Resfriado caprino
Já foi dito que as guerras e as pragas têm lá as suas serventias no fundamental controle demográfico, evitando o povoamento desenfreado do planeta e a extinção das reservas de água potável e comida. Enfim, seriam “males necessários” à sustentação da espécie.
Lucubrações à parte, um novo micróbio está a ameaçar as nossas vidas, soprando seu bafo morno e temível. Já passamos por um cardápio de moléstias, doenças estranhas, surtos medonhos, epidemias rasteiras, pestes letais, pandemias abatedoras de gente. A leitura de livros sobre a História da Medicina é diversão garantida aos estudiosos ávidos por conhecimento, e detêm provas contumazes do quanto viver é missão para teimosos.
Seres humanos costumam reclamar de tudo: das coisas, dos outros, do conhecido e do desconhecido, do natural e do sobrenatural, dos vivos, e até dos mortos em apelos os mais delirantes. Lastimamos porquanto somos miseráveis e infelizes. Não tenho dúvidas que choramos de barriga cheia. Há bem pouco tempo se morria de gravidez e parto, de caganeira e sífilis (embora isto ainda aconteça, em prevalência bem menor), homens e mulheres à mercê da própria sorte em rincões remotos onde os recursos nunca chegavam. Enfim, no início do século XX a expectativa média de vida não passava dos 35 anos. Hoje, com o avanço da ciência em todas as áreas, nos gabamos de viver 100 anos, muito embora muitos nem saibam exatamente o que fazer com tamanha longevidade. Vaidosos, egoístas e corruptos, alguns fazem conta de viver eternamente.
Peste Negra, Gripe Espanhola, AIDS, Cólera, Febre Amarela, Dengue, Ebola, Vaca Louca, Gripe Aviária... Uma doença batizada Gripe Suína é a ameaça da vez. Trata-se de uma morbidade provocada por um vírus mutante originário dos suínos e que encontrou no organismo humano o ambiente propício para replicar e se multiplicar. Que ninguém maltrate ou abata os leitõezinhos! Não se contrai a moléstia comendo lombo acebolado. O microrganismo é transmitido de pessoa a pessoa através de perdigotos (cuspe), partículas de saliva (baba) instilada no ambiente e aspirada por narinas e gargantas desavisadas (goelas).
Pelo que se sabe (ou se pense que se saiba), os primeiros casos surgiram no México e já começaram a pipocar em vários países, como nos EUA, por exemplo, onde as autoridades sanitárias consideram a doença uma epidemia, dado ao crescente número de casos ocorridos. Hoje, neste exato instante, enquanto escrevo esta crônica, há relatos de primeiros casos suspeitos em Belo Horizonte e São Paulo. Até o dia em que ela seja publicada, é bem possível que já tenhamos centenas de pessoas contaminadas com o tal vírus novato. Doença contagiosa é que nem notícia ruim: espalha rapidamente. Portanto, que nenhum leitor me amaldiçoe se as informações já saírem mortas de seu nascedouro.
Os sintomas da doença simulam uma gripe comum, só que bem mais severos: febre alta, dores no corpo, prostração, coriza e tosse, podendo inclusive levar o indivíduo à morte. Quem sonhava conhecer Cancun haverá de adiar um pouco a viagem, até que a praga seja controlada (ou não). Com a velocidade da comunicação em nossos dias, o clima de apreensão (mais um dentre tantos), de repente, toma conta do mundo.
A ignorância (falta de conhecimento) é um dos piores defeitos que colecionamos. Hoje, graças aos esforços e inteligência dos nossos antepassados, favorecidos pelos avanços da tecnologia e da ciência, nós ficamos apavorados com a possibilidade de uma pandemia dizimando multidões. No início do século passado, Oswaldo Cruz, sanitarista visionário, quase foi trucidado pela população fluminense que se rebelou depredando patrimônio público, virando os bondes de cabeça para baixo, tocando fogo em barricadas nas ruas, num episódio conhecido como a Revolta da Vacina. Dentre tantas medidas do Governo à época para controlar pragas como hanseníase, febre amarela e tifo, Oswaldo Cruz e sua trupe corajosa impuseram a vacina para combater a disseminação da varíola. Ignaro, o povo se rebelou fazendo com que as autoridades cancelassem a obrigatoriedade da vacina. Com o tempo, ela se tornou opcional e acabou aceita pela maioria da população.
Por fim, que bicho haverá de nos dizimar: uma “febre anfíbia”, um “resfriado caprino”, uma “colapso equino”?! Borrando de medo em todos os idiomas é que constatamos, mais uma vez, a nossa fragilidade frente aos fenômenos naturais, ainda que mutantes e inéditos, como o tal vírus da Gripe Suína. Em cenários de pânico coletivo, principalmente por parte da população leiga em Saúde Coletiva, fica evidente que os parâmetros de raça, credo, casta e preferência sexual não fazem tanta diferença quando o inimigo é microscópico e quase incontrolável. De um momento para o outro, poderemos estar todos no sal. Ou no pau da goiaba, como gostamos de dizer aqui em Goiás. Quisera esta crise existencial gigantesca conduzisse todas as nações a discutirem e mudarem, de uma vez por todas, o nosso equivocado modo de vida no planeta.





