Desenho de  Wendy MacNaughton
revista bula

compartilhe



últimos comentários

últimas no twitter

  • O Evangelho Segundo Lennon e McCartney | Revista Bula http://t.co/H7JjAESE
    3 horas atrás
  • @fpulcineli Número cabalístico: 5.000
    4 horas atrás
  • Casos de divã, se resolvem no divã...
    5 horas atrás
  • RT @screamyell Esse twitter novo é genial, mas ao contrario
    5 horas atrás
  • RT @revistaabsurda Para comemorar o #CorruPTosDay, o PT manda prender 150 PMs grevistas.
    6 horas atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

  • e eventualmente nojentas de casais escatológicos

sugestões de filmes

POR EM 19/09/2009 ÀS 08:52 AM

Seres da insustentabilidade

publicado em

O ser humano nasce para a felicidade, mas tudo faz para mantê-la longe de si. Em desarvoro constante, vive à cata do que o alvoroce em sua compulsiva ansiedade. Nada lhe traz contentamento, pois que está sempre a fugir de estar em si, e de bastar-se com o presente. Assim vive a consumir-se em emoções vazias, a acumular coisas de que não precisa, e a gastar sem cuidado os dias que lhe são dados. E quando chega o tempo de escutar o assovio das Parcas, olha das paisagens do passado, e constata: tudo fez para distrair-se do que importe, em idolatria do inútil. E pouco fez para realizar-se como humano, tentando simplesmente ser feliz.           

Fernando Pessoa-poeta, por quem falaram tantas almas ardentes, confessou, em seu desassossego de viver: “Não sei quantas almas tenho/Cada momento mudei/continuamente me estranho/nunca me vi nem me acabei/”. E, mais adiante: “Quem não tem alma não se acalma”. De fato, parecem criaturas do desassossego, as que são acometidas de uma espécie de doença de São Guido do espírito. Pois estão sempre a distrair-se, como se o viver tenha que ser uma eterna diversão e um permanente divergir do que na vida importa.
 
Tais criaturas nunca estão no endereço de alma em que estão. Tudo fazem para não se lembrarem de si mesmas, permanecendo nas rasuras do nada, pois têm medo de se reconhecerem em suas profundezas. Enquanto a vida – ou a moça - passa, “fazendo pirraça/fingindo inocente/tirando o sossego da gente/”. Daí a lucidez das palavras de Miguel de Unamuno: “Eu sou humano, e nada humano me é estranho”. “Nós sabemos quem somos ou o que somos, mas desconhecemos quem podemos vir a ser”, escreveu o bardo William Shakespeare.
 
O bicho homem vê a si mesmo como dono e senhor da natureza, com direito a explorar suas fontes de vida até o esgotamento. Sendo o único animal terrestre a ter consciência de si mesmo, é o único a, de maneira selvagem e covarde, ferir de morte a natureza de que é parte. Sendo um recente passageiro na paisagem do planeta, se faz profano em sua insustentabilidade, cego para a beleza e a verdade de seu pertencimento a tudo o que vive e passa – como ele próprio é um efêmero passante neste mundo. Assim vive em predatória insanidade. E não sabendo que é um todo em meio a outros bilhões de outros todos, que são as coisas, os entes, viventes e gentes, põe-se de parte da totalidade.
 
“A vida é mais do que uma noite?”, pergunta a escritora Rosiska Darcy Oliveira, em seu livro “Reengenharia do Tempo”: “Na vertigem ou no afã de ganhar a vida, as pessoas vivem correndo para a morte. O retorno (ou o encontro) essencial é tentar fazer com que a vida volte a ser viva. Afinal, vivemos e morremos correndo atrás de que, mesmo? Afinal, somos apenas sonhos uns dos outros, duramos o tempo de uma noite, e muitas vezes nossos sonhos são pesadelos dos quais não conseguimos acordar, pois que os sustentamos e os criamos com a realidade absurda em que escolhemos existir”.
 
Argumenta a escritora, que trabalhou com Darcy Ribeiro, e partilhou de seus sonhos e de seu trabalho para inventar um Brasil diferente, por meio da educação. Não esta que aí está, a enganar a todos que dela participam (governo, professores e estudantes), e a construir, em campo minado, as fundações de um que, possuindo todas as condições para fazer de si mesmo uma obra prima, escolheu sucumbir à lei da inércia e à preguiça do gigante, na vala comum da mediocridade que se vê como vitoriosa.
Bookmark and Share

Comentários (0)



*Obs — todos os comentários são moderados.
Não é aceito nenhum tipo de script ou formatação, caso queira adicionar um link apenas cole o endereço normalmente.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2009 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — editorial@revistabula.com


renovatio