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POR EM 09/10/2009 ÀS 02:14 PM

Um banho de chope

publicado em

De que maneira, não sei, o certo, entretanto, é que precisamos trazer de volta o Stanislaw Ponte Preta. Ou seu espírito. E com urgência. Esteja ele onde estiver, porque o Brasil vem sendo assolado por uma enxurrada de besteiras que está ficando difícil de suportar. Precisamos de alguém com a verve e o humor do Stanislaw para que os besteirocratas não se sintam assim tão à vontade. É necessário que sintam pelo menos um pouquinho de medo do ridículo para que nos deixem em paz.

Ontem à noite, não me lembro por que, mas estava na frente da televisão quando minha casa foi invadida por um desses, como dizer... um desses pacóvios sarados sem muito treino na arte de pensar. O garotão veio anunciar uma festa que acontece em Santa Catarina e informou que os organizadores esperam um consumo de quarenta e cinco mil litros diários de chope durante os dezessete dias da festa.

Não, apressado leitor, não sou contra a Oktoberfest nem contra o chope. Nunca fui a essa festa, mas se me convidarem, com tudo pago, não sei se teria coragem de recusar. Além disso, quando me permite a glicemia e o calor fica do jeito que anda, não dispenso um copo transpirando e um colarinho branco com atestado de bons antecedentes.

Algumas coisas neste nosso país me assustam. Não foi, contudo, a alegria do jovem de microfone na mão que me assustou. Vá lá, quarenta e cinco mil litros de chope diários é um rio de chope, é bebida que inunda uma cidade inteira e deixa milhares de desabrigados.

Pois não foi a alegria do garotão que me assustou. O que me deu saudade do Stanislaw Ponte Preta foi o entusiasmo. Sim, porque entre alegria e entusiasmo existem muitas diferenças. A alegria é mais contida, menos agressiva, a alegria é um sentimento que pode ser brando, com origem nos impulsos vitais e que se transforma em manifestação exterior de estados íntimos do ser humano.

O entusiasmo pode ser perigoso porque está mais próximo da paixão, de toda aquela área nebulosa de nossa irracionalidade. O entusiasmo do jovem estava marcado em seu sorriso, sabe, aquele tipo de sorriso vitorioso que todos vimos quando o Rio de Janeiro foi proclamado sede de Jogos Olímpicos? Olhos arregalados e lábios úmidos acompanhados de contrações dos músculos da face. Quem não conhece num rosto assim o entusiasmo? Ah, sim, mas a voz do jovem. Creiam-me os que não tiveram a oportunidade de assistir a tão sublime cena, a voz era de puro gozo. E gozo não há quem não conheça.

E qual a razão do entusiasmo do novel jornalista? A capacidade que algumas pessoas têm de ingerir uma quantidade imensa de líquido. Isso mesmo: de líquido. Quando um ser humano se põe a competir com barris, barricas, tambores e outros recipientes mais, me parece que abdica de sua humanidade.

Que se bebam quarenta e cinco mil litros de chope por dia, é uma inundação, mas tudo bem. Agora, que alguém proclame tal competência com entusiasmo como se tivéssemos acabado com a miséria, descoberto a cura para o câncer, resolvido os problemas do analfabetismo, como se tivéssemos acabado com os preconceitos, com todos os tipos de violência, como se todas as armas do mundo tivessem sido banidas de nossa vida, ah, isso não, isso não dá para entender a não ser como um dos indícios de que resvalamos sem remédio pelo despenhadeiro do pensamentozinho que vem invadindo este país.

Oh, que saudades que eu tenho do Sérgio Porto.  
 

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