Risole de carne e moranguinho
Minha mais velha fez dez anos há poucos dias e caímos na besteira de fazer uma festa em nossa casa. Ela queria convidar só as coleguinhas. Os coleguinhas ficariam de fora. “Eles são muito atentados”, nos advertiu. Minha esposa e eu: “Não podem ser atentados assim”. Eram. Quer dizer, não eram, propriamente, “atentados”. Eram animais mesmo. Um bando de selvagens no sentido anti-rousseauniano da palavra. Um ou dois degraus a menos na escala evolutiva (acima dos macacos, mas abaixo do homem de “Neanderthal”).
Minha casa tem marcas de sua passagem até hoje, como provavelmente tinham as cidades invadidas pelos vikings ou Gengis Khan, sei lá. Só que a guerra, aqui, foi de brigadeiros. O que deixou minha filha ainda mais brava, pois não sobrou brigadeiro, seu doce predileto, pra contar história. A não ser no chão, nas paredes, e nos lugares mais improváveis que escavações arqueológicas posteriores revelaram para nós.
E por falar em doce predileto, embora a festa fosse para minha filha, era um pouco pra mim também, pois fazemos aniversário quase na mesma data. Ela comemora, eu me conformo. Mas fiz algumas exigências: 1- Não teria cerveja de mulherzinha (aquela que desce redondo e similares). 2- Não teria risoles de milho. 3- Teria risoles de carne e moranginho.
Consegui quase todas. Exceto o moranguinho. Alguém aí se lembra de um docinho de festa de criança de antigamente que se chamava moranguinho, mas não era feito de morango? Não consigo ninguém que se lembre e faça. Uma dó. Era meu doce preferido. Quanto aos risoles, bati o pé. A ditadura do risole de milho não teria vez no meu aniversário! (Tudo bem, tudo bem, aniversário de minha filha). Minha esposa tentou contra-argumentar, que o correto é que fosse uma democracia, que permitisse a convivência harmônica entre risoles de milho e carne. Mas eu não cedi. Força se derrota com força. (Woody Allen diria: “É difícil argumentar com quem usa coturno e arma. Melhor conversar com um bastão de beisebol na mão”). Venci. Risole de milho não passou nem perto de minha festa (tudo bem, de minha filha).
Voltando aos animais. É impressionante a tendência dos pais de hoje a tratar seus pimpolhos como se fossem Adão e Eva antes da mordida da maçã. É como se se sentissem cronicamente culpados por tê-los colocado no mundo cruel. E dá-lhe birra e mal-comportamento não corrigidos ou sub-corrigidos. Não advogo aqui a educação pela porrada (embora eventuais tapinhas de amor não doam, como diz a música). Refiro-me à disciplina (que não necessariamente está acoplada a castigo físico). Não há disciplina mais. Assiste-se a espetáculos grotescos de birra em frente dos pais sem que estas façam qualquer coisa, pelamordedeus! A criança diz um ou dois “eu quero!” (ou “eu não quero”) e os pais cedem. O que escapa a estes pais é que não estão protegendo-as, mas aleijando-as intelectualmente. O mundo não é assim. No mundo, quando uma delas espernear no chão gritando “Mas eu quero” Eu quero!!”, serão pisoteadas. E aí? Onde estarão os pais super-protetores (leia-se coniventes e permissivos) nessa hora? Infelizmente, bem longe.
Flávio Paranhos é Médico. Coordenador da Coleção Filosofia & Cinema e autor do livro de contos Epitáfio (Nankin Editorial). Colunista da revista Filosofia Ciência & Vida (Editora Escala) e dos sites www.revistabula.com e www.mundomulher.com.br





