Sexo Temporão
A vida tem lá uma certa comicidade também. Especialmente, na visão de brasileiro: “povo fodido, mas feliz...”. E o senso de humor aguçado permeia os ricos e a ralé, os emergentes e os submersos (falidos, quebrados, miseráveis e a tal gente abaixo da linha da pobreza...). Já que a vida neste planeta não se explica, que a levemos na flauta.
Recentemente, por ocasião do lançamento da campanha de prevenção à Hipertensão Arterial, o Ministro da Saúde sugeriu à nação que praticasse sexo mais vezes a fim de serem mantidos normais os níveis pressóricos. “Cinco vezes por semana seria o ideal”, ele disse, em tom professoral. “Será que é cinco vezes com a mesma mulher?!”, perguntou um amigo meu à própria esposa, ato impensado de extremo risco e que lhe rendeu uma noite mal dormida no sofá da sala de estar.
A ilustre autoridade recomendou também a prática habitual de esportes, controle do estresse (para não ser afetado por ele, só ficando enclausurado numa bolha, perdendo o juízo ou entrando em coma...), alimentação saudável (como sobreviver sem hormônios, conservantes e agrotóxicos?!) e uso comedido do sal. O ministro já imaginava que o conselho cairia no gosto de jornalistas, cronistas e piadistas. Espertezas do marketing. Dá-se o recado da forma mais assimilável ao grande público, provocando celeuma, ainda que uma parcela de abstêmios das “delícias da carne” se veja atingida pela surpresa, indignação e, supostamente, picos de pressão alta.
Mantendo a mesma “levada erótica”, um vereador de uma pequena cidade no interior do Rio Grande do Norte (é por demais sabido que nordestino é cabra macho pra valer...) apresentou um projeto na Câmara Municipal, propondo que o erário bancasse, garantisse, munisse com Viagra ou similares os cidadãos acometidos por disfunção erétil.
Jocosamente, o projeto foi logo batizado pela comunidade como “Bolsa-Viagra”, seguindo a nomenclatura assistencialista do Governo Federal. De acordo com o criativo parlamentar, tais medicamentos seriam dispensados gratuitamente em hospitais públicos e postos de saúde. Ouvi alguém comentando que a proposta do vereador apenas retrata um defeito intrínseco dos políticos brasileiros, ou seja, “foder o povão” (literalmente).
Muitas donas de casa vão comemorar a iniciativa “catuabalesca” daquele representante do povo, mas, receio que a maioria das senhoras o reprovará. Desavisado que as disfunções sexuais são comuníssimas, especialmente a deficiência de libido (falta de vontade de fornicar), o tiro poderá sair pela culatra, inviabilizando o seu planejamento político.
Resgatando homens para o deita-e-rola, o parlamentar do sertão corre seriíssimo risco de contrariar o eleitorado feminino maduro que já se julgava livre do assédio sexual, da insistência, da “enjoeira” dos companheiros. “Só sentindo dor de cabeça mesmo pra afastar essa praga...”.
Em matéria de sexualidade, quase ninguém escapa da frustração, dos complexos, conflitos e paradigmas, uma miscelânea de experiências quase sempre desastrosas que, desde a infância, poluem e estorvam a mente das pessoas. Adultos estão sempre dispostos a desvirtuar o pensamento infantil, incutindo nas crianças medo, insegurança, tolices.
Não bastasse a má educação recebida dentro de casa (muitos jovens, felizmente, são poupados pela negligência de pais despreparados que jamais tocam no assunto), religiões opressoras fomentam a ignorância sexual e debitam o massacre psicológico (que elas, cinicamente, denominam “orientação religiosa”) na conta de Deus, para o regozijo do capeta e a infelicidade do indivíduo. Freud, sozinho, não explica tamanha esquisitice.
Parece que a maioria das pessoas adultas gosta mesmo de fazer sexo (existe até um besta “ranking” internacional que escalona os países onde o povo transa mais vezes, sem levar em consideração, é claro, a qualidade), embora não goste muito de falar no assunto, a não ser para contar vantagem aos amigos ou mentir nas pesquisas de opinião.
Não digo que o ministro e o vereador estivessem errados, embora a ação do segundo pareça puramente eleitoreira (sempre há vários projetos descabidos tramitando nas câmaras do país). Acontece que o sexo tem sido explorado pela mídia de forma avassaladora, simplista e rasa. Quando se tenta fazer em casa do jeito que a TV mostra (televisão: o maior “educador” que se tem notícia), parece que a coisa não rola assim tão bem. A sensação de vazio e frustração é imediata. A começar pelos próprios corpos, quase nunca tão sarados e impecáveis quanto das personagens.
Seria pertinente, talvez, que a população soubesse que o orgasmo feminino é o epílogo de uma relação sexual cuidadosa e consentida (lugar certo, na hora certa, com a pessoa certa). E que, nem sempre, fêmeas estão disponíveis (e dispostas) a se deitarem numa cama (há quem prefira outras mobílias), trocarem fluidos e intimidade. Desejar permanecer sozinha, não ser tocada por outrem, nem sempre significa desamor. Ao contrário do que muitos homens possam imaginar, carícias num corpo feminino jamais deveriam principiar pela genitália.
Enfim, já foi dito que sexo não se ensina, mas se aprende na prática, através de vivências. Receio que tal paradigma apenas reforça a ignorância. De forma hipócrita, geração após geração, acabamos caindo nos mesmos dilemas e ciladas que, em maior ou menor grau, conduzem à mágoa e ao ressentimento.





