Um sonho (latino) americano
Eu tive um sonho. Eu tive um sonho ruim. Eu tive um pesadelo. Para ser franco, eu tive um pesadelo hediondo.
Sonhei que a marra mútua entre brasileiros e argentinos tinha azedado de vez. Migrou do futebol para as relações econômicos, daí para a diplomacia e, finalmente, desta para a força bruta, depois de uma declaração de guerra.
As forças portenhas vieram afiadas direto da guerra das Malvinas e as brasileiras chegaram ao front bisonhamente, vindas, de velho, da guerra do Paraguai.
Enquanto as batalhas se prolongavam indefinida, com perdas absurdas de lado a lado, o mundo, diante da crise econômica sem precedentes, escorregava de ré do neoliberalismo para o neoabsolutismo. Daí para o neofeudalismo foi um passo. E uma idade média, com cara de pós-modernidade, enraizou-se de norte a sul, de leste a oeste, feito uma praga sem remédio.
Transcorrido mais de uma década, finalmente a Argentina subjugou o Brasil. Mas o ódio dos argentinos por nós era tamanho que não quiseram anexar o nosso território ao deles. Começaram a nos explorar como se explorava um retiro ou um morgado na idade média.
Por direito adquirido ao vencerem guerra justa, os portenhos acharam por bem, não só rapinarem nossos cabedais, mas nos escravizar a todos. Primeiramente, procederam uma segregação rigorosa, separando as pessoas de seus núcleos familiares e de seu ambiente social. Impingiram-nos mordaças, uma mistura de freio de cavalo e boqueira de cachorro, para que não ouvissem nossa voz, tampouco pudéssemos conspirar contra eles.
Por intermédio da concessão de um dízimo periódico, os argentinos conseguiram que um concílio ecumênico mundial, com o papa no meio, exarasse uma bula atestando que os brasileños são seres desprovidos de alma, reduzindo-nos à condição análoga à de semovente. Por isso poderíamos ser escravizados à vontade.
Destruíram nossas escolas, nossos monumentos, queimaram nossos livros, arrasaram nossas instituições culturais, políticas e sociais. Atrelados por grilhões de ferro, eles nos acomoldaram em cafuas de papelão e plástico preto. Nos deram alimentação de porcino e carga horária de mula. Levaram nossas popozudas para seus desfrutes furunfários. As mulheres de poucos atrativos, mas em condições de procriar, foram gerar novas safras de escravos. Alguns machos testados foram pegos para reprodutores. Com o excedente de pessoas deu-se início a exportação de mão de obra escrava para o resto do mundo. Os mofinos, os coxos, os manetas, os desprovidos de habilidades em geral foram encaminhados aos desmanches para o aproveitamento de peças. O déficit mundial de órgãos para transplantes zerou em pouco tempo.
Nosso Brasilzão transformou-se numa confederação de frentes de trabalho agrícola. Cada qual comandada por um irado feitor portenho, de voz gutural e azorrague em riste. Aboliram o samba, a cachaça e o carnaval. Do futebol só restaram os bordões dos feitores, ditos aos berros, que o deles é o melhor do mundo. A música que se ouvia agora era a chula, e o tango na velha voz de Gardel e um bandoneon rasgado. Um inferno a céu aberto se abateu sobre a pátria amada. Salve! Salve-se!














