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POR EM 19/04/2010 ÀS 09:25 AM

Saberes (nada) elementares

publicado em

Ao pequeno Arthur, meu neto que vai chegar

Você nem vai notar. Quem está chegando agora não dispõe de elementos comparativos para saber se a casa está desarrumada ou se é assim mesmo a arrumação.  Mas eu venho de mais longe e posso lhe afirmar com segurança: o mundo anda muito mudado. É bem verdade, insisto: o mundo está revirado para as pessoas mais velhas, que vêm de um tempo de costumes diferentes, de objetos diferentes, de modos de se realizar diferentes. Muita coisa melhorou. Não nego. Em compensação... Bem... com o tempo, você há de convir, o modelo que está em vigor é perverso com a gente.
           
O deus que manda hoje em dia é o Senhor Mercado, e todos os demais deuses se curvaram a ele e viraram marionetes em suas mãos. O magno ensinamento desse deus é que viver a vida consiste única e exclusivamente em atender aos desejos, custe o que custar. E para que seja criada uma dinâmica de roda-viva no mundo, uma engrenagem que triture a tudo e a todos, o deus Mercado determinou a seu profeta Marketing que promova em nossos corações o nascimento de desejos, numa espiral infinita. E a vida entrou em redemoinho, em desabalada correria, atrás da realização de necessidades que supostamente temos e precisamos atender.
           
Primeiro, pequeno Arthur, é preciso separar o que é necessidade do que é apenas desejo. Necessidade são nossas carências reais que precisamos suprir para viver com dignidade. Já desejo são as pulsões artificiais que precisamos atender para viver com ostentação. Atender às necessidades nos permite conviver com uma senhora bondosa e acolhedora, chamada Felicidade. Já o atendimento dos desejos nos leva aos pés de uma outra senhora, caprichosa e tirana, que atende pelo nome de Vaidade.

Exemplifico: Toda pessoa precisa se locomover com segurança e conforto. Ela pode fazê-lo num carro Volkswagen Gol, digamos. É o atendimento a uma necessidade. Ma se a pessoa quer fazer seus trajetos num Lamborghini Reventón, será para atender a um desejo, mais precisamente, à Vaidade. Quando se veste com sobriedade e conforto, atende à necessidade; quando se veste com grife e espalhafato (nem sempre com conforto) atende ao desejo. Quando se quer morar, quer atender à necessidade; quando se quer morar e humilhar (os outros), quer atender ao desejo. Buscar um negócio ético ou um emprego digno é necessidade; ser o mais rico do mundo, a todo custo, é desejo. Ser reconhecido pela obra é necessidade; ser celebridade pelos escândalos é desejo. Lembre-se: Atender à necessidade sacia como água; ao desejo vicia como droga. Resumindo: a Felicidade não exige muita coisa; quem é cheia de exigências é a Vaidade.
           
Tome cuidado, pequeno Arthur, porque o tempo todo, o Senhor Mercado vai estar tentando nos convencer que o desejo é necessidade, que a vaidade é felicidade, que a ostentação é dignidade. Não caia nessa armadilha. Viva a vida com a dignidade verdadeira, que a felicidade lhe será dada por acréscimo.

Ah! não se esqueça de um detalhe: cultura sem prosperidade é um desconforto, já riqueza sem cultura é uma tragédia.

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Comentários (2)

  • Duras e necessárias verdades Edival diz neste texto. É um fato inquestionável: para que o Deus mercado possa manter sua massa (de manobraO tem que funcionar a mil por hora, acionando em todas as mídias, e de todos os modos, a ciência de criação de desejos, a que chamam de marketing. A esta ciência interessa criar a vontade de ter coisas desnecessárias, cuidando de torná-las obsoletas de imediato. Ao mercado não interessa divulgar e fazer que as pessoas se interessem por coisas e valores que de verdade importam.

    2 anos atrás por Brasigois Felicio
  • Gostei muito deste texto. Precisamos da lucidez, mesmo que em doses homeopáticas, porque os viciados às vezes não respondem tão bem a um tratamento mais radical. Vivemos alienados de nós mesmos, e, quanto mais fugimos do desconforto, mais o alimentamos. Obrigada.

    2 anos atrás por Cíntia


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