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POR EM 01/12/2008 ÀS 06:08 PM

Temores submersos

publicado em

O que mais ficou submerso no dilúvio que se abateu sobre o Estado de Santa Catarina, além dos cadáveres de animais e pessoas, dos móveis, carros e utensílios? O que mais a água e a lama encobriram além da matéria viva, dos erros e dos acertos, dos sonhos dos flagelados?

Assisti recentemente ao “Ensaio sobre a cegueira”, um filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, baseado no livro homônimo do escritor português José Saramago. Aconteceu de novo: gostei mais do livro que do filme. Suspeito que esta sensação seja freqüente quando assistimos aos filmes baseados em obras literárias.  

Após a sessão, na saída do cinema, notei que muitos acharam o filme agressivo, deprimente, nojento, um completo exagero, enfim. Associações de deficientes visuais em várias partes do mundo manifestaram indignação com a trama, supostamente preconceituosa com os cegos. A película gerou tolas polêmicas. Quase sempre é assim: muitas pessoas se limitam a discutir e polemizar a superfície, o invólucro, caindo na armadilha do viés, divagando no vácuo, deixando de captar a essência.

No Vale do Itajaí, em Santa Catarina, câmeras e lentes registraram o caos provocado pela chuva além da conta. No conforto e na secura da minha sala de estar, dá para imaginar (e temer) o sofrimento de quem teve a casa invadida ou devastada pelos turbilhões de água. O drama é, sem dúvida, maior para os moradores dos bairros pobres, que não têm onde se refugiar, não têm parentes importantes e vivem no interior (eu furtando versos do compositor cearense Belchior). Eles não possuem reservas bancárias, nem guardam dinheiro dentro dos colchões agora encharcados pela chuva. Choram, rezam, lamentam, aguardam adjutório dos governos e de Deus.

A imprensa flagrou, por outro lado, os saques perpetrados pelos desabrigados ao comércio local. A multidão não visava apenas à água potável, roupas e alimentos. Muitos surrupiavam televisores, aparelhos de som e outros eletrodomésticos que, dentro daquele contexto dantesco, certamente não teriam a menor valia. Faltam energia elétrica e água potável. Alguns também penam com a falta da fé no poder público e na divindade.

A comparação foi imediata: aquelas cenas remeteram-me, imediatamente, ao surreal filme de Fernando Meirelles. Uma coisa puxa outra: lembrei também da literatura fantástica do pouco reverenciado escritor goiano José J. Veiga, no seu inesquecível “A hora dos ruminantes”. A estória do livro é igualmente dramática e aterrorizadora. Estimulado ao extremo, passei a ruminar pensamentos hipotéticos...

De que forma cada um de nós reagiria à desordem e à anarquia? As tragédias impostas pelas guerras e pelos fenômenos naturais (chuvas, terremotos, erupções vulcânicas, tsunamis) colocam em teste definitivo o comportamento humano. Arruína a calma da gente imaginar como nos comportaríamos sob tais circunstâncias.
Quão rígidos seriam os nossos escrúpulos frente à fome, à sede, ao frio ou à grave desesperança no futuro?

Quantos de nós, alcunhados cidadãos de bem, roubariam ou feririam mortalmente para garantir sobrevida aos filhos e a si mesmo? Qual o meu, o seu limite? Quantos buscariam na morte o alento para os sofrimentos físico e moral? Quem mataria por amor ou misericórdia?

Ler os livros de Saramago e Veiga, assistir aos filmes de Meirelles e outros bons cineastas, tudo mexe com o imaginário das pessoas. Alguns preferem não fazê-lo, com medo dos pensamentos decrépitos. Muitas vezes pensamos coisas horríveis em nossas mentes que mais parecem masmorras. O cérebro humano, elo entre o viver e o desaparecer, é mesmo um órgão misterioso, indomável. Felizes daqueles que passam pela vida sem sucumbir às dúvidas existenciais.

O cenário apavorador do “Ensaio sobre a cegueira”, apesar de fictício, parece uma ameaça em nossos calcanhares. Basta reparar nos danos proporcionados pela humanidade ao meio ambiente. Temperaturas globais crescentes, calotas de gelo derretidas, chuvas demais ou de menos, escassez água potável, racionamento de comida...

Recomenda-se não menosprezar o potencial virulento do ser humano. Tomara que as tragédias inventadas pela literatura e pelo cinema jamais vivifiquem. Afinal de contas, estamos muito mal acostumados aos finais felizes.

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