Uma vergonha!
Nesses últimos dias, tenho me lembrado muito do Boris Casoy, que nem sei por onde anda atualmente. Mas houve época em que era famoso o bordão com que demonstrava sua indignação com a política e os políticos brasileiros. Me lembrar do Boris Casoy não implica adesão a seu pensamento ou concordância com tudo que ele dizia. Em muitos pontos, contudo, me parece que ele tinha razão. O sentimento da vergonha, em nossos frágeis corações, já é cicatriz que não desaparece nem com reza brava.
Tenho contado por aí passagens da minha vida, meu percurso até chegar a esta região que me acolheu como filho. Por isso aqui fiquei. Algumas pessoas até já sabem, mas nem todas, o que vou contar novamente com a esperança de não estar caceteando ninguém com o assunto. O caso é que investi a melhor parte de minha vida (os anos da juventude e boa parte da primeira maturidade) num projeto cujo centro era o Brasil, mas um Brasil democratizado. Vivi os anos de chumbo, melhor seria dizer sobrevivi a eles. Um dia conto isso tudo com mais detalhes. Acho que não é segredo o fato de que saí do Rio Grande do Sul clandestinamente no ano de 1965.
Os lances por que passei não foram privilégio meu, nem foram os piores. Houve gente que sofreu muito mais. Houve gente que não sobreviveu. Foi com lágrimas que participei dos comícios pelas diretas, na Praça da Sé e no Vale do Anhangabaú. O povo foi pra rua, os brasileiros queriam democracia.
Antes que alguém me interprete mal, declaro que jamais me arrependi um fio de cabelo pelo que fiz. Hoje vivemos em regime de liberdades democráticas.
Mas meu Deus do céu, o que os políticos que ascenderam ao poder (em nossas costas, diga-se de passagem) fizeram com a vida pública do Brasil é digno de um chiqueiro de porcos. Não se passa uma só semana sem que um novo escândalo irrompa no horizonte do Brasil. São desvios de dinheiro, favorecimentos ilícitos a amigos e parentes, compra de votos e imoralidades de toda sorte. A Câmara Federal e o Senado (principalmente o Senado nestes últimos dias) tornaram-se palco de brigas de baixíssimo nível, dignas dos ambientes mais sórdidos.
Mas não se engane, caríssimo leitor. Não estou acusando este ou aquele partido, este ou aquele político. A verdade verdadeira é que não existe virgem na zona. As brigas não se dão porque fulano ou sicrano quer moralizar a vida pública brasileira. Ninguém é inocente, nesta história. As eleições, no ano que vem, é que motivam tantas acusações. Hoje é um grupo que mama nas tetas gordas do Estado, mas todos querem mamar, por isso brigam. E nós, que pagamos a conta, assistimos a tudo de camarote, como se nada tivéssemos a ver com tudo isso. Ora, ora, também não somos inocentes, pois sem nosso voto eles não estariam lá.
E viva a democracia! Por que não? Hoje somos um povo envergonhado, mas sem ela nem o direito de reclamar, como estou fazendo, nós teríamos.
Inté!





