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POR EM 24/03/2010 ÀS 10:00 AM

Procuram-se homens velhos que ainda sonhem com o futuro

publicado em

Por causa da carência de homens (homens vivos) e, também, porque é professor de dança gabaritado, Rubens foi contratado como “personal dancer” por um grupo de senis senhoras. Gay assumido — embora ele não alardeie a condição sexual a fim de evitar chateação, chistes e preconceito — cuida do entretenimento de sessenta e tantas “idosas” (mulheres na senectude), em sessões que duram quatro horas, uma vez ao mês.

Dona Geralda, uma das participantes mais animadas da turma, explica que a insuficiência de parceiros ocorre, na maioria dos casos, devido à viuvez das dançarinas veteranas. Também, os raros senhores remanescentes não têm o mesmo pique que as companheiras e preferem continuar envelhecendo em casa, longe da peculiar tagarelice feminina. Mesmo velhinhas, elas falam pelos cotovelos...

Perguntei a Dona Geralda por que razão os homens morrem mais cedo que as mulheres, mas ela não soube explicar. Insinuei que a culpa seria das próprias mulheres, criaturas das quais emanam preocupação e contrariedade, mas a boa senhora gargalhou, deu de ombros, desdenhando do meu raciocínio viciado. Então pesquisei alguns amigos médicos, profissionais entendedores de assuntos que envolvem a vida e a morte. Os doutores que ouvi justificam a morte prematura da “homarada” ao fato deles negligenciarem básicos cuidados com a própria saúde. Além de serem, por natureza, mais desleixados e estressados que as mulheres (ingredientes poderosíssimos para o incremento de moléstias como o câncer e o infarto do miocárdio), os homens costumam buscar assistência médica quando já estão com as favas contadas.

Entretanto, com a apologia aos “hábitos de vida saudáveis”, a sociedade está mais consciente que os cuidados com a alimentação, com o controle do estresse e com a prática regular de esportes resultarão em longevidade com qualidade de vida. Resta, então, usar com sapiência os anos obtidos de lambuja, conquistados à custa de restrições alimentares e comportamentais. De que vale um indivíduo velho contagiado por velhos preconceitos? Este já morrerá tarde...

O premiado filme “O Curioso Caso de Benjamin Button” (2009), no qual o personagem principal nasce velho e morre bebê, mostra a vida sob um prisma curioso, abordando a questão temporal e do envelhecimento de maneira diferenciada e criativa. No final das contas, ainda que se inverta a fisiologia, não há como fugir da insanidade. Mesmo adulterando, revertendo o relógio biológico, os sentimentos também padecem como frutas apodrecendo sobre a mesa.

À medida que Benjamim Button rejuvenesce, seus colegas de asilo somem do mapa. E é peculiar como a morte tem um significado bem menos relevante quando se reside numa casa repleta de idosos com a saúde precária, “esperando a morte chegar”, como cantava o nem-tão-maluco-assim Raul Seixas. Mais ou menos aguardadas, as mortes acontecem sem gerar crises profundas ou destemperados transtornos, exceto ao próprio Benjamim, que se encontra a cada dia mais jovial e disposto, física, mentalmente, e com sede de vida.

Portanto, na vida real (que é realmente muito louca), uma das iniciativas mais comoventes da sociedade foi associar os seus velhos. Os grupos da “melhor idade” proliferam no Brasil e resgatam a autoestima de milhares de idosos, homens e mulheres anteriormente entregues à solidão, ao desânimo, às sacolas de medicamentos, aos chás caseiros, aos energúmenos programas de TV, ao abandono da família, à masmorra de uma casa silenciosa onde lembranças remotas levitam como fantasmas.

Dona Terezinha, por exemplo, depois que o marido morreu de câncer, ficou muito mais feliz e risonha. Porque a doença, além de corroer sem reservas o corpo senil do companheiro de uma vida inteira, de quebra, carcomeu a imensa mágoa armazenada no peito dela, liberando antigas amarras.

Hoje em dia, ela passa batom vermelho nos lábios, faz teatro, dança (ainda que o faça com outra mulher tão idosa quanto ela ou com o dançarino contratado), pinta quadros, viaja e se diverte com os amigos, solidários na velhice. Novo mesmo, só o desejo de viver intensamente.

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Comentários (2)

  • Tenho uma mãe de quase 80 anos que começou a dançar e a pagar dançarinos. No início pareceu bom para ela, mas agora, estou muito preocupada, pois vejo que ninguém ainda atentou para o que vem ocorrendo nos salões de dança. Alguns dançarinos aproveitam-se da fragilidade e inocência dos idosos e começam a manipulá-los. Minha mãe não está só dançando com o dançarino, mas começou também a passear com ele, um rapaz jovem e aproveitador, que a estimula a sair mais e mais e claro, gastar mais e mais. Agora vão viajar para o exterior com tudo pago por ela. Que dançarino é esse? Topa tudo por dinheiro? Quem é profissional não fica estimulando uma idosa a gastar dinheiro sem limites. Não sei o que ele tem falado para ela, sei que usa o cartão de crédito dela, liga para ela todos os dias e sem dúvida está manipulando e conseguindo se dar bem às custas da minha mãe.
    Este é um grande alerta que dou, porque nem sempre tudo é lindo como as reportagens falam. O idoso é um grande alvo para explorações e manipulações. E a família é colocada de lado e muitas vezes fica de mãos atadas sem saber o que fazer, porque a visão das pessoas só é essa, que o idoso tem que se divertir, mas nem sempre é assim, há muitos dançarinos exploradores e manipuladores. Eles sabem como lidar com o idoso e conseguem o que querem deles.


    2 anos atrás por Filha preocupada
  • Estranho, o este texto começa num tom de esculhambação com as idosas. Depois, altera o rumo, assumindo o estilo da Folha Equilíbrio.
    Esquisito.

    2 anos atrás por Rose


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