Uma vala comum
A vida é complexa demais para ser compreendida numa só existência. Portanto, para os que não creem em reencarnações (espécie de “recall” espiritual) e na eternidade o baque pode ser medonho. Mas nem sempre é assim. O ceticismo também poupa mentes da idolatria e do fanatismo. É incrível: eu conheço alguns homens agnósticos que têm uma paz e uma serenidade de fazerem inveja.
Enquanto a “imensa nação rubro-negra” festeja a chegada do jogador de bola Vagner Love a Gávea, a também “imensa nação haitiana” padece sob os escombros de um dos maiores terremotos da história. Não se sabe ao certo quantos morreram por causa do abalo sísmico. Mórbidas especulações globais dão conta que acima de cem mil pessoas foram extintas pelos destroços de casas e prédios naquele país.
“E o que tem uma coisa a ver com a outra?” — algum flamenguista haverá de inquirir, imediatamente irritado com a estapafúrdia analogia. Olhando assim de relance, nada. A não ser o fato das duas situações fomentarem comoção pública, ainda que por motivos antagônicos. Quem nunca rimou amor e dor, os sentimentos mais viscerais que se tem notícia?! Agora, tocarmos a vida como se nada tivesse acontecido, como se a desgraça fosse um mero acidente de percurso envolvendo gente negra e pobre, mais uma calamidade afetando a ralé, é extremamente contraditório. O sentimento que me perturba é do poeta: “é impossível ser feliz sozinho”...
O fato é que, no íntimo, pinta um certo grau de constrangimento quando as catástrofes, sejam elas domésticas ou internacionais, arrebatam vidas aos borbotões, a ponto de cadáveres serem atirados em valas comuns com o uso de tratores e pás mecânicas, como se viu no paupérrimo país caribenho. Assistir às imagens sem associá-las ao holocausto foi inevitável para mim.
Há alguns anos, tive oportunidade de visitar a República Dominicana, país fronteiriço ao Haiti. Foi lá onde conheci o oceano em suas cores mais estonteantes. Ganhei estadia de uma semana num hotel luxuosíssimo, categoria cinco estrelas, esquemão “all inclusive” para comida, bebida e top-less. Deparei com peitinhos, peitões e estórias de furacões que volta e meia dizimavam aquele paraíso. Na ocasião, os nativos me contaram que o país vizinho, além de abatido pelas mesmas intempéries, também penava com a pobreza, tensão social, instabilidade política e muita, muita violência.
Considerando o planeta um domicílio único da raça humana, conquanto retalhado por fronteiras virtuais (ou demográficas), religiões diferentes (todas são iguais no quesito “convencimento em massa”), e pelas mais variadas línguas e dialetos, advém muita indignação ao constatarmos que, embora o sofrimento vigore nos quatro cantos do mundo, acordamos todas as manhãs e agimos como se não fosse com a gente. Até que um pedaço de morro despenque sobre o telhado e nos entupa de lama.
Enquanto a ambição de edificar colônias humanas noutros planetas insufla o ego e o raciocínio dos cientistas da NASA, multidões de miseráveis são privadas de alimento e água em comunidades remotas do continente africano, por exemplo. A conquista do espaço sideral consome tempo e dinheiro de países ricos, embora a conquista de comida seja um desafio mortal para homens e mulheres abandonados à própria sorte. Nestes redutos, literalmente, quem sobrevive aos revezes, chora. São lugares em que os filhos clamam, mas as mães não escutam. Enfim, a conjunção terrena do caos e da miséria. Ora bolas, quem precisa afinal do céu e de inferno?! Tá tudo por aqui mesmo.
Notícias emanadas do Haiti revelam que o país quase acabou. Missões estrangeiras (homens, cães e radares eletrônicos) garimpam vozes em meio aos escombros, caçando vidas que ainda teimam soterradas. Muitos morrerão de inanição pelo simples fato da ajuda não chegar a tempo. Cenário do desespero e da desordem, existem relatos de saques, roubos, incremento agudo da violência urbana por conta do salve-se quem puder. Todo esforço pela sobrevivência, ainda que seja necessário aniquilar um amigo, um parente, um colega de infortúnio. Lembro-me, leitores, dos pontapés mortíferos desferidos pelo filho na própria mãe, na escuridão da madrugada, durante uma inundação na roça, num comovente conto do escritor Bernardo Elis intitulado “Nhola dos Anjos e a cheia do Corumbá”. Quem ainda não leu, leia e chore.
O relativismo das coisas, então, tem “deixado aflito este pobre coração”. A culpa não é do atacante Vagner Love. Nem da torcida do Flamengo. Nem do culto à beleza em detrimento da cultura e da saúde. Nem da perseguição insana ao dinheiro e ao patrimônio material, elementos mais requeridos do que o oxigênio e o sexo. Nem das garotas da laje. Nem do público masculino que se masturba pelas garotas da laje. Nem dos “brothers” que têm o seu cotidiano ridículo bisbilhotado pelas câmeras e pelos olhos de uma abobada audiência televisiva. Nem da nossa idolatria aos seres idiotas (o que, neste caso, se trata de “idiolatria”). Nem dos cofres de seda, meias que calçam bem nos pés de qualquer homem, seja ele corrupto ou não. Nem das minhas crises existenciais.















