Uma cantada de jeito
Jeremias Sandroni é temente a Deus. Mais que temente. É grato a Deus pelo trabalho quem tem, pela mulher bonita e dedicada, pelo casal de filhos maravilhosos. Sem contar outras bênçãos colaterais, como os pais ainda saudáveis, os amigos solícitos, o chefe camarada e o apartamento adquirido em prestações toleráveis, no melhor bairro da melhor cidade do planeta. Às vezes sentia um pouco de culpa por ser tão feliz, quando o mundo ao redor seguia surrado pelas tribulações, que ele julga serem bíblicas. Até quando ele estaria a salvo?
Naquela sexta-feira, ao fim do expediente, subia feliz pela 85, rumo à sua casa, onde pegaria a mulher para encontrar os amigos, jogar conversa fora num boteco de gente bonita, nos arredores de alguma fonte ejaculante e luz difusa. Os filhos ainda pequenos ficariam em segurança com os avós.
Parou num sinal, mirou o retrovisor interno, conferiu com orgulho o rosto simétrico, a cabeleira farta de corte bem feito, entreabriu os lábios e confirmou a presença dos dentes brancos e bem alinhados. Arrancou um fio de cabelo que pendia da narina esquerda, único detalhe em desalinho. Atrasou um átimo na saída quando o sinal esverdeou-se. Foi o bastante para que um carro o tocasse na traseira.
Não deixou de levar um susto. Leu nos jornais que esbarrões sem importância têm tido consequências desastrosas. Os motoristas estão num estresse de lascar e partem pra ignorância, sem que nem porquê. Mas logo viu que até nisso dera sorte.
Desceu do carro uma moça em bolha de primavera, feições alegres; uma beldade e tanto. Moça digna, alta, com todos os espaços colonizados pela beleza. Quando falou foi como se falasse com a voz dos deuses, talvez a voz de Eros. Jeremias até se esquece de verificar os danos. Percebe que a moça também se encanta por ele.
Após os olhares mútuos de encantamento, ela toma a iniciativa de averiguar os estragos. Para sorte de ambos, não houve amassados nem esfolas. Tinha sido mesmo um esbarrãozinho de nada. O entrevero não atrapalhava muito o trânsito, pois acontecera na faixa lateral direita. Jeremias, como que por instinto, aproveita para esticar um pouquinho a prosa, entabular um assunto, um sobrevoo de reconhecimento, uma busca de convergência de interesses. A moça faz discretos trejeitos de recato. Mas dá alguma vaza ao joguinho de Jeremias. É a primeira vez, desde sempre, que alguém o deixa naquela levitação sem conta.
Num gesto de ir embora, a moça puxa de um cartão na bolsa e lhe entrega:
— Se notar algum problema, me liga. Mas eu ficaria mais feliz se você me ligasse porque não notou problema nenhum.
Jeremias passa um fim de semana aturdido. Pela primeira vez achou a mulher chata e os filhos entojados. Mal esperou segunda-feira para ligar. Encontraram no apartamento da moça. Ela lhe pareceu mais bela ainda. Entenderam-se. Fizeram juras de amor. Rolou sexo. Não daquele velho de recreação ou reprodutivo. Mas um sexo-manifestação-cultural, que oscila entre as artes visuais e as artes cênicas. Saiu dali com o firme intento de contratar um advogado para o seu divórcio.
Jeremias percebe, sem lamentações, que a tribulação havia chegado pra ele também. Tudo em sua vida estava agora do avesso. Num doce avesso!















