POR FLÁVIO PARANHOS
EM 08/05/2009 ÀS 01:13 PM
Somos todos canalhas
publicado em colunistas
“Esperar que mudanças em um sistema de casta por iniciativa dos seus beneficiários é acreditar em papai Noel ou o Saci-Pererê”. (Clóvis Rossi, "Folha de São Paulo", 7 de maio de 2009)
Conjugue comigo:
Eu sou canalha
Tu és canalha
Ele é canalha
Nós somos canalhas
Vós sois canalhas
Eles são canalhas
Isso. Agora vá ao banheiro e repita, agora na frente do espelho. Pode ir, eu espero. Vamos, não estou brincando. Isso aqui é muito sério. Muito bem. (Tempo. Dedos tamborilando pacientemente). Pronto? Ótimo. Agora vá pra rua e repita novamente, dessa vez bem alto, “Eu sou canalha, tu és canalha...”. Anda logo, cidadão, que não temos todo tempo do mundo. Se quiser, pode rechear com sua criatividade, algo do tipo “Eu sou um grandessíssimo canalha, tu és um canalha absoluto, etc”.
Esse momento catártico era necessário para que meu ponto fosse colocado de forma inequívoca. Agora tentarei desenvolver. A epígrafe, retirada do artigo-editorial do jornalista Clóvis Rossi, referia-se, como todos devem ter percebido, às safadezas dos membros dos poderes brasileiros. Mais especificamente aos “escândalos” das viagens dos senadores e de juízes (ou ministros, sei lá, já que se tratava do STJ).
De repente todos se declaram surpresos que pessoas como Fernando Gabeira, Eduardo Suplicy e membros do Judiciário se lambuzem em privilégios auto-concedidos. Me escapa à compreensão a surpresa. Ora, o ser humano é safado por natureza. Egoísta, preguiçoso, belicoso, malandro (continue aí pra mim com outros adjetivos semelhantes que lhe ocorrerem, por favor).
(É verdade que ninguém se mostrou muito surpreso em ouvir do nosso digníssimo presidente que é hipocrisia se espantar com as demonstrações explícitas de malandragem. Depois que pra ele o mensalão estava justificado porque “sempre foi assim”, quem é que vai se surpreender com qualquer outra coisa vinda dali?)
Agimos eticamente única e exclusivamente por coerção. Ecos de Hobbes por aqui? Quase. É claro, o “homem em estado de natureza” hobbesiano é bem menos equivocado do que o rousseauniano. Mas discordo de Hobbes na medida em que ele dá desconto ao homem antes de agir (o homem tem inclinações más, mas não é mau enquanto não age malvadamente). Biologicamente, poderíamos dizer que as inclinações humanas (ou animais, pra todos os efeitos) não são boas nem más, são neutras. Teimo e discordo: inclinações más equivalem a pessoa má. Simples assim.
Repito: agimos eticamente apenas por coerção. E de onde vem a coerção? Do poder. Ora, por que, então, agirá eticamente quem detém o poder? Eles são sua própria coerção. Ou seja, coerção nenhuma. Daí ser impossível que haja ética na política. A política tem sua própria ética. Ou seja, ética nenhuma.
(“Política” aqui deve ser entendida em seu sentido lato, cabendo qualquer um que detenha poder.)
No caso dos políticos que chegam aos seus cargos de poder por meio de voto, a coerção poderia vir do “povo” (Rousseau? Acho que não). Mas não vem. Porque o “povo” (ou “nós”) também é canalha. Dê-lhe (dê-nos) pão e circo (ou bolsa-isso, bolsa-aquilo e carnaval) e ficará tudo bem. É como diz o sapientíssimo filósofo político do PTB do Rio Grande do Sul, Sérgio Moraes:“Estou me lixando para a opinião pública. Até porque parte dela não acredita no que vocês escrevem. Vocês batem, mas a gente se reelege”. Convenhamos, trata-se de uma peça de rara honestidade no cenário do Congresso Nacional.
Agora, pausa. Não se depreenda, do que aqui está escrito, que somos canalhas, ergo, devemos ser canalhas. Seria um enorme equívoco conhecido como “Falácia Naturalista” (Do “ser” não se deriva o “deve ser”; ou do “assim é” deriva o “assim deve ser”). Seria cair na armadilha proposta pelo presidente Lula (conformem-se, bando de hipócritas, pois “sempre foi assim”). Um dia chegará, na escala evolutiva humana, em que deixaremos de agir utilitário-egoisticamente e nos tornaremos todos kantianos. Só que não pela Razão (com “R” maiúsculo, como sonhava o alemão sistemático), mas pelo instinto. Isso mesmo. Estará “imprintado” em nossos genes o agir por meio de imperativos categóricos de valor universal. Quando chegará o dia? Provavelmente daqui a uns mil, dez mil, cem mil anos. Certamente não agora. Então, enquanto isso, repita comigo: “Eu sou canalha, tu és canalha...”.















