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POR EM 23/11/2009 ÀS 04:24 PM

Tudo parece uma merda

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TPMEsta foi um amigo quem contou. Ao entrar na aeronave, ele esticou o pescoço e deu aquela espiadela costumeira checando a cabine. Levou um susto ao avistar uma mulher sentada no banco do piloto, aparentemente fazendo anotações numa planilha, checando equipamentos. Cochichou com a bonita aeromoça (“lexotan” em forma humana), especulando se aquela mulher seria uma espécie de auxiliar do piloto, outra aeromoça. Quem sabe, no máximo, uma tripulante enxerida fuçando nos painéis. “Não, senhor. Ela é a comandante deste Boing”, declarou, impiedosa. Mesmo as mulheres mais lindas podem ser cruéis.

Como a maioria dos seres humanos normais, meu amigo tem medo de avião. Tentando minimizar o espanto, ele comentou dali mesmo, na entrada da cabine: “Ainda bem que avião não dá marcha ré e nem faz baliza né, comandante?!”. “É. E o senhor tem muita sorte por eu não estar na TPM”... A gargalhada foi geral e o voo seguiu sem turbulências e outras surpresas.

Estive em Minas Gerais na semana passada. Pensei que o trânsito de Goiânia fosse caótico, até enfrentar as ruas de Belo Horizonte, por onde eu não pisava há muito tempo. Ruas, avenidas, ladeiras entupidas de carros e ônibus. Desrespeito aos cruzamentos, às faixas de pedestres, xingamentos corriqueiros, buzinaço generalizado (motoristas querendo ganhar a disputa no grito).

A capital mineira, apesar dos motoristas ensandecidos, continua linda. A gastronomia, saborosa e variada. Fui participar de um evento médico na área de ginecologia e que reuniu mais de sete mil inscritos no Centro de Convenções Expominas. Dentre tantos médicos, pães de queijo e palestras interessantes, fui assistir àquela que tratava da chamada TPM (Tensão Pré-Menstrual ou, como já bem definiu uma minha amiga, “Tudo Parece uma Merda”).

É incrível, mas os médicos ainda não sabem por que existe TPM. Culpa dos hormônios? Dos neurotransmissores? Mistério... Trata-se de um transtorno extremamente comum, sem causa conhecida, e que afeta o mulherio dos quatro cantos do mundo. Apesar do avanço da ciência nos últimos cem anos, ainda há várias doenças de causa desconhecida, fato este que torna os tratamentos “meia-sola”.

Choro fácil, tristeza, melancolia, depressão, dor de cabeça, seios inchados e doloridos, distensão abdominal, dores nas pernas, insônia, nervosismo, irritabilidade... Em maior ou menor grau, é assim a TPM. E nem precisa ser um médico do SUS para perceber quando uma mulher está “naqueles dias”, à beira de um ataque de nervos.
 
Poderosa, a mulher moderna empunha a bandeira da tolerância zero. Tem sido assim em relação às menstruações, às cólicas menstruais, à TPM e aos parceiros vacilões. Na gloriosa caminhada para conquistar o planeta (o que me parece bem próximo, graças a Deus), o exército feminino desbrava o mercado de trabalho, demarca territórios, ecoa gritos de guerra, e acua os homens. Bem feito pra nós...

Após o advento da pílula anticoncepcional nos anos 60, as mulheres sacaram que, ao controlarem a fertilidade, abdicando da escravagista reprodução humana, podiam pleitear a liberdade. A partir de então, elas se tocaram que dava pra fazer sexo e gozar, escolhendo os parceiros que bem quisessem, reciclando cretinos, começando suas vidas de novo, do zero.

Superiores, as mulheres desafiam a menstruação e demais entraves aos seus projetos de dominação, sejam eles fisiológicos ou não. No passado, arrebatadas por gravidezes subseqüentes, nossas avós e todas as gerações ascendentes praticamente não menstruavam, ocupadas em procriar e amamentar indefinidamente. Uma vez que eram escassas as menstruações, elas não penavam com cólicas e TPM. Tão somente se ocupavam em ficar prenhas e manter a casa repleta de crianças. Estava assim garantido o futuro da humanidade, a missão bíblica de crescer e multiplicar.

Dispostas a superarem os homens, frágeis rivais, as mulheres queimaram sutiãs em praça pública, fizeram sexo livre em Woodstock, pegaram gonorréia aos borbotões, assumiram minissaias, conquistaram o orgasmo, controlaram a natalidade e devoraram o mercado de trabalho com um apetite bem próprio de quem, até então, permanecia num papel secundário desde que Deus arrancara de Adão uma costela.

Confesso: também amedrontado com aviões, segurei pela mão a bela aeromoça (extrato de erva cidreira e camomila), até que a aeronave rasgasse as nuvens, estabilizando o vôo. Inseguro, desajeitado, apertei com grosseria suas falanges tranquilizadoras. Mulheres são assim mesmo: criaturas ambiciosas. Mas não me metem mais medo que os aviões.

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