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POR EM 04/11/2008 ÀS 09:33 AM

Um Deus que não sabe dançar

publicado em

Fico matutando sobre o que pretendem os evangélicos ao mergulhar na política? Agradar a Deus certamente não é, Deus, há séculos, é desagradado suficientemente por católicos, fanáticos islâmicos que praticam barbaridades em seu nome e outras seitas que até induzem seus seguidores ao suicídio para chegar até Ele mais depressa, não deve se sentir muito glorificado com essa invenção humana chamada política.

Sem perceber, pouco a pouco, fomos tomando conhecimento que os evangélicos deixaram de ser apenas um segmento e agora, cada vez mais, pleiteiam o pódio político, já não lhes bastam os púlpitos das suas igrejas, querem mais, querem nos representar, misturam religião com política. Nessas eleições eles ganharam ainda mais espaço aqui em Goiânia e no Brasil – todos com aquelas caras gordinhas e rosadas de menino-criado-com-a-avó que eles têm.

Pura aparência porque são mesmo umas águias ambiciosas ágeis como setas em direção ao seu alvo.

Têm conseguido o que querem.

No Rio de Janeiro assisti agora na campanha eleitoral a exposição de idéias do bispo candidato a prefeito e fiquei assustado com a moralidade retrógrada, a falta de graça, a ausência de sensualidade e humor, a tentativa subliminar de impor regras, as regras em que ele acredita. Destila burrice pelos poros e nisso não difere em nada dos seus pares do País inteiro. Um jornalista perguntou que livros ele lia no momento e ele só conseguiu citar o óbvio: a bíblia.

Fosse prefeito do Rio de Janeiro e os cariocas acabariam concordando com o filósofo alemão Nietzsche que “só acreditaria num deus que soubesse dançar”. O do tal bispo carioca não sabe e ele tentaria, com certeza, impor ao povo a rigidez com que encara a vida.

Mas, com todo seu discurso moralista, dançou há dois anos na CPI do mensalão. Ele e outro bispo, seu braço direito foram comprovadamente beneficiários do dinheiro sujo e um deles foi cassado, chorou diante das câmeras de TV, negou tudo, mas teve de voltar ao púlpito de sua igreja. Seus fiéis podem ter perdoado seus roubos, mas não viram a cor do dinheiro que ele conseguiu com seu cargo político.

Aqui há pouco tempo os jornais deram conta de que um deputado da Assembléia Legislativa de Goiás foi indiciado por peculato e esteve envolvido, segundo a polícia, com repasses de dinheiro a funcionários fantasmas todos nomeados por ele mesmo e organizados por seu irmão pastor de uma igreja.

Muitos fiéis da Igreja recebiam dinheiro do povo através de salários da Assembléia Legislativa e repassavam ao tal pastor.

Misteriosamente abafaram o caso, mas eu não estou inventando nada, são dados colhidos nos jornais que já foram comprovados pela polícia. Roubos e falcatruas já não assustam mais ninguém no país, o que ainda provoca apreensão e indignação é essa associação entre política e religião.

Esses senhores criadores e seguidores das novas igrejas conseguem amealhar grandes fortunas usando o nome de Jesus e a boa fé de ignorantes facilmente cegados pela rigidez das doutrinas e a promessa de privilégios divinos conforme o dízimo que pagam.

Penso que o leitor sabe que igrejas são isentas de pagamento de impostos.

Não entendo. Como também não entendo por que alguns jornais do país não permitem que se toque nesse assunto. Passa da hora de se mexer nesse vespeiro como já mexemos em tantos outros para separar os zangões das abelhas.

Religião é uma coisa, política é outra.

No Brasil ficou comum misturar uma e outra é usar a primeira para camuflar as falcatruas da segunda.

A história das civilizações comprova que sempre que os homens misturaram política e religião o resultado foi catastrófico.

Salazar, o violento ditador que subjugou Portugal, governava respaldado pela Opus Dei, entidade da igreja católica que ainda hoje representa o que há de mais conservador, hipócrita e atrasado no mundo.

Da mesma maneira o general franco, carrasco da Espanha, se orgulhava de, entre um assassinato e outro, ser visto piedosamente assistindo a missas solenes na catedral de Madri.

Ambos, ao misturar política e religião conseguiram camuflar seus roubos e assassinatos sem que ninguém pudesse censurá-los ou levá-los a julgamento – afinal, eram religiosos e supostamente tementes a Deus, se escondiam atrás Dele.

Não tocar nesse assunto, não escrever sobre ele dá aos evangélicos uma blindagem supostamente religiosa que lhes permite fazer o que querem quando ingressam nessa arte terrena que é a política.

Por que são diferentes quando cometem os mesmos erros que qualquer um? Falar dos maus e ladrões não significa que nas igrejas, quaisquer igrejas, não existam os honestos, os que lá estão porque, por algum motivo, precisam se sentir próximos de Deus.

Os canalhas, sim, usam o nome de um deus que não sabe dançar, se escondem atrás dele que é bem diferente do Deus alegre e generoso que, mesmo também não sabendo dançar, é respeitado e glorificado pelos honestos e os de boa fé desde sempre.

Porque afinal, para muitos, Deus é apenas uma projeção da mente de cada homem e cada um o reflete segundo sua imagem e semelhança.

O meu adora dançar.

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