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POR EM 08/05/2009 ÀS 06:48 PM

Quando os brutos se tornam mulherzinhas

publicado em

Recentemente, um curioso debate ocupou a coluna de comentários da Revista Bula. Opinava-se a respeito dos filmes de “western”, ou seja, os bons e velhos (ao menos, para mim) faroestes. Alguns leitores contribuíram enaltecendo o gênero, inclusive, listando seus particulares “melhores filmes de caubói de todos os tempos”.

Indignado, alguém escreveu que detestava “aquele tipo de filme”, pois vinha sempre carregado de muita violência e preconceito, em particular, contra os ameríndios arrebatados à bala. O leitor também se declarava estupefato com a truculência dos rancheiros, bandidos e xerifes com a mulherada, regra geral, tratada a safanões, impropérios e beijos na boca. A curta análise foi até engraçada, vez que fuzilava os apreciadores dos filmes de bang-bang, fazendo crer eles fossem tanto ou mais violentos que os facínoras e os homens que mataram os facínoras. Calma, companheiro. Os mansos também se embrutecem...

Deixando virtuais rastros de ódio, receio que o irritado leitor tenha se equivocado ao não considerar que os filmes de western retratam a cultura de uma época. Ou seja, contam fatos reais ou inventados vividos num período da história, ainda que hoje pareçam grosseiros, estúpidos e politicamente incorretos. Ora, inúmeras vezes já nos comportamos como bestas-feras desprovidos de mínima compaixão, torturando, violentando e aniquilando índios, negros e os diferentes de raça, credo ou região geográfica.

No Brasil, já barbarizamos à beça contra os indígenas, desde que aqui aportamos com nossos presentes fajutos, armas de fogo e sede de conquista. Financiados pelos mandatários oficiais, sequiosos pelo ouro, os bandeirantes desbravaram o país, abrindo picadas nas matas, pegando malária e trucidando a indiarada, seres destituídos de alma, conforme a crença corrente naqueles dias.

Assim que assumiu uma cadeira na Câmara Municipal de Goiânia, um vereador de primeira viagem, representante da crescente bancada evangélica, propôs fosse arrancada a estátua de Bartolomeu Bueno da Silva da Praça do Bandeirante, um dos cartões postais da cidade. Pura implicância com o passado maligno do Anhanguera. Como uma parábola bíblica, o discurso clamoroso ecoou pelo deserto (ou melhor, pelo cerrado), não encontrou ressonância à altura, e as marretas não destruíram o monumento histórico. De qual manual alguns políticos se valem para propor as causas irrisórias? Ou seria um proposital campeonato interno de tolices parlamentares? Meu voto não será sua herança...

A gente verifica a própria história e se surpreende. Ficamos pasmos com as iniquidades dos nossos antepassados. Criticamos com a convicção e a arrogância de quem julga ter alcançado o platô da justiça social e da honradez. Que nada. Ainda somos bem atrozes. Restam poucos índios a serem injuriados. Desde a rubrica da Princesa Isabel, a negritude até hoje peleja contra o preconceito racial. Quem são as vítimas do nosso tempo?!

Por exemplo, na minha cidade tem uma praça. Uma praça, como outras tantas, negligenciada pela prefeitura. A iluminação é precária, não há flores ou canteiros, nem o aroma bom da rosa. Onde antes havia grama, vigoram o terrão e a lama.

Sob árvores frondosas, algumas delas carcomidas pelas pragas, condenadas ao definhamento e à morte por falta de zelo, malandros cometem delitos e desocupados se masturbam como se estivessem em casa. E quem dirá que não estão? São moradores de rua. Enjeitados sociais. Esquizofrênicos abandonados pelos familiares e pelo município ali defecam, perambulam sem rumo, sem memória, sem planos futuros senão sobreviver ao descaso, às doenças e à fome.

Nesta praça, aos sábados, funciona uma grande feira popular de roupas, calçados, artesanato e comidinhas. Chamam-na “Feira da Lua” porque principia no crepúsculo e avança pela noite. Todo sábado comparece um casal de idosos super-simpáticos, ambos adiantados na oitava década de vida. Ela, avozinha com rosto de maracujá maduro, fica sentada numa precária cadeira de rodas. Ele, velho franzino de força miúda, empurra a companheira no meio da multidão de comprantes. O casal da “melhor idade” (é como hoje se denomina gente velha) esmola, garimpa moedinhas como quem estivesse na “pior idade”. Agarrando-se na fé, eles suplicam uma-esmolinha-pelo-amor-de-Deus. E não há quem não a dê. Eu, por exemplo, não dei. Homem bruto ou desalmado?
 

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