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POR EM 01/07/2008 ÀS 10:35 PM

Relendo Borges

publicado em

Releio o volume 1 das Obras Completas de Jorge Luis Borges, publicada pela Editora Globo. Devo dizer que não escolho muito os autores que vou ler. Geralmente, os livros aparecem para mim e graças a Deus (isto é, ao Acaso) tenho tido sorte. Esse livro apareceu durante minha mudança de casa. Tentei resistir à leitura, pois tenho muito déficit a cumprir, mas não foi possível. Sobrevoei os poemas e novamente achei-os desinteressantes, como da primeira vez, esses poemas antigos de Borges, a não ser por terem sido escritos pela mesma mão que escreveu o Aleph ou Ficções. O melhor livro de poesia de Borges para mim ainda é o que ele ditou, já em um estado avançado de cegueira, aos 70 anos: O Elogio da Sombra, de 1969. Minha avaliação, como sempre, é pessoal. Esse livro também veio até mim pela mão de meu pai. Li-o quando já estava morto e li-o, lendo a sua leitura, por meio das marcas que deixou, em grafite, assinalando uma ou outra passagem. Não sei com quem está esse livro, procurei-o agora mesmo e não o encontrei. Em que mãos andará? Aguardo paciente o retorno. Livros são objetos carregados de afetividade. Não tenho muitas fotos em casa, nenhuma do meu pai. Fiquei com esse livro dele e uma edição dos contos de Poe, com a data de 1979, escrita à mão -quando eu tinha sete anos e lembro que a capa em preto e dourado com um homem trajando um manto cheio de motivos geométricos e arabescos, terminando nuns quadriculados, acompanhado de um gato preto, povoou os meus pesadelos-, além de um ou outro volume de filosofia, que me esforço para me lembrar qual agora (talvez os Pensamentos de Pascal). O resto está espalhado pelo Rio de Janeiro, Alemanha e Natal, onde moram meus quatro irmãos.
 
Voltemos a Borges e às suas Obras Completas, Volume 1. Após passar a vista nos poemas, fui direto para a leitura que me prendeu ao livro, e que me fez chegar até aqui, a esse ponto do meu relato: o conto que dá nome ao título mais famoso de Borges: O Aleph. Uma vez que caímos na sua armadilha não o esqueceremos jamais. O Aleph é pois um tipo de Zahir borgeano, o objeto que é capaz de nos fazer esquecer todo o universo. No caso, o esquecimento pode ser das outras obras de Borges, assim como A Metamorfose é para alguns, péssimos leitores, o Zahir kafkiano, e não me admiraria se ele tivesse querido em algum momento desfazer-se desse conto. Mas é sem dúvida exagero dizer isso e só o faço por uma questão de estilo. O Zahir é tema de outro conto do livro, uma espécie de conto irmão deste, talvez escrito antes do Aleph, e em ambos o autor assinala, num epílogo de 1949, a influência da estória “The crystal egg” (1899), de Wells. Talvez o Aleph seja afinal um reflexo de uma outra miragem de Borges, de outro livro, anterior, Ficções, e dentro deste o conto: o Jardim de Veredas que se Bifurcam, o labirinto dentro de um livro, com suas dobras temporais: presente em que releio (e portanto situado no passado) e futuro em que será relido (fecha-se o círculo que é eterno). Começa-se a ler Borges e fica-se prisioneiro das referências, dessas palavras e termos, enriquecido pelo conhecimento, dessas metáforas vertiginosas, de sua mise en abîme. Não se esquece, rememora-se, vai-se adiante e retorna-se. Não se deve ler Borges começando pelo Aleph, como fez um conhecido meu. As obras completas têm portanto essa vantagem, de trazer ao leitor recém-iniciado tudo de uma só vez. Ler saltando de uma estória a outra, e no tempo, é outro dos prazeres. Falei em enriquecimento e não há melhor palavra para descrever. Borges é o tipo de escritor que nos torna mais inteligente, ou em contato com a sua inteligência superior, nos faz sentir mais inteligentes do que realmente somos. Abrem-se mundos, que não existiam antes, deuses que criamos, fala-se com os mortos, alguns até ressuscitam.

 
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