Desenho de  Wendy MacNaughton
revista bula

compartilhe



últimos comentários

  • Euler Belém, como sempre, afinadíssimo. ...

    55 minutos atrás por Carlos Augusto Silva sobre Paulo Francis vive
  • o sentimento não tem explicação e nem utilidade prática, está acima da razão prática do dia-a-dia. Sentir é melhor do que racionalizar ou buscar explicação prática os sentimentos. Eu gosto de jazz, es ...

    1 dia atrás por Linkowski sobre Uma coisa inútil
  • Gosto do cinismo do Vêncio, se der pra ser considerado assim. E como ele, "[...] eu tenho convicção que a humanidade nunca esteve tão boazinha." ...

    1 dia atrás por Chiyoko Gonçalves sobre MMA: bate que eu gosto
  • Respeito o comentário, mas discordo do Rodrigo Molina. Procurar alguém que entenda, é apenas ratificar o "esporte". Penso que o autor entende(embora não seja especialista). E é, justamente aí, que est ...

    1 dia atrás por MAURILHO TEIXEIRA sobre MMA: bate que eu gosto

últimas no twitter

  • @magopaco Haha. Boa.
    52 minutos atrás
  • @bqeg Valeu. Estou treinando para aquele confronto. Rs.
    52 minutos atrás
  • @bqeg Qual id da PSN?
    1 hora atrás
  • @neiduclos DM...
    1 hora atrás
  • Os 80 maiores clássicos do blues para ouvir on-line | Revista Bula http://t.co/Jp77X4Bh
    2 horas atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

sugestões de filmes

  • O Homem de La Mancha, com Sophia Loren

POR EM 31/12/2010 ÀS 11:52 AM

Pretérito mais que imperfeito

publicado em

Já era quase noite e ainda não havia encontrado a árvore perfeita em que pudesse atar a ponta da corda. Carecia ser uma árvore imponente, espécime de grande porte, com galhos firmes e inflexíveis, como a vida. Calculava se matar de maneira rápida, objetiva e eficaz. Morreria de qualquer jeito, de morte natural, maltratado por um tumor que lhe espremia os miolos, um caso perdido pela ciência, pelos charlatães e milagreiros. Então, que antecipasse, ele mesmo, o inevitável desfecho. Era virginiano, sistemático, exigente, metódico. O controle remoto da TV, do lado direito da estante; o do som, do lado esquerdo. A “Bíblia” volumosa, aberta bem ao meio, rigorosamente. Afinal, era um ateu dos mais detalhistas. 

Leitor contumaz sabia da eficácia de alguns produtos químicos que, injetados no canudo da veia, produziam uma morte breve e sem sofrimento, um sono derradeiro e sem dias seguintes. Uma vez dopado, a asfixia nem seria sentida. Morreria dormindo, as mucosas azuladas como a água do mar, a morte que todo o mundo sonha ter. Contudo, não sabia ao certo o nome dos medicamentos, muito menos, a dosagem preconizada, as combinações necessárias, a velocidade de infusão do veneno pelo embolo da seringa. Além do mais, o pavor pelas agulhas carregava consigo desde a infância. Seria incapaz de furar a própria veia sem que desfalecesse, antes de consumar a injeção. Demandaria recrutar um ajudante, um comparsa, uma criatura por demais compreensiva ao ponto de apoiar o procedimento, sem remorso, sem reparos, sem lágrimas ou discursos para demovê-lo. Nenhuma chance. Riscou da ideia o uso do coquetel de drogas.

Poderia, quem sabe, jogar-se na frente de um veículo. Ônibus, van, um caminhão-cegonha carregado de carros novos. Ah... Jamais a indústria automobilística vendeu tantos carros como neste ano, é quase um milagre econômico, nos discursos dos governantes... O trauma, sem dúvidas, seria brutal e deletério ao seu franzino corpo de homem na meia idade. Um homem meia-sola. Não queria, porém, envolver terceiros naquela mórbida missão. Não tinha o direito de desgraçar com a vida dos outros. Mais escrúpulos de um perfeccionista. Desistiu do atropelamento.

Uma bala desferida no peito, do lado esquerdo, ou no céu da boca, cano do revólver angulado para o alto, no rumo dos miolos. No princípio, a ideia de atirar contra si pareceu a mais sensata. Efetividade beirando os cem por cento. O choque proporcionado pelo projétil deixá-lo-ia inconsciente e sem vida numa questão de milésimos de segundo. Rapidez, eficácia. Não tinha erro. Um problema, contudo, se apresentou. Não tinha arma de fogo em casa. Sempre fora pacífico. Até mesmo votara pela proibição da venda de armas de fogo no último plebiscito. Poderia pedir um revólver emprestado ao vizinho da frente, um oficial da reserva. Tal solicitação, contudo, suscitaria perguntas impossíveis de serem respondidas. O velho Colt 38, empunhadura em madrepérola, recebido de herança do avô, há muito fora por ele arremessado dentro do rio que cortava a cidade. Herança das mais estranhas lhe deixara o avô morto. O que faria com uma arma de fogo, logo ele, que detestava violência. Lamentou ter sido tão precipitado. Hoje, o instrumento seria de grande serventia. Com alguma sorte, poderia se vingar do tumor, partindo-o bem ao meio, e também dando cabo dele.

Morava numa metrópole moderna, repleta de edifícios. Por que não saltar? Poderia mergulhar na atmosfera plúmbea que a poluição conferia à cidade. Saltaria na madrugada, para não correr riscos de ferir um transeunte desavisado. O impacto de cinquenta e quatro quilos, àquela velocidade, sobre a calçada, seria infalível. Mas, e o medo de altura? Dentre tantas fobias, aquela era a mais detestável. Abeirar-se do parapeito e dali pular seria um suplício, tarefa impossível de ser concluída, muito embora, desejada. Só de se imaginar em pé na extremidade do terraço, sentiu um frio na barriga, as mãos molharam de suor, a palidez cutânea fez parecer um homem de cera. Sentiu uma vertigem abissal. Vomitou. Desistiu de saltar no vazio. Não era passarinho.

Toda esta análise mórbida conduziu o pretenso suicida ao parque da cidade, reduto ecológico onde haveria de encontrar uma frondosa árvore que pudesse atar a corda e desatar a dor. Apesar da magreza, calculou que o peso do corpo seria suficiente para quebrar-lhe o pescoço, desde que saltasse de uma altura mínima de três metros. Teria que escalar uma árvore, subir pelo tronco, como fazia nas goiabeiras e cajueiros da sua meninice. Hoje, tornara-se um adulto destreinado e sem motivações para frutos.

Pela manhã, passou na vendinha e arrematou cinco metros de corda. Foi preciso inventar lorota para tapear o vendedor, amigo das antigas. Não queria criar alarde, aparecer, colocar em risco um projeto tão relevante. Dentro da reserva verde, caminhou entre as árvores retorcidas do cerrado, pequenas, tortas e ásperas, como ele mesmo se sentia. Confuso, não conseguia selecionar o local mais apropriado.

Escureceu. Pernilongos zuniam em seus ouvidos. Seriam “Aedes aegypti”? Nunca mais haveria de se preocupar com a dengue, nem com outras moléstias do rol que assola a humanidade. A tensão crescia. Apressou os passos. Ficou agitado. Precisava muito do adjutório de um galho robusto para a laçada derradeira. Sentiu uma vontade profunda de chorar. Desesperou-se como jamais se permitira, homem equilibrado que era, na avaliação dos parentes e amigos. Perdeu o controle das emoções e se abateu profundamente por conta disto. Matar-se, tarefa aparentemente tão simples, estava virando um drama insolúvel. Outro fracasso a ser debitado na sua conta.

Estava prestes a desistir da mórbida missão, quando foi abordado por dois homens maltrapilhos, moradores das ruas, escravos do vício e do ócio, criaturas a cada dia mais presentes no deturpado cenário urbano. Foi atacado. A dupla buscava dinheiro, pertences, qualquer coisa que tivesse valor. O sujeito nada carregava, senão a corda e documentos pessoais que facilitariam a identificação do corpo pelos homens do IML. Esmero doentio. Foi surrado sem economia. Caiu desfalecido sobre o piso lamacento. Medrosos, os algozes o ataram com a providencial corda. Enrolaram-no, como um casulo. Foi então jogado dentro do lago escuro onde afundou juntamente com um punhado de dramas e frustrações. Um peso incrível que o empurrou até o fundo.

Bookmark and Share

Comentários (3)



*Obs — todos os comentários são moderados.
Não é aceito nenhum tipo de script ou formatação, caso queira adicionar um link apenas cole o endereço normalmente.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2012 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br


renovatio