Pretérito mais que imperfeito
Já era quase noite e ainda não havia encontrado a árvore perfeita em que pudesse atar a ponta da corda. Carecia ser uma árvore imponente, espécime de grande porte, com galhos firmes e inflexíveis, como a vida. Calculava se matar de maneira rápida, objetiva e eficaz. Morreria de qualquer jeito, de morte natural, maltratado por um tumor que lhe espremia os miolos, um caso perdido pela ciência, pelos charlatães e milagreiros. Então, que antecipasse, ele mesmo, o inevitável desfecho. Era virginiano, sistemático, exigente, metódico. O controle remoto da TV, do lado direito da estante; o do som, do lado esquerdo. A “Bíblia” volumosa, aberta bem ao meio, rigorosamente. Afinal, era um ateu dos mais detalhistas.
Leitor contumaz sabia da eficácia de alguns produtos químicos que, injetados no canudo da veia, produziam uma morte breve e sem sofrimento, um sono derradeiro e sem dias seguintes. Uma vez dopado, a asfixia nem seria sentida. Morreria dormindo, as mucosas azuladas como a água do mar, a morte que todo o mundo sonha ter. Contudo, não sabia ao certo o nome dos medicamentos, muito menos, a dosagem preconizada, as combinações necessárias, a velocidade de infusão do veneno pelo embolo da seringa. Além do mais, o pavor pelas agulhas carregava consigo desde a infância. Seria incapaz de furar a própria veia sem que desfalecesse, antes de consumar a injeção. Demandaria recrutar um ajudante, um comparsa, uma criatura por demais compreensiva ao ponto de apoiar o procedimento, sem remorso, sem reparos, sem lágrimas ou discursos para demovê-lo. Nenhuma chance. Riscou da ideia o uso do coquetel de drogas.
Poderia, quem sabe, jogar-se na frente de um veículo. Ônibus, van, um caminhão-cegonha carregado de carros novos. Ah... Jamais a indústria automobilística vendeu tantos carros como neste ano, é quase um milagre econômico, nos discursos dos governantes... O trauma, sem dúvidas, seria brutal e deletério ao seu franzino corpo de homem na meia idade. Um homem meia-sola. Não queria, porém, envolver terceiros naquela mórbida missão. Não tinha o direito de desgraçar com a vida dos outros. Mais escrúpulos de um perfeccionista. Desistiu do atropelamento.
Uma bala desferida no peito, do lado esquerdo, ou no céu da boca, cano do revólver angulado para o alto, no rumo dos miolos. No princípio, a ideia de atirar contra si pareceu a mais sensata. Efetividade beirando os cem por cento. O choque proporcionado pelo projétil deixá-lo-ia inconsciente e sem vida numa questão de milésimos de segundo. Rapidez, eficácia. Não tinha erro. Um problema, contudo, se apresentou. Não tinha arma de fogo em casa. Sempre fora pacífico. Até mesmo votara pela proibição da venda de armas de fogo no último plebiscito. Poderia pedir um revólver emprestado ao vizinho da frente, um oficial da reserva. Tal solicitação, contudo, suscitaria perguntas impossíveis de serem respondidas. O velho Colt 38, empunhadura em madrepérola, recebido de herança do avô, há muito fora por ele arremessado dentro do rio que cortava a cidade. Herança das mais estranhas lhe deixara o avô morto. O que faria com uma arma de fogo, logo ele, que detestava violência. Lamentou ter sido tão precipitado. Hoje, o instrumento seria de grande serventia. Com alguma sorte, poderia se vingar do tumor, partindo-o bem ao meio, e também dando cabo dele.
Morava numa metrópole moderna, repleta de edifícios. Por que não saltar? Poderia mergulhar na atmosfera plúmbea que a poluição conferia à cidade. Saltaria na madrugada, para não correr riscos de ferir um transeunte desavisado. O impacto de cinquenta e quatro quilos, àquela velocidade, sobre a calçada, seria infalível. Mas, e o medo de altura? Dentre tantas fobias, aquela era a mais detestável. Abeirar-se do parapeito e dali pular seria um suplício, tarefa impossível de ser concluída, muito embora, desejada. Só de se imaginar em pé na extremidade do terraço, sentiu um frio na barriga, as mãos molharam de suor, a palidez cutânea fez parecer um homem de cera. Sentiu uma vertigem abissal. Vomitou. Desistiu de saltar no vazio. Não era passarinho.
Toda esta análise mórbida conduziu o pretenso suicida ao parque da cidade, reduto ecológico onde haveria de encontrar uma frondosa árvore que pudesse atar a corda e desatar a dor. Apesar da magreza, calculou que o peso do corpo seria suficiente para quebrar-lhe o pescoço, desde que saltasse de uma altura mínima de três metros. Teria que escalar uma árvore, subir pelo tronco, como fazia nas goiabeiras e cajueiros da sua meninice. Hoje, tornara-se um adulto destreinado e sem motivações para frutos.
Pela manhã, passou na vendinha e arrematou cinco metros de corda. Foi preciso inventar lorota para tapear o vendedor, amigo das antigas. Não queria criar alarde, aparecer, colocar em risco um projeto tão relevante. Dentro da reserva verde, caminhou entre as árvores retorcidas do cerrado, pequenas, tortas e ásperas, como ele mesmo se sentia. Confuso, não conseguia selecionar o local mais apropriado.
Escureceu. Pernilongos zuniam em seus ouvidos. Seriam “Aedes aegypti”? Nunca mais haveria de se preocupar com a dengue, nem com outras moléstias do rol que assola a humanidade. A tensão crescia. Apressou os passos. Ficou agitado. Precisava muito do adjutório de um galho robusto para a laçada derradeira. Sentiu uma vontade profunda de chorar. Desesperou-se como jamais se permitira, homem equilibrado que era, na avaliação dos parentes e amigos. Perdeu o controle das emoções e se abateu profundamente por conta disto. Matar-se, tarefa aparentemente tão simples, estava virando um drama insolúvel. Outro fracasso a ser debitado na sua conta.
Estava prestes a desistir da mórbida missão, quando foi abordado por dois homens maltrapilhos, moradores das ruas, escravos do vício e do ócio, criaturas a cada dia mais presentes no deturpado cenário urbano. Foi atacado. A dupla buscava dinheiro, pertences, qualquer coisa que tivesse valor. O sujeito nada carregava, senão a corda e documentos pessoais que facilitariam a identificação do corpo pelos homens do IML. Esmero doentio. Foi surrado sem economia. Caiu desfalecido sobre o piso lamacento. Medrosos, os algozes o ataram com a providencial corda. Enrolaram-no, como um casulo. Foi então jogado dentro do lago escuro onde afundou juntamente com um punhado de dramas e frustrações. Um peso incrível que o empurrou até o fundo.






