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POR EM 02/02/2009 ÀS 06:12 PM

Uma noite memorável

publicado em


Naquele janeiro desolado, deixou para trás a mulher e os três filhos na cabana dos pais já velhos, na pobreza plena de trabalhadores sem trabalho, às margens do ribeirão Bingueiro, e se mandou pra Mundocaia, em busca de melhores dias.
 
Mas Mundocaia foi decepção total. Carlindo Raleado não achou o jeito da cidade. Ela parecia selada, por fora e por dentro, para gente sem beira nem algibeira como ele. Tentou de tudo – servente, segurança, catador de papel, amolador de facas, limpador de quintal, chapa de caminhão – mas de tudo que tentou a cidade lhe foi hostil. Cedo ainda concluiu que a cidade não gostava dele. Que aquilo era uma terra amaldiçoada, caprichosa, habitada por gente sem piedade e sem coração.

Na primeira oportunidade enviou um bilhete à mulher por intermédio de um motorista a da Viação Marrequinho. Estava deixando para sempre a cidade maldita para se aventurar em Goiânia. Não sabia por que, mas acreditava que na Capital ele se daria bem. Talvez porque teria ouvido no rádio que Goiânia estava precisando de muitos trabalhadores para o desenvolvimento de websites e que essa atividade estava dando um dinheiro lascado.

Praticamente dois anos se passaram sem que a família tivesse notícias do aventureiro e vice-versa. Já era tempo suficiente para Carlindo Raleado ir se raleando na memória dos seus. A esposa ainda nova, em plena posse de suas chamas uterinas, de vez em quando não hesitava em olhar para homens ocasionais com olhos de arpão.

Mas agora em dezembro, nas reticências do dia com a noite, Carlindo apareceu de chofre. O filho mais novo gritou: tá chegando um homem aí. O pai, já meio caduco, proclamou: é o fantasma de meu filho!

Sem ao menos esperar a surpresa esvaecer, Carlindo foi avisando: só vim buscar minha família. Tenho obrigações em Goiânia e com obrigações não se brinca. A cada um deu um presentinho à-toa, que seus caraminguás permitiram. Na madrugada juntou a mulher, as crianças e os trapinhos, jogou tudo na Viação Marrequinho, rumo a Mundocaia. Lá embarcou num busu para Goiânia, onde chegou no fim do dia.

Com a família deslumbrada, que ninguém tinha visto cidade grande, Carlindo saiu da rodoviária direto pra cooperativa de catadores de papel. Vestiu os varais da carroça que o esperava, orientou mulher e filhos a segurar nas laterais contra os perigos da cidade e saiu todo lampeiro, exibindo sua habilidade por entre os carros.

Quando chegou ao cruzamento da T-4 com a T-63, esmolou os passantes, alegando o passadio fraco da família. Com o dinheiro amealhado, comprou uma pizza grande, um refrigerante idem, e se encaminhou para o viaduto da 85, recém-inaugurado. Alojou-se sob a rampa magnífica, no local onde vai ser um espelho-d’água. Ali, entre as estrelas, as taças, as luzes e o foguetório do Natal, cearam aquele maná divino, que a família desconhecia.

O filho mais velho, orgulhoso do pai, disse: um dia, papai, quero ter um carro assim, que nem o senhor. Ao que o pai respondeu comovido, num gesto largo, mostrando a cidade e suas luzes: tudo isso filho, até onde a vista alcança, um dia será seu!    

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