurora. Era lá o Eldorado, ondulados, serenos horizontes, e o azul, o azul e o azul nas imensidões. Os búfalos no paraíso, imensuráveis e livres, na placidez dos dias longos e ensolarados; a sombra das nuvens passando, os búfalos pastando, calmos, e nós no meio deles — os olhos transbordados de estrelas, ou de luar derramados, quando as noites brancas de lua nua nos claros cimos da amplidão.
 
Com os búfalos irmanados, sem limites, errantes prosseguíamos, dias de inocente liberdade. E quando da terra os fêmeos almíscares, os búfalos possuíam-nos a alma, e nos possuíamos com selvagem naturalidade, circunscritos aos desígnios de Aurora, como a erva que nela medrava e era múltipla. Tal nos foi dado ser, até que um de nós houvesse com a ciência da terrível arma, na tíbia duma ossada, e da ira sobreviesse o incêndio das planícies, com a faúlha de sílex. Então perdemo-nos dos búfalos, perdemo-nos de nós, e perdemos Aurora. Proscritos pelo fogo da ira, aonde vamos agora?
 
O nome e o nada  
 
Era o amálgama de tudo, para que o homem houvesse dos elementos, soubesse a duração das coisas e a medida de si mesmo no meio delas, seus instrumentos. Era Emon, o Nome em si, para que Adan, reverso do Nada, conhecesse a ciência das águas e o outro lado. Eram os homens, os nomes, os símbolos e as lâminas de seus anagramas, para que soubessem a forja, o fogo e a força dos sábios.
 
E disse Emon: Constrói os telhados, as pontes, preserva as fontes e cuida que o grão não morra para os que virão a seguir. Mas Adan a tudo ignorou, perdeu-se prescrito pelos anagramas de seus desertos, anda a esmo e se abeira do Nada, seu abismo.
 
Quando a aurora rubra  
 
Os ventos virão com o fogo dos fogos, e o fogo purgará de todas as pragas a terra amarga. Rubras arderão as fornalhas dos oleiros de Aurora, entre dálias e rubis! Florescerão os lírios do futuro, ao romper do dia a luz da luz, afugentando os flagelos das sombras. Os signos do clarão triunfal acenderão os corações e os candelabros do mundo, quando abrir-se a manhã madura, com seus cachos de fogo. 
 
Um chão forrado de amoras  
Primeiro velório  
 
O velório, as pétalas e lágrimas-contas do rosário, enquanto lá fora paira o canto, ou mais que um pio de triste memória. Um chão forrado de amoras sangra o roxo da terra que chora magoada. Tudo por conta do Pelego, o diabo dos cabelos de fogo, que abusou de Rosa Maria da Glória, a virgem negra, depois matou e jogou n´água. Um rio de dor Rosália pela filha derramou. Os negros pegaram Pelego a unha e carne, sangue nas serrilhas do capim-navalha.
 
Espelhos de sol no dorso prateado das folhas de imbaúbas. Denúncias de bem-te-vi, alarde de gralhas, almas-de-gato de atalaia no equilíbrio dos galhos. Pedregulhos andarilhos e navalhas de orvalho. Passos com a foice daquela que anda pelos atalhos. Quem passa, essa com a foice? A dama dos panos pretos, a rainha dos mortos, a dona de tudo, a senhora dos dias, do fim de todas as horas. E os negros com o caixão de tábuas pobres, os negros e suas lágrimas. Por quem choram os negros? Por quem os sinos dobram? Os negros choram por causa de Rosa Maria da Glória, e os sinos dobram por ela mesma, a rosa negra das roças, das canas lavradas, de pétalas coberta, em pano roxo fechada, com a noite das noites da morte. Coitada! Tão Nova! E ainda nem noiva! O namorado enlouquecido, o Tiziu, dando cabeçada nos paus, até pôr sangue pelo nariz, o infeliz. Naquele dia, urutau no pico do pau não dormiu.
 
Segundo velório  
Detalhe para as mãos de rosália 
 
Os sulcos, os ciclos da terra antiga, aral de torrões e aranhas, na pele negra de Rosália. As linhas, os meandros, os desvios da vida, emaranhados no mapa do rosto amarrotado. Sobretudo, a dimensão das mãos; os nódulos como símbolos dos dias amargos, debulhados nas espigas do pranto, que só lhe foram alimento os dias feito grãos de solidão. Uns olhos tristonhos que eram os seus, negras contas-de-lágrimas, numa água cinzenta de mágoas.
 
Grossas, sinuosas, as veias das mãos, como dessas árvores que atravessam o tempo e as intempéries as raízes que afloram arrebentando a terra escalavrada pelas águas, batida pelos ventos de todas as direções. Mãos de árvore-mulher expostas às mais vis vicissitudes, ilesa, o quanto pôde, de outras tempestades. As unhas entranhadas pelas nódoas da lida com a terra e a vida, que são os nódulos de tudo.
 
Na sozinhez das idades, se demoram ainda as mãos de Rosália. Erma treliça no abandono do corpo no mundo, se demoram ainda, de outras eras, as velhas mãos da terra. Já não colhem do quintal as últimas amoras. Já não colhem, as mãos do campo, os ramalhetes. As mãos em feixes — ramas —, no ataúde humilde.
 
O pio tristonho do anu-preto, pousado na cerca. Tufos de capim resseco, rodopiando ao vento. Teias de aranha no tear do esquecimento. No baldrame da porta, o companheiro Fiel; os olhos tristonhos, lacrimosos, dolorosos demais para serem de outro animal diferente de um cão. Uivos ao vento. Nunca mais lamberá as doces mãos de Rosália, as rosálias mãos do afago, com aquele gosto de velhos amigos.
 
Os porcos repisando o chão ensangüentado de amoras, os frutos amassados de tanto sofrimento.
 
Ofício dos mortos  
No reino de abracadabra   
 
Eis a derradeira morada, a terra sa(n)grada em que repousa Rosália, ao lado de Rosa Maria da Glória. Duas rosas negras perdidas na trama das linhas intrincadas, nas entranhas da terra finda, que é o fundo tenebroso de tudo e nada na memória que se apaga. Mas quem sabe nada se acabe, e uma certa escrita de céu destrave a língua no aranhol das linhas quebradas de Abracadabra. E o leito em que se deita o corpo nem seja o terreno do reino eterno, mas a cova em que o morto espera pela chuva que a tudo renova. Quem sabe nem há epílogo, e os mortos só vão ali e voltam logo, pra reacender o fogo. E não haja nada além da vida, senão a vida, e só a vida, além do nada. Quem sabe — oh, quem dera! — os mortos tragam o trigo da terra sem choro, o cheiro da terra viva e os pintassilgos da primavera.
 
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