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POR EM 01/12/2009 ÀS 09:18 AM

Salgando carne podre

publicado em

Tenho quarenta e quatro anos, mas me sinto um velho. Aliás, por definição e pragmatismo, o que é um homem velho: 60, 70, 90 anos? Aquele que não pensa mais em sexo? Um sujeito sem metas, sem planos para o futuro? Um corpo duro de artrose? Afinal, quando é que merecemos tal rótulo, se hoje beiramos os cem anos de existência e a vida média do brasileiro não pára de crescer? Irrelevante para mim. Sinto-me capenga, saudosista, melancólico e ranzinza, como um velho de qualquer idade.

Há alguns dias, fui assistir a um show do cantor Lulu Santos. Compareci guarnecido com raspas daquele espírito jovial que eu detinha nos anos 80, quando presenciei duas outras apresentações eletrizantes do roqueiro. Naqueles tempos o rock nacional vivia o apogeu, com o surgimento de inúmeros artistas e bandas. Alguns se firmaram e fizeram história. Outros, por pura falta de conteúdo e atitude, dissiparam que nem fumaça.

Assim como eu, achei Lulu um tanto baqueado. Há alguns dias, a data do show foi adiada por “problemas de saúde do artista”, conforme justificaram os promotores. Esqueci que meus ídolos (sim, eu tenho um bocado de ídolos profanos) envelhecem. A qualidade do som pareceu-me bem ruim. Eu mal conseguia ouvir a sua voz. Problemas técnicos, falta de condições acústicas favoráveis, ou a natural deterioração do meu aparelho auditivo?

Senti um orgulho danado do Lulu. A maneira como ele empunhou as várias guitarras (pra que tanta guitarra?!) durante a performance remeteram à imagem de um soldado empunhando um fuzil com uma bandeirola amarrada na extremidade. Quando escutei as antigas, dancei, suei, viajei no tempo. Nas músicas inéditas, descansei, tomei um fôlego, bebi cerveja. Valeu, Lulu!

Sou um ouvinte assíduo de música. Uma vez que dirijo muito pelo insalubre trânsito de Goiânia — embora eu sonhasse trabalhar num só local e usar um transporte coletivo decente e ágil — ouço muito o rádio. Eu já tentei, mas só consigo sintonizar uma única emissora das mais de vinte opções existentes.

Aprisionado à boa música que se fazia no passado, só me sacio com as antigas. É claro, tem gente fazendo música boa hoje em dia, mas há que se garimpar até a exaustão. E a maioria não toca nas rádios locais. Há música de qualidade escondida por aí, cavoucada nas lojas que, bravamente, se sustentam vendendo CDs. Pesquisando-se com paciência no emaranhado da internet, encontram-se, certamente, repertórios respeitáveis. São cantores e cantoras heróis da resistência, produtores underground, artistas independentes, músicos raçudos quem não se vendem ao diabo (exagerado...).

Ficamos mesmo na dependência dos programadores das rádios que inserem música comercial chata e de baixíssima qualidade, nos mais variados estilos, principalmente pagodes tediosos, canções bregas cantadas por duplas, sucessos de trios elétricos popozudos, pancadões eletrônicos torturantes e outros sons inclassificáveis (praticamente, desclassificados).

Interessado em me manter atualizado com o que se produz de novo na MPB e na música internacional, eu peno chafurdando canções dentro do lixão das futilidades que tocam nas rádios, uma inquietante zoeira de equipamentos eletrônicos que tentam imitar instrumentos musicais, martelando acordes repetitivos e letras paupérrimas nos meus tímpanos como se fossem as salvas de uma enxaqueca. Sintomas de um careta?! 

Muitos leitores hão de afirmar que, em matéria de qualidade musical, o cenário sempre foi assim mesmo, meio lá, meio cá, parcas obras primas sobrenadando em meio às baboseiras. Ou seja, sempre houve muita porcaria embaçando a atmosfera musical, fruto da intervenção malsã de gravadoras interessadas em salgar carne podre ao venderem música ruim. Foi assim nos anos 60, 70, 80, etc. Mais do que nunca, será que estamos nivelando muito por baixo ou eu é que devo tomar um “prozac”?!

Últimas palavras: no próximo dia 08 de dezembro faz vinte e nove anos da morte, por assassinato, do músico e cantor pop John Lennon. Longe de ser um santo (embora ele tenha se comparado a Jesus Cristo no quesito popularidade...), John também teve os seus vacilos e compôs a sua cota de canções ruins. Mas deixou, juntamente com os outros Beatles, um legado musical incontestável que desafia o tempo e aqueles que se dedicam a produzir e fomentar a banalidade em nossos dias. A ele dedico esta crônica.

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Comentários (1)

  • Ter bom gosto musical não é estar envelhecendo o contrário é que é verdade.
    Hoje,como sempre, se produz tanta bobagem com rótulo de arte que garimpar o que se precisa ouvir,ler e ver já é em si um projeto de sábio envelhecimento.
    Resgatar a arte do passado não é saudosismo barato mas sim resgatar ar repirável pelo resto de vida que nos insiste.

    2 anos atrás por adilson


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