Salinger: tolerância e compaixão pelo outro
A morte de J.D. Salinger marcou o fim de uma das vidas mais misteriosas da literatura. Parafraseando Hemingway sobre Ezra Pound, qualquer pessoa que desconheça Salinger merece mais a nossa piedade do que a nossa reprovação

Alguém dirá: mas fazia mais de quatro décadas que ele não publicava nada. E daí? É todo um pedaço da nossa adolescência que morreu na quinta-feira, dia 28 de janeiro de 2010. Parafraseando Hemingway sobre Ezra Pound, qualquer pessoa que desconheça Salinger merece mais a nossa piedade do que a nossa reprovação. Se você já passou um tempo com Holden ou alguém da família Glass, sabe do que estou falando.
J. D. Salinger escrevia na língua dos jovens, sobre o mundo que eles conheciam. Ali estava alguém falando de igual para igual sobre aquela época terrível e fascinante conhecida como adolescência — uma geração que crescia no pós-guerra, concomitante à explosão do rock, da beat generation (criticada por Buddy Glass em “Seymour, Uma Introdução”, de 1957), da revolução dos costumes.
“O Apanhador no Campo de Centeio” é o retrato definitivo do jovem de classe média sensível e sem direção. Um embate entre a inocência e o mundo adulto (corrompido, falso, deprimente), entre o indivíduo e a sociedade, entre a ilusão e a realidade. Holden Caulfield tenta consertar isso, mas vê que é incapaz de um projeto tão grande. O fascínio pelos museus se justifica: ali, tudo pode ser conservado, catalogado e fixado. Vem daí a grande angústia de Holden: a adolescência é a época em que tudo muda, nada permanece. Quem vai mudar, então, é ele, não a sociedade. Crescer, amadurecer — Holden paga um preço muito grande por isso.
O personagem principal de “O Apanhador” é contraditoriamente humano, daí o fato de ser tão apaixonante e gerar tamanha identificação com os leitores, especialmente os jovens. Em certos momentos, quase não dá para levá-lo a sério: ele é carente quando se deseja forte (se isola em um hotel, mas conversa com todos com que encontra pela frente); é ridículo quando se quer responsável (critica o desleixo dos outros, mas esquece os equipamentos de esgrima dos colegas); em suma, generaliza a torto e a direito, mas não vê que comete os mesmos pecados que abomina nos outros. Que tipo de pessoa não é assim aos 15 anos?
A grande ironia é que Salinger tenha feito tanto sucesso com um romance, quando acreditava ser “um corredor de velocidade e não de fundo”. Em sua galeria, a extraordinária família Glass mereceu mais atenção do que o próprio Caulfield. O clássico “Um dia perfeito para peixe-banana”, presente em “Nove Histórias”, apresenta Seymour Glass, outro ser instável, porém muito mais desequilibrado e carente do que Holden.
Ao longo de sua carreira, Salinger iria mitificar — até o ponto da pura chatice — Seymour como um profeta (Seymour: see more), em “Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira” e “Seymour — Uma Introdução”. Mais interessante do que a obsessão de Salinger por Seymour, na minha opinião, é “Franny & Zooey”. A crítica à escola agora se dirige à academia e Franny, assim como Holden, também peca por cometer os mesmos erros que condena nos outros.
Um dos grandes temas de Salinger é justamente a dificuldade de as pessoas se comunicarem. Sempre há um telefone, uma parede, uma cortina de banho, intermediando as pessoas. Essa fratura nos relacionamentos está exposta no fato de as pessoas se preocuparem tanto com seus próprios problemas que nem reparam nos outros até que lhes aconteça algo de físico, como atestam os colapsos de Holden, Franny e, o mais trágico de todos, Seymour.
Para curar a indiferença e o egocentrismo, só a tolerância, a compaixão e o amor. Não é uma mensagem nova, mas continua sendo verdadeira: é preciso olhar para o outro. Como Franny aprende, é melhor se aperfeiçoar do que perder tempo criticando os outros. Vale para todos, mas principalmente para os artistas. Salinger conseguiu isto: seus personagens angustiados, carentes, inseguros, se movimentam nessa passagem complicada do mundo infantil para o mundo adulto, moldados por uma linguagem inovadora, sempre abençoados por porções generosas de compreensão e afeto por parte do autor. Sua obra é o melhor lugar para se refugiar antes dos 20 anos.
Desconfio que agora a melhor maneira de conseguir falar com Salinger seja telefonar para a Senhora Gorda. Se Ela recusar o chamado, não tem muito problema. Eu tenho os livros dele e vou, depressa e devagar, sorrir enquanto os leio e releio.





