Uma cópula de crápulas da cúpula
Bem que este 2009 poderia ter sido melhor para o povo brasileiro, mas não foi, infelizmente, e muito por conta do descarado, cínico e vergonhoso processo de corrupção em vigor no País, onde as flagrantes e contundentes imagens não falam por si, não dizem nada e, logo, não valem nada, pois não provam coisa nenhuma. Sábias palavras, se aqui não nos censuram o gostinho da ironia.
Convenhamos que é preciso ter “coragem” para, sem nenhum rubor nas faces, afirmar isso aos olhos e ouvidos do mundo, negar o fato concreto que cai como um bloco de cimento em cima do povo, enquanto as manchetes da imprensa local e internacional estampam os fatos incontestáveis, repercutindo a sordidez da política brasileira. É fatal: se alguém é denunciado, logo vem com ameaças: se ele cair, outros cairão com ele. E sempre funciona, pois a sujeira é de longo alcance: a falcatrua então se encaminha para o pazzaiolo, cuide ele do serviço sujo da “limpeza”.
A quebra da ética com a coisa pública, com efeito, varou o ano inteiro e chega neste dezembro como um indesejado presente, ou melhor, um abominável pacote de sujeira, lama, descaramento de homens públicos e, o que é pior, quase sempre com a pizza da impunidade e da galhofa, fazendo pouco até da justiça, zombando do cidadão, do eleitor, do contribuinte, do patriota abalado em seu sentimento pátrio. Haja vista o gozo, a cópula de crápulas da cúpula ao cúmulo de se orar agradecendo a Deus pelos frutos do roubo. Vale aqui o velho bordão: que país é esse? E que homens são esses?
A que ponto chegou a cretinice neste macunaímico Brasil! O mau-caratismo grassa a granel, enfiando dinheiro sujo na mala, na bolsa, na cueca, nas meias e sabe-se lá onde mais ele se enfia, não raro com as brechas das leis, com o mexer dos pauzinhos, com o safado “jeitinho brasileiro”, até com alguma conivência ou conveniência de setores dos poderes constituídos.
Enquanto isso, a propaganda oficial afirma que tudo vai bem, a economia vai bem, o desemprego caiu, o poder de compra do brasileiro melhorou, os índices da corrupção também “caíram” (!), pois a polícia está agindo, como mostram as prisões exibidas pela televisão. Por outro lado, a criminalidade e a violência assaltam o País — no Brasil não se investe em segurança com o devido vigor —, as políticas sociais não são lá essas coisas, a infraestruura urbana em geral é caótica e o povo sofre as conseqüências de tudo — até da corrupção policial, o cúmulo que dá medo —, não bastassem as catástrofes naturais, semeando tragédias, atingindo, sobretudo, os menos favorecidos.
Os que nos governam se queixam e culpam a imprensa, fazem dela o seu bode expiatório e chegam ao cúmulo de reeditar, por conta própria, a censura. Jornalista Salete Lemos, da TV Cultura, crítica governo e bancos — “enriquecimento ilícito, lesando milhares de clientes” — e pedem sua cabeça e ela é demitida; Arnaldo Jabor também faz críticas e tem site censurado e retirado do ar por determinação superior e a pedido do mandatário-mor. Se o Brasil vai bem, é o Brasil “deles”, pois o povo brasileiro não está assim tão satisfeito, em que pesem os índices de popularidade propagados por meio da mídia. Pois é, a mídia... Maga da manipulação e do induzimento público, amiúde um rebanho de tolos.
O povo bem que gostaria de ganhar de presente, neste final de ano, o mínimo que lhe é devido: a certeza do fim da impunidade, do fim do favorecimento à bandidagem política. Um fio de esperança se evidencia (?) com o anunciado novo Código Penal a caminho, caso o mesmo não sofra algum acidente de percurso, ajeitando parágrafos e incisos que favoreçam as elites dominantes e, no meio delas, os bandidos que abriga, sob o surrado manto da injustiça e da impunidade.
Feliz Natal, uma piorra! Feliz Ano Novo, uma pinóia! A boa-nova, além da maldita oração de cúpula em Brasília, todos viram-na aí: um garotinho martirizado com dezenas de agulhas no corpo, por conta de umas crendices dos quintos dos infernos, ou só por crudelíssimos atos de maldade, contra uma indefesa criança. Outra boa-nova foi a soltura, pela douta justiça (?), do médico milionário e acusado de crimes sexuais contra suas pacientes, mais de cinquenta delas, segundo as notícias. O Brasil desanda. E por onde é mesmo, por que obscuras bandas, o bom Deus anda? Tivéssemos uma efetiva justiça divina, pois de sobra temos a podre injustiça dos homens.





