Secretários do entorno
É estranho e lastimável o poder que um político no poder tem sobre os cidadãos que o elegeram: quando concentra grande poder em suas mãos (ou quase todo poder de mando existente), torna-se um autocrata esclarecido, isto quando não é da espécie dos autocratas ignorantes — e são desta grei os mais autoritários, e os que se mostram mais auto-suficientes.
Uma vez entronizados no poder, e tendo em mãos a caneta que nomeia e demite, manda estiar ou chover, não raras vezes sucumbem à tentação de concentrarem em sua vontade os três poderes da República. Alguns (os mais perversos e doentios) demonstram sentir prazer em humilhar pessoas que as procuram, pedindo coisas, muitas vezes justas e merecidas, cujo atendimento seria natural de se esperar ou se exigir de uma autoridade pública.
Fazem pessoas sérias e honestas esperar horas a fio, nas ante-salas dos gabinetes, sabendo de antemão que não as receberão. Mas ainda assim fazem-nas esperar, sem tirar a esperança, em um jogo sádico, de gato e rato, como a dizer quem está no comando, e quem está no papel de solicitante.
É a inflação do ego, a que vocacionados para o despotismo sucumbem, possuídos pela certeza de serem deuses encarnados, que vieram a este mundo para tanger as massas com a mesma autoridade com que o vaqueiro conduz o seu gado até o matadouro do sacrifício ao lucro.
Outros, como o camarada Lula, possuído pelo espírito de pai dos pobres do mundo, sai em viagens companheiras, a perdoar dívidas e a conceder ajudas milionárias a países mais pobres do que o nosso. Ele esquece que em nosso rincão há muitos Haitis, morrendo de fome e sede, sem que países ricos venham aqui ajudar na construção de hidroelétricas, como ele diz que ajudará a fazer no país cuja capital foi devastada por um terremoto.
Comer suã até suar não é para qualquer aprendiz do francês. Tem de fazer biquinho, e entrar na maré de mansinho. Assim todos querem cavar uma boquinha rica (de preferência definitiva) na gamela dos governos. Mas há só as vagas para alguns da militância, e os amigos dos eleitos.
É sabido que só se dão bem os amigos do peito dos que foram bafejados pelas urnas. Como não há boquinha rica para todos, muitos ficam a ver navios, andando em volta dos palácios de governo, até ficarem conhecidos como secretários do entorno — isto é, ficam rodeando o toco, com sebentas e merencórias pastas pretas, à espera de uma impossível nomeação.
Os outros, os que deram com os burros n´água, ficam na zona do agrião.





