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POR EM 03/11/2008 ÀS 05:41 PM

Quem é vivo aparece

publicado em

Ele é um autêntico “homem de lugar nenhum”
Sentado em sua “terra de lugar nenhum”
Fazendo todos os seus “planos de lugar nenhum”
Para ninguém

(Nowhere Man, The Beatles, 1965)

No filme trash, “A volta dos mortos vivos”, a defuntada torna à vida colocando em polvorosa a comunidade local, ao se alimentar com seus miolos. “Brain! Brain!”, clamam os zumbis. O filme, é claro, não mete medo em ninguém. Gente morta não faz o mal ou o bem a quem quer que seja. A não ser quando deixa dívidas impagáveis, mentiras de uma vida dupla, ou fortunas que provocarão disputas e ranger de dentes nos herdeiros. Há quem morra ou mate por dinheiro. Coisas da natureza humana.

Seria mesmo divertido se os mortos se rebelassem e escapulissem dos sepulcros, todos ao mesmo tempo, fazendo o povaréu vazar apavorado. Dentro do barraco, no outro lado da rua, o homem matutava se protegendo do sol escaldante de novembro, observando o formigueiro de gente que entrava e saía. Sobre a calçada, em quase todo o perímetro do cemitério, ambulantes se espremiam num mercado a céu aberto, faturando uns trocados na venda de um quase tudo: vasinhos de flores, botões de rosas, santinhos de barro, velas de todas as cores e tamanhos, água benta, água fluidificada, água imantada, e água que passarinho não bebe de jeito nenhum. O feriado de Finados caiu no domingo, e ninguém é de ferro, sabe como é?! Não tem Lei Seca que segure um brasileiro com sede.

O comércio informal era agressivo e farto. O famoso sanduíche de lombo de porco, alimento dos mais profanos para a ocasião, também fazia muito sucesso nas bocas dos famintos que se habilitavam a homenagear os mortos. Muitos faziam questão de prestar reverências à beira do túmulo, onde podiam sentir as vibrações e a presença do falecido (?!). Não se deve caçoar da fé alheia. Tampouco da falta de fé de uma minoria resignada.

Homem é um bicho danado. Alguns malandrões despitavam as esposas e se demoravam na degustação dos espetinhos de carne e da cerveja profanamente gelada. Mulheres bonitas vestidas com roupas de domingo desfilavam no meio da multidão fiel. Pernas depiladas, coxas retesadas, peitos siliconados, barriguinhas lipoaspiradas. Nunca o culto à estética corporal esteve tão em alta para uma gente com baixa estima, que valoriza mais a carcaça do que o conteúdo. Embora o local não fosse propício, havia quem paquerasse no portão de cemitério. Como diria o meu amigo-filósofo José Galinha _ modernamente classificado pelo SUS como um paciente viciado em sexo _: “Caiu na área é pênalti”.

Do seu observatório improvisado, o homem vigiava o povo. Apesar das gozações dos amigos e colegas de trabalho, não se importava em morar defronte ao cemitério. Ateu, não cria em alma, em anjos, em santos, em reencarnação, em políticos honestos. Não cria em quase nada, a não ser que a vida parecia sem sentido.

Indignado com o dinheiro auferido com artimanhas e trapaças de muitos líderes religiosos, afastou-se dos templos. Era um sujeito de cultura mediana. Conhecia bem a História da Humanidade, as mazelas das igrejas, as mortes, abusos e barbaridades cometidas no passado por gente que se dizia fiel a Deus. Sua religião era a bola. Nas peladas de final de semana, juntava os companheiros no campo de várzea e puxava um padre-nosso que era rezado em voz alta, num ritual a selar o pacto pela vitória. Nestas horas,  poderia até rezar um poema do Mário Quintana ou do Drummond, mas preferia o Pai Nosso, por mais paradoxal que aquilo parecesse provindo de um agnóstico como ele.

A fumaça do churrasquinho dissipava no céu deixando o quarteirão engordurado. O cheiro de carne assada misturava-se com o olor das flores e das velas queimadas, uma combinação odorífica que o deixou nauseabundo e atordoado. Sentiu os lábios anestesiados. As pernas bambearam. Talvez tivesse bebido mais que a conta. Apoiou o corpo na mureta da varanda, mas a vertigem piorou. Foi invadido por uma tristeza e melancolia que há muito não sentia. A varanda da casa estava agora bastante enevoada. Sentiu faltar o fôlego.

Ficou agitado ao pressentir que morria. Há poucos dias fizera um checape completo. Tudo normal, de acordo com o médico. Mas também, esses médicos de hoje em dia não sabiam bulhufas. Nem mesmo colocavam as mãos na gente. Será que era nojo ou a medicina andava moderna demais ao ponto de dispensar o contato médico-paciente? Ou será que o doutor tinha preguiça dele porque seu plano de saúde era fajuto? Ainda teve prazo para reflexões infrutíferas.

Moveu-se estabanadamente, derrubando o copo com cerveja pelo meio. De tão tonto nem sentiu os estilhaços de vidro perfurarem os pés descalços. Caminhou miseravelmente. Fitou a multidão, um vai e vem de gente que não acabava mais. Pobres, ricos, brancos, negros, seres humanos agarrados à fé como se fora um lenitivo, um antídoto para que não enlouquecessem, a única resposta plausível que os confortava. Ficou com a vista embaçada. Balbuciou, bêbedo. Quis gritar, acenar para uma criatura que o salvasse daquele mal súbito, do inédito medo da morte. Não tinha mais forças. Tombou sobre o piso vermelhão salpicado de cacos. O sangue escorreu, deixando o chão ainda mais rubro. 

Só acordou no dia seguinte, uma baita segunda-feira, com a gritaria da faxineira. Que ele bebia muito. Que parasse de uma vez por todas com aquilo. Que procurasse uma igreja. Que era coisa do demo. Que se levantasse logo do chão. E fosse tomar um banho. E tomasse também uma aspirina. E o café da manhã. E um rumo definitivo na vida, ora essa!

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