Um pouco mais sobre Gödel
Diariamente, Kurt Gödel ia e voltava do Instituto de Estudos Avançados acompanhado de nada menos que Albert Einstein que já era muito famoso na época. As conversas pareciam ser animadas e ainda hoje é objeto de especulação para os historiadores da ciência. O assistente de Einstein, Ernst G. Strauss, uma vez contou que Einstein tinha chego chateado no laboratório pois achava que Gödel estava totalmente maluco. E porque? Votou em Eisenhower”, respondeu o físico.
Mais de uma vez Einstein disse que ia ao Instituto só para conversar com Gödel no caminho, já que os argumentos lógicos deste matemático sempre eram muito precisos beirando o non-sense. Rebeca Goldstein em seu “Incompletude: a prova e o paradoxo de Kurt Gödel” (Cia. das Letras 242p.), descreve alguns destes “causos”: no Instituto criaram um departamento só para ele pois assim ele não tinha que participar em outras reuniões com sua lógica extravagante que nunca admitia afrontar uma autoridade (ou pessoa em cargo superior). Outra vez reafirmara que não concordava com a idéia da seleção natural (era probabilística demais pro gosto dele) argumentando que “Stálin também não acreditava nela e que ele era muito inteligente”.
As conversas de Gödel e Einstein duraram até a morte deste (1955) que apenas para Gödel foi repentina enquanto todos já sabiam da doença do físico. O matemático perdeu, então, seu colega de exílio, pois assim como o cientista mais famoso do mundo, ele também tinha fugido da Europa nazista. Aliás, quando chegou em 1939, Gödel foi recebido por outro pesquisador, também exilado e ávido por notícias de Viena, mas Gödel se limitou a dizer que em Viena o “café está horrível!”.
Outra história que não pode ser esquecida é a da aquisição da cidadania americana por parte de Gödel. Para ser cidadão americano, o estrangeiro responde algumas perguntas ao juiz sobre a constituição. Pois não é que o “lógico” encontrou uma contradição interna na constituição americana que permitiria que ela degringolasse em tirania? Tendo contado isto a Morgenstern (outro exilado), este ficou preocupado que Gödel simplesmente não passasse no exame e resolveu, junto com Einstein, levá-lo até o juiz na data marcada.
Com Morgenstern ao volante, Einstein ficou o tempo todo contando piadas para distrair Gödel. De nada valeu. Interpelado pelo juiz, Gödel começou a expor seu ponto de vista. O juiz, que já conhecia Einstein e as excentricidades dos cientistas, limitou-se a interrompê-lo com um “não há necessidade de entrar em detalhes”. O juramento seguiu sem incidentes, e Gödel morreu anos depois (1978) como cidadão americano.
Até hoje ninguém traduziu a parte do conjunto de notas taquigráficas de Godel referentes ao estudo da constituição americana. Quem sabe agora com a edição e publicação de seus escritos (Collected Works, vários volumes pela Oxford), que nunca foram publicados, isto possa ser explicado.
No final da vida, desconfiado de envenenamentos e já não querendo comer, teria dito a um amigo: “Perdi a capacidade de tomar decisões positivas.Só consigo tomar decisões negativas”. É lógica pra ninguém botar defeito.















