Se tomar o santo-daime, não atire!
Há séculos, a ignorância humana quanto ao seu papel e destino neste e noutros mundos (?!) a arrasta para as mais diversas agremiações religiosas e seitas — muitas delas nefastas (já adoramos o sol e o ornitorrinco!!) —, para a fé cega (fanatismo) ou, contrariamente, para a incredulidade (ateísmo). Impulsionados pela fragilidade de respostas plausíveis nos dogmas e livros sagrados, muitos já amorteceram seus dilemas nas artes, na “porralouquice” das drogas lícitas e ilícitas, e até no autoextermínio (casos extremos incompreensão e vazio existencial).
Fruto da aflição humana, as religiões arregimentam exércitos de seguidores e proliferam no planeta, cada qual reivindicando para si a exclusividade da verdade plena e absoluta. Enfim, percebendo brechas gigantescas no imaginário popular, líderes talentosos em oratória convencem plenários lotados, dão a eles algum alento em troca de fidelidade, dízimos rechonchudos, doações materiais e até depósitos bancários. É a busca da paz interior, custe o que custar...
Nos últimos dias, os debates acerca do Santo Daime retornaram à tona por conta do assassinato de um famoso cartunista brasileiro e seu filho, ambos fulminados bestamente com tiros à queima-roupa desferidos por um jovem desequilibrado. As três personagens eram adeptas da seita na qual a ingestão de um chá alucinógeno integra os ritos.
O uso da “ayahuasca” é bem remoto e provém dos índios peruanos. O ritual adentrou o Brasil pelo Acre, nos primórdios do século XX, através de seringueiros que, animados com o “barato” do chá, “enxergaram a luz” e criaram uma nova seita. O produto é extraído pela cocção de plantas nativas da Amazônia. A presença nelas de DMT (dimetiltriptamina), provoca alterações bioquímicas no cérebro levando às alucinações, que podem durar minutos ou horas.
Embora distorça o nível de consciência de quem o ingere, o chá do Santo Daime foi liberado pelas autoridades competentes deste país a partir de 1992, desde que fosse utilizado apenas em rituais “religiosos”. O uso de substâncias alucinógenas com o objetivo abrir a mente, aguçar a criatividade e afinar a sintonia direta com a divindade é bem antigo.
Nos anos 60, por exemplo, artistas, intelectuais e uma multidão de anônimos encontravam no LSD a porta de entrada para o auto-conhecimento e, de sobra, o vício. Tamanho o potencial alucinatório do ácido, recomendava-se à época que durante as “viagens” alguém do grupo se mantivesse sóbrio, a fim de controlar as reações intempestivas dos demais companheiros drogados, protegendo-os de danos físicos e da morte.
Alicerçados na desinformação, muitos intelectuais naturebas defendem o uso liberal de entorpecentes pela sociedade. É inimaginável saber como seria a vida no planeta se esta onda lisérgica vigorasse e milhões de pessoas aderissem ao hábito. Porque, comumente, o consumo de drogas se torna vício e, o usuário, um escravo à mercê das reações bioquímicas neuronais imprevisíveis que tornam a vida cotidiana absolutamente estranha, embora dela se dependa para tarefas primárias como produzir alimentos e saciar a própria fome.
Escutar apologia ao uso de drogas provoca indignação e ojeriza, particularmente, naqueles que têm ou tiveram parentes cujos juízos foram deteriorados pelo efeito nocivo destas substâncias no sistema nervoso. Destituídos de sensatez, sem a básica noção de saúde coletiva, os defensores do uso liberal de “drogas leves para fins recreativos” articulam os seus discursos hipócritas embasados tão somente em suas experiências pessoais, preferências duvidosas, interesses escusos, enfim, provas cabais de visão social estreita.
Dentre tantos paradoxos sócio-culturais em que nos metemos, um deles incomoda e horroriza sobremaneira: a proliferação de moradores de rua (especialmente, crianças e adolescentes), uma legião de zumbis escravizados pelo “crack” a serviço dos traficantes. Vê-los amontoados em praças e becos mal iluminados tem sido uma constante na cidade.
Temos medo deles, da sua frieza, brutalidade e crueldade quando se insurgem e atacam em busca pertences alheios e dinheiro para prover o vício. Eles não sentem fome, medo, não têm lembranças boas do passado, não se preocupam com a aparência, e não fazem planos futuros, senão “fumar mais uma pedra” no próximo minuto. Absolutamente perdidos, eles vão sucumbir às moléstias infecciosas, à violência urbana ou aos efeitos deletérios do próprio vício nos seus corpos raquíticos e molambentos.
Estas vergonhosas contradições urbanas, cada vez mais corriqueiras, parecem visões irreais, imagens distorcidas, alucinações bizarras como aquelas advindas do arriscado uso de entorpecentes. Portanto, se beber o santo-daime, não atire. O crocodilo na parede pode ser apenas uma lagartixa. O monstro assustador, um parente ou um amigo. Se a carne é fraca, imagine só a mente humana destravada, esconderijo dos pensamentos altruístas, mas também, dos instintos mais primitivos.





