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POR EM 02/03/2009 ÀS 06:36 PM

Sementes da revolta

publicado em

Em março de 1903, Oswaldo Cruz já era diretor do Instituto Manguinhos, chamado por ele “jardim-de-infância da ciência”, quando foi nomeado para a Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), pelo recém empossado presidente brasileiro Rodrigues Alves, cuja promessa de campanha era sanear a capital federal (Rio de Janeiro).

Quando o assunto era saúde pública havia tudo a se fazer, em especial a definição das atribuições das administrações municipais, estaduais e federais, como mostrado por Henrique Cukierman em seu “Yes, nós temos Pasteur: Manguinhos, Oswaldo Cruz e a História da Ciência no Brasil” (Editora Relume Dumará e Faperj, 2007, 437 p.).

E naquele mundo (nem um pouco distante no espaço-tempo) o público se confundia com o privado, o arcaico com o moderno e o “lá-fora” da administração precisava dialogar com o “aqui-dentro” da torre de marfim da ciência. Como diria, Latour, um dos autores preferidos de Cukierman: “quanto mais pura for a ciência do lado de dentro, mais longe os cientistas têm de ir para o lado de fora” mas é justamente por isto que admiramos Oswaldo Cruz: sua desenvoltura nos meandros enfadonhos e pouco éticos da administração “lá-fora” permitiu o trabalho de outros (e dele mesmo) nas bancadas do laboratório, pois ele era o grande representante do pessoal do “aqui-dentro”.

Porém, a construção do futuro Palácio da Ciência ainda não estava garantida. O prefeito queria parte do terreno do Instituto de volta e apesar do aumento dos recursos para o trabalho diário de sorologia, o prédio continuava a ser uma “casinha de campo”. Mas Oswaldo conseguiu o dinheiro para a construção. Só não sabemos de onde veio. Cukierman não encontrou lei, nem autorização oficial, nem orçamentos publicados. Todo mundo, inclusive à época, fez vista-grossa. Desvio de verbas? Sobra de campanhas? Não se tem certeza. O prédio está lá com suas belas linhas mouriscas. Este é um país que vai pra frente....

Enquanto isto, a tuberculose e a febre-amarela alastravam o cheiro de morte. Oswaldo antenado com a ciência mundial, foi então apelidado de “General Mata-Mosquito” pois muita gente, inclusive seu antecessor na DGSP duvidava que o mosquito era o vetor do “micróbio” da febre-amarela.

Oswaldo, o cruzado cientificizante, foi vencendo suas batalhas baseando-se em exemplos como o de Havana que havia eliminado o mosquito e reduzido a doença (atenção amigos, a tão propalada saúde pública de Cuba já era boa bem antes da revolução...).
A queda impressionante do número de óbitos por febre-amarela entre os anos de 1903 e 1904 no Rio, mostrou que o herói mata-mosquito estava certo.  O Brasil começava a acreditar em micróbios, apesar de ser ainda um “vasto hospital”, onde os tradicionais médicos-clínicos, consideravam mais importante a relação médico-paciente, do que os exames bacteriológicos realizados pela “escola instrumental” da nova medicina. Documento da época mostra que de 137 notificações “clínicas” de febre-amarela, ao menos 30% deram negativo. Assim, os clínicos viam os doentes mas não a doença e se apegavam ferrenhamente ao seu próprio paradigma (como todo cientista moderno). Oswaldo e seus bons companheiros também travaram esta batalha que, talvez seja a menos conhecida, mas não menos importante, pois vencendo, fez com que a medicina brasileira entrasse na era bacteriológica  e nossos velhos médicos deixaram de ser compadres de curandeiros, representantes da Velha Metrópole arcaica.

A grande vitória contra o mosquito entre 1903 e 1904 só ocorreu devido a criação de órgãos na apropriada linguagem militar que a batalha exigia: “Brigada contra o mosquito”, “Polícia de focos”, “Delegacia Sanitária” (até hoje é assim com a “Vigilância Sanitária”). Para os mais positivistas, o trabalho destes era uma afronta aos direitos individuais, na medida que entravam nas casas para remover lixo, limpar fossas e telhados, enfim evitar a proliferação do vetor. Mas as leis que regulavam tal ação, passaram do ponto, pois autorizavam multas, detenção e até mesmo “bordoadas” em quem se recusasse colaborar.

Então, em 1904, veio a Revolta da Vacina (antivariólica), causada pela simplicidade digna de cientistas do “aqui-dentro”, nas palavras de Cukierman: “havia a varíola, mas havia a vacina...torna-se então a vacinação obrigatória” (p. 226). As leis eram duras, pois sem o atestado de vacinação, o sujeito não poderia, matricular-se em escolas, empregar-se, votar (ser votado), se hospedar e até mesmo se casar! Vem daí aquela enorme enxurrada de caricaturas de Oswaldo Cruz, algumas delas muito bem escolhidas para o “Yes, nós temos Pasteur”.

Há inúmeras explicações sociológicas sobre a Revolta, até mesmo aquela que propõe que a vacinação foi mero pretexto na luta contra o opressor do momento que queria modernizar o Rio, as custas das classes mais baixas. Houve os aproveitadores de plantão de sempre originários de nossas “raízes brasileiras” e por isto alguns estudiosos separam a Revolta em militar (uma tentativa de golpe frustrada, típica de República das Bananas) e popular (com o envio de um navio cheio de revoltosos para o Acre!). Rui Barbosa reclamou que a lei tinha o “direito de intervir na substância do meu sangue”, ecoando famosos como Bernard Shaw e Alfred R. Wallace, o co-descobridor com Darwin, da seleção natural, que na Inglaterra já tinham reclamado da vacinação compulsória.

De qualquer forma, o Congresso acabou excluindo da lei a obrigatoriedade da vacinação. O Instituto Manguinhos descobriu, assim, a necessidade de dialogar com a sociedade através da divulgação científica e lançou uma espécie de jornal intitulado “Conselhos ao Povo”. Depois disto veio a vitória de nosso herói em Berlim. Yes, deixamos de ser macacos, mas fica pra próxima.
 

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