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POR EM 27/01/2012 ÀS 12:17 PM

Saiu do cinema pra comprar pipoca e nunca mais voltou

publicado em

Confesso que não vou muito ao cinema. E não o faço por vários motivos, dentre os quais, o frio que eu sinto dentro das salas de projeção (meu corpo magricelo não suporta o ar congelante) e a pipoca cara à beça (por acaso, utilizam milho transgênico importado dos esteites ou manteiga de leite de cabras montesas dos Alpes suíços?). 

A alta tecnologia provoca em mim outro entrave gravíssimo: os filmesem três-dê. Bastacolocar os óculos na cara para começar a vertigem, mãos frias e a sudorese. São reações físico-emocionais de um careta, sem dúvida. Cruéis, meus filhos riem de mim. 

Há outros transtornos pouco relevantes que também me afugentam, como o medo de tropeçar no escuro e me estatelar no chão carpetado. Prefiro não arriscar, então sofro com a bexiga cheia. Ser obrigado a comentar o filme através de cochichos ao pé do ouvido, para não incomodar as outras pessoas, é outro grave desafio. Na sala de casa a verbalização é livre. Além do mais, quem fica com o controle remoto nas mãos sou eu. Porém, verdadeiramente, o que mais me repele dos cinemas é o risco de cair em ciladas.com, como aquela do Bruno Mazzeo em 2011. 

Em quarenta e seis anos de vida, somente duas ocasiões eu presenciei a saída de pessoas de uma sala de cinema, antes que o filme chegasse ao fim. Na primeira vez, fui eu próprio o protagonista, juntamente com um colega da escola. Apesar de moleques, penetramos (Sem duplo sentido, por favor! Não sou Marcelo Madureira! Não sou Hubert! Não sou um casseta! Não quero cansá-los!) num filme pornográfico do antigo Cine Casablanca, no centro da cidade. 

De acordo com os aberrantes cartazes da programação (naquela época, ninguém se preocupava em cobrir com tarjas pretas as genitálias femininas), tínhamos algumas opções interessantes: a reprise do espermático-indigesto filme norte-americano “Garganta Profunda”, e os nacionais “Cada um Dá o Que Tem” (com a Alcione Mazzeo, mãe de Bruno), “Arapuca do Sexo” e “Enfermeira Sem Calcinha”. Ufanistas de araque, nós decidimos prestigiar o cinema brasileiro: fomos então capturados pela arapuca. 

Tolos, como sói ocorre à maioria dos mancebos, fizemos a incursão naquela matinê pornográfica (lembro-me perfeitamente que era um sábado, e assistíamos à sessão das 14h) interessadíssimos em conhecer como era fazer sexo de verdade. Não entrava em nossas cabeças que o sexo fosse uma coisa tão suja, pecaminosa e perigosa, conforme dizia a Irmã Amarílis em suas aulas de “orientação sexual”. 

Outra coisa essencial, mas que a gente não sabia, é que aquele muquifo já se encontrava em decadência assombrosa e era utilizado pelos gueis e prostitutas do centrão da cidade para a prática mal remunerada da masturbação indór, um mergulho na boca do lixo, aventuras no baixo meretrício. Passados quinze minutos de filme, Deus (Deusdete, o segurança daquele antro) nos localizou e nos retirou da sala. Fomos jogados na calçada. Nós e as pulgas. 

A segunda debandada ocorreu na semana passada. Preocupado em proporcionar alguma diversão para a minha filha no final das suas férias escolares, convidei-a para assistirmos à comédia “As Aventuras de Agamenon, o Repórter”. “Vamos rir um pouquinho...”, pensei. Confiar em treiler de filme e contra-capa de livro é sempre um risco. Não deu outra... 

Apesar do esforço hercúleo do Marcelo Adnet, o nosso pequeno grupo sucumbiu às piadas repetitivas, quase todas com conotação sexual. Rapidamente, minha esposa dormiu até babar na poltrona. Júlia, que é considerada uma garota popular e bem humorada na escola, não esboçou um sorriso sequer, aumentando ainda mais a minha angústia. Foi duro desfrutar das “hilariantes cenas de bacanal” ao lado da minha menininha... Contabilizei: pelo menos oito pessoas escafederam-se do cinema. No início, haveria umas trinta. Por que ninguém me avisou antes?! 

A Revista Bula já trouxe à baila o seguinte dilema: afinal, Cinema é arte ou não?! Sou daqueles que acredita que tudo o que seja bem feito vira arte: um gol de bicicleta, uma exitosa cirurgia de apendicite, a ambrosia da Tia Jerusaleta, o desenho dos Quatro Garotos de Liverpul atravessando a Abei Roudi tatuado nas costas de uma mulher bonita. 

Todas as vezes que sou ludibriado por filmes como “Cilada.com” e “As Aventuras de Agamenon, o Repórter”, lembro-me de um velho amigo que vive afirmando que o Cinema Brasileiro é uma merda (Lamento pelo palavrão. É ainda uma influência das comédias brasileiras...). 

Generalizar é uma violência. É claro que o Cinema Nacional não é titica. Mas tem muita titica no meio, assim como acontece na música e na literatura. Sou um cinéfilo; não sou crítico. Afirmar, porém, que eu não saco do assunto; que a minha opinião não vale nada; que eu sou um porra-nenhuma; que tudo o que eu escrevo também é ruim pra caramba; é pura apelação, um carrinho-por-trás, um simples revide. Não vai me ferir. 

Ocorre que, desde a produção de pérolas da sacanagem, como “Arapuca do Sexo”, “Enfermeira Sem Calcinha” e “Cada um Dá o Que Tem”, há dezenas de intelectualóides dando até o que não têm atrás das câmeras e construindo a história da produção cinematográfica nacional, um verdadeiro “desserviço à nação”, como discursaria Bolsonaro, o boçal. E, pior de tudo, é que muitos o fazem financiados com dinheiro público. Isto sim é pornochanchada de verdade!

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Comentários (12)

  • Nem o trailler me convenceu (www.luisfernandomifo.blogspot.com)

    1 semana atrás por Luis Fernando
  • Nossa. O texto deixa tanta curiosidade que dá vontade de ver porque razão esses filmes são tão ruins assim. Anti-propaganda?

    3 semanas atrás por Paula
  • Perfeito. Confirmou a minha suspeita de que não deveria passar nem perto desse "filme". Discordo de que o cinema nacional seja ruim. Temos gloriosas exceções. Independente da proposta de ser "arte" ou "mero entrenimento". Mas essa mistura de piadas forçadas dos Cassetas com o humorista bola da vez Adnet não poderia mesmo dar boa coisa. Hilário mesmo deve ter sido ver a plateia fugindo da sala de projeção.

    4 semanas atrás por Mária Santos Neves
  • Meu caro, este pessoal do casseta só agrada á Rede Global e uma meia dúzia de amigos deles que jogam pelada com eles no fds, eu não conheço nenhuma pessoa, nenhumazinha que goste deles. Este filme já estava fadado ao fracasso antes mesmo de estrear. O problema é que porcarias como estas são financiadas com o nosso dim-dim. O cinema deveria ser financiado com dinheiro da iniciativa privada sem um realzinho sequer dos cofres públicos, queria ver se porcarias como essas seriam levadas adiante. Seu texto está ótimo, ri pra caraléo.

    4 semanas atrás por Linkowski
  • Concordo em gênero e número quanto ao cinema nacional, os efeitos neurológicos dos óculos três-dê e a pipoca escorchante.
    E concordo em grau, quanto à temperatura frigorífica...

    Por último, posso afirmar que não há nada melhor do que curtir seu filme favorito (ou descobrir um novo) no conforto da sua casa.
    A frase de Dorothy (O mágico de Oz) também se aplica a isso: "não há lugar como o lar!

    4 semanas atrás por Dinha
  • Ah cara, só o trailer desse filme é uma baita merda (Lamento pelo palavrão. É ainda uma influência das comédias brasileiras...)

    4 semanas atrás por Jáder Santana
  • Dois cassetas + O humorista da moda + Personagem central fora de sua mídia = Isso não vai dar certo.

    4 semanas atrás por Ademir Luiz
  • Amigão, concordo com tudo que vc. disse, principalmente com o frio das salas de cinema e o som muito alto, eles acham que nós somos surdos? Esses dias meu marido resolveu que queria ir assistir um filme meio que de repente e eu não havia levado blusa. Resultado:preço do cinema 12 reais, preço da blusa que comprei às pressas 80 reais !

    Mas deixe eu te indicar um filme nacional sensacional - não sei se você já assistiu : ESTÔMAGO (é o título do filme, mas não tem nada de escatológico ). É tão bom que nem parece filme nacional (coisa mais feia de dizer né).

    4 semanas atrás por josiane
  • Vêncio, não vou ao cinema e, para mim, filmes não são arte (só para mim - não quero convencer ninguém disso e não me sinto obrigado a argumentar a respeito, mesmo porque não sou especialista no assunto nem pretendo ser, graças a Deus). Cinema é entretenimento. Sobre seu texto, muito divertido. Pelo jeito, muito mais que o filme do ótimo humorista Marcelo Adnet. Abraço, Dr. Vêncio

    4 semanas atrás por Edmar Oliveira
  • Nos anos 1950/60, nós chamávamos filme ruim de abacaxi. E os havia em pencas, de todas as origens. Hoje, não se usa mais esse desqualificativo para filme ruim. Talvez porque os abacaxis tenham se multiplicado tanto, seja qual for a origem deles. O curioso é que um abacaxi como "A Mulher de 15 Metros", que vi na adolescência, hoje é até divertido. E são muito divertidas as chanchadas nacionais, que eram consideradas exemplos de abacaxis quando eu era adolescente. Por isso, costumo dizer que, dos anos 1950, até os filmes ruins são bons. Atualmente tenho visto filmes interessantes de várias origens. Pra ficar no cinema nacional, cito dois filmes de que gostei demais: "A Música Segundo Tom Jobim" e "O Palhaço". Mas sei que existem armadilhas às pampas por aí, das quais fujo como o diabo foge da cruz.

    4 semanas atrás por Herondes Cezar
  • É muito engraçado entrar em uma locadora e ver que existe um gênero indistinto de filmes produzidos em território tupiniquim: "filme nacional". E neste balaio de gatos em película, podem ser encontrados pérolas como Lavoura Arcaica e desastres como os referidos acima. Qualquer longa-metragem que tenha uma ou duas pessoas com sotaque tipicamente brasileiro se encaixa no gênero, enquanto que em relação ao povo que fica ao norte das Américas, é possível encontrar até diferentes classificações de pornô nas estantes (de soft porns até hardcore porns). Vai entender, não é?

    4 semanas atrás por Luiz André
  • A questão não é do cinema nacional, pois há filmes de qualidade ruim em todos os países. E a questão sobre se cinema é arte, essa é realmente controversa. É questão de estar atento antes de decidir por um filme, embora às vezes as ciladas.com sejam inevitáveis.

    4 semanas atrás por Rcelia


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