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POR EM 01/12/2008 ÀS 07:36 PM

Sei não

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Pra que servem intelectuais? Conheço alguns que são capazes de promover debates e discussões sobre a nacionalidade de Adão e Eva, seus temas são geralmente inúteis e não ajudam o mundo, nem a inteligência do mundo, apenas alimentam o ego dos debatedores e preservam seus empregos

Sei não...será que não será a poesia que poderá nos salvar da enfermidade da violência no dia-dia? Não sei, mas tenho pensado muito nisso e feito experiências de só ler poesia por longos períodos pra observar como reage meu organismo – tenho andado menos tenso.

Sei não, mas fico tenso em seguida quando desconfio que não temos mais salvação nesta outra violência a da pequena política que se faz no Brasil e especialmente em Goiás onde só os medíocres é que quase sempre se sobressaem e se elegem e pra confirmar é só dar uma espiada na assembléia e na câmara; sei não, mas acho que o George Orwell tinha razão já em 1949 quando previu que seríamos uma sociedade apática, submissa e indolente – atirou no macaco acertou na onça; sei não, mas tenho pensado e Deus permita que eu esteja errado, mas não parece haver nenhum sinal no horizonte que sugira mudanças; não sei, mas duvido que alguém discorde que somos governados por um homem lúgubre, lento, sem carisma, sem brilho e que fica ali no palácio apenas contando os dias pra ir embora – sonolento; sei não, mas acho que esse governo aí tem consciência de tudo isso acima e de como atrasa a vida deste Estado e não sabe o que fazer; não sei, mas basta dar uma espiada em dois secretários, o de comunicação e o da cultura, que nos foram impostos pra entender o governo que nos governa e o porque da certeza de que nada vai dar certo até que tudo se revire de novo com outra eleição – ou não; eu não sei, mas vejo que cada vez mais ainda permanece em certos meios tidos como de elite aquela visão provinciana de colônia do império que assolou o Brasil inteiro e ainda assola alguns – todos se contentam em admirar seu próprio umbigo, é só acessar a TBC Cultura que de cultura não tem nada; sei lá, mas sempre que ligo a TV me pergunto pela enésima vez pra que ela serve: se for pra fazer a massa se hipnotizar ouvindo histórias não seria melhor que a massa lesse romances e prosa em geral? As histórias da TV são sempre e eternamente as mesmas que o Shakespeare contou em Romeu e Julieta – cópias pobrinhas, verdade; sei não, mas cada vez que releio Antonin Artaud mais concordo com ele: as pessoas são idiotas, a literatura está esvaziada, a alma é insana, não existe mais amor nem ódio, tudo é amorfo, todos os corpos estão saciados, as consciências resignadas, só existe uma enorme satisfação consumista de inertes almas bovinas, escravas da estupidez que as oprime...; sei não, sei que é duro concordar com isso, chega a doer, mas não há nada que o desminta; também não sei pra onde caminhamos nas relações afetivas que de afetivas não têm mais nada, meros contatos frios e esporádicos e meras confusões entre o que é ter amigos e ter colegas; sei não, mas acredito que quanto menos tempo de vida se tem pra viver menos temos tempo a perder, o instante que passa, passa definitivamente e  estamos desperdiçando preciosas horas, ricos minutos, dias plenos, meses inteiros, muitos anos despendidos com mediocridades, pequenas sensações, livros ruins, músicas horríveis, conversas idiotas, preocupações tolas, invejas destrutivas, ócio pouco criativo, amores equivocados, sexo lambão, amigos-da-onça...; sei não, mas acho que o Artaud podia dizer tudo porque nunca foi um intelectual; e, sei não, o que será que significa hoje um intelectual?

Pra que servem intelectuais? Conheço alguns que são capazes de promover debates e discussões sobre a nacionalidade de Adão e Eva, seus temas são geralmente inúteis e não ajudam o mundo, nem a inteligência do mundo, apenas alimentam o ego dos debatedores e preservam seus empregos; não sei, mas às vezes paro pra imaginar o que seremos daqui alguns poucos anos e descubro que nada pressupõe grandeza num futuro próximo - seremos resultados certos do que plantamos hoje; não sei, mas desconfio que quem quer qualidade nas artes, nas letras, na cultura em geral que evolui o espírito tem sempre de recorrer às manifestações mais antigas – há 30 anos tudo isso era maior que quase tudo que produzimos hoje: política, teatro, música, idéias, livros, dança, reflexões, filosofia, artes plásticas, pode prestar atenção; não sei, mas tenho percebido que estamos todos perdendo o medo de aranhas, escorpiões, cobras, feras selvagens, doenças incuráveis, fenômenos brutais da natureza – o grande medo do homem é do homem mesmo, somos todas essas catástrofes juntas e a qualquer momento podemos nos confrontar com elas num único homem; é, não sei não, mas tô achando melhor parar de refletir esses pensamentos caóticos  antes que a doença do século ataque a quem escreve e aos que o lêem – a depressão; não sei, mas vou tentar diminuir o impacto de tais achômetros lendo Pablo Neruda e ouvindo Jan Garbarek à meia luz e os leitores que encontrem seus alívios naquilo que lhes parecer melhor porque, sei não, mas muitas vezes pensar dói sim.

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