Saiu do cinema pra comprar pipoca e nunca mais voltou
Confesso que não vou muito ao cinema. E não o faço por vários motivos, dentre os quais, o frio que eu sinto dentro das salas de projeção (meu corpo magricelo não suporta o ar congelante) e a pipoca cara à beça (por acaso, utilizam milho transgênico importado dos esteites ou manteiga de leite de cabras montesas dos Alpes suíços?).
A alta tecnologia provoca em mim outro entrave gravíssimo: os filmesem três-dê. Bastacolocar os óculos na cara para começar a vertigem, mãos frias e a sudorese. São reações físico-emocionais de um careta, sem dúvida. Cruéis, meus filhos riem de mim.
Há outros transtornos pouco relevantes que também me afugentam, como o medo de tropeçar no escuro e me estatelar no chão carpetado. Prefiro não arriscar, então sofro com a bexiga cheia. Ser obrigado a comentar o filme através de cochichos ao pé do ouvido, para não incomodar as outras pessoas, é outro grave desafio. Na sala de casa a verbalização é livre. Além do mais, quem fica com o controle remoto nas mãos sou eu. Porém, verdadeiramente, o que mais me repele dos cinemas é o risco de cair em ciladas.com, como aquela do Bruno Mazzeo em 2011.
Em quarenta e seis anos de vida, somente duas ocasiões eu presenciei a saída de pessoas de uma sala de cinema, antes que o filme chegasse ao fim. Na primeira vez, fui eu próprio o protagonista, juntamente com um colega da escola. Apesar de moleques, penetramos (Sem duplo sentido, por favor! Não sou Marcelo Madureira! Não sou Hubert! Não sou um casseta! Não quero cansá-los!) num filme pornográfico do antigo Cine Casablanca, no centro da cidade.
De acordo com os aberrantes cartazes da programação (naquela época, ninguém se preocupava em cobrir com tarjas pretas as genitálias femininas), tínhamos algumas opções interessantes: a reprise do espermático-indigesto filme norte-americano “Garganta Profunda”, e os nacionais “Cada um Dá o Que Tem” (com a Alcione Mazzeo, mãe de Bruno), “Arapuca do Sexo” e “Enfermeira Sem Calcinha”. Ufanistas de araque, nós decidimos prestigiar o cinema brasileiro: fomos então capturados pela arapuca.
Tolos, como sói ocorre à maioria dos mancebos, fizemos a incursão naquela matinê pornográfica (lembro-me perfeitamente que era um sábado, e assistíamos à sessão das 14h) interessadíssimos em conhecer como era fazer sexo de verdade. Não entrava em nossas cabeças que o sexo fosse uma coisa tão suja, pecaminosa e perigosa, conforme dizia a Irmã Amarílis em suas aulas de “orientação sexual”.
Outra coisa essencial, mas que a gente não sabia, é que aquele muquifo já se encontrava em decadência assombrosa e era utilizado pelos gueis e prostitutas do centrão da cidade para a prática mal remunerada da masturbação indór, um mergulho na boca do lixo, aventuras no baixo meretrício. Passados quinze minutos de filme, Deus (Deusdete, o segurança daquele antro) nos localizou e nos retirou da sala. Fomos jogados na calçada. Nós e as pulgas.
A segunda debandada ocorreu na semana passada. Preocupado em proporcionar alguma diversão para a minha filha no final das suas férias escolares, convidei-a para assistirmos à comédia “As Aventuras de Agamenon, o Repórter”. “Vamos rir um pouquinho...”, pensei. Confiar em treiler de filme e contra-capa de livro é sempre um risco. Não deu outra...
Apesar do esforço hercúleo do Marcelo Adnet, o nosso pequeno grupo sucumbiu às piadas repetitivas, quase todas com conotação sexual. Rapidamente, minha esposa dormiu até babar na poltrona. Júlia, que é considerada uma garota popular e bem humorada na escola, não esboçou um sorriso sequer, aumentando ainda mais a minha angústia. Foi duro desfrutar das “hilariantes cenas de bacanal” ao lado da minha menininha... Contabilizei: pelo menos oito pessoas escafederam-se do cinema. No início, haveria umas trinta. Por que ninguém me avisou antes?!
A Revista Bula já trouxe à baila o seguinte dilema: afinal, Cinema é arte ou não?! Sou daqueles que acredita que tudo o que seja bem feito vira arte: um gol de bicicleta, uma exitosa cirurgia de apendicite, a ambrosia da Tia Jerusaleta, o desenho dos Quatro Garotos de Liverpul atravessando a Abei Roudi tatuado nas costas de uma mulher bonita.
Todas as vezes que sou ludibriado por filmes como “Cilada.com” e “As Aventuras de Agamenon, o Repórter”, lembro-me de um velho amigo que vive afirmando que o Cinema Brasileiro é uma merda (Lamento pelo palavrão. É ainda uma influência das comédias brasileiras...).
Generalizar é uma violência. É claro que o Cinema Nacional não é titica. Mas tem muita titica no meio, assim como acontece na música e na literatura. Sou um cinéfilo; não sou crítico. Afirmar, porém, que eu não saco do assunto; que a minha opinião não vale nada; que eu sou um porra-nenhuma; que tudo o que eu escrevo também é ruim pra caramba; é pura apelação, um carrinho-por-trás, um simples revide. Não vai me ferir.
Ocorre que, desde a produção de pérolas da sacanagem, como “Arapuca do Sexo”, “Enfermeira Sem Calcinha” e “Cada um Dá o Que Tem”, há dezenas de intelectualóides dando até o que não têm atrás das câmeras e construindo a história da produção cinematográfica nacional, um verdadeiro “desserviço à nação”, como discursaria Bolsonaro, o boçal. E, pior de tudo, é que muitos o fazem financiados com dinheiro público. Isto sim é pornochanchada de verdade!






