Pra que mentir?
Pra que mentir
Se tu ainda não tens
Esse dom de iludir?
Pra quê?! Pra que mentir?!
(composição de Noel Rosa)
Na última semana, a Câmara Municipal derrubou o veto do prefeito ao projeto que instituía feriado municipal por conta do chamado Dia da Consciência Negra (20 de novembro). A chapa esquentou, o prefeito irritou-se cambada de vereadores e os acusou de fazer “poliquice”, cortesia com o chapéu alheio.
Não adianta espernear, senhor prefeito. Catei o calendário de 2009 e contei quantos dias o país vai parar por causa dos feriados nacionais e municipais. Aproximadamente, 15 dias (contando os dias úteis — que se tornam meio inúteis — pois a gente acaba assassinando as segundas e sextas-feiras perdidas no meio do caminho, entremeadas em feriados prolongados). O comércio que se lasque. Quem depende do serviço das repartições públicas que aguarde o próximo expediente.
Brasileiro adora feriados (além de futebol, carnaval, cerveja, mulheres seminuas e vantagens individuais). Parece que o sentimento coletivo é o seguinte: já que está tudo lascado mesmo, que se dane o resto, eu quero é curtir uma folguinha extra. Talvez, a maioria esteja com a razão. Trabalhar tanto pra quê? Aonde é que se chega com tanto esforço e suor? De minha parte, acho um exagero. Quase ninguém dá a mínima para Inconfidência Mineira ou Dia do Trabalho. Quem dirá para o Dia da Consciência Negra ou do Orgulho Gay (sem qualquer menosprezo aos negros e aos gays).
Depois de ouvir um assassino confesso declarar que tinha matado, por mero acidente e cabeça quente, a namorada (foram doze facadas, de acordo com os legistas), fiquei indignado e fui pesquisar em livros e na internet a origem do Dia da Mentira que se aproxima.
Aprendi que a brincadeira teria surgido na França. No século XVI, após a adoção do calendário gregoriano, ficou determinado que o Ano Novo passaria a ser comemorado no dia 01 de janeiro. Alguns franceses se indignaram com a mudança e continuaram a seguir o calendário antigo, quando o ano iniciava no dia 01 de abril.
A partir de então, muitos aproveitaram a data para tirar um sarro daqueles que resistiam à imposição do rei. Portanto, mentiras eram inventadas como forma de divertimento. O Dia da Mentira é comemorado em vários países do globo, e também chamado Dia dos Tolos. Talvez seja um dos raros dias do ano em que mintamos as mentiras inofensivas. Por que será que mentimos tanto nos demais trezentos e sessenta e quatro dias?
Longe de ser santo, fico pensando por que é tão difícil dizermos a verdade, seja em casa, no quarto, na cama, no ambiente de trabalho, na mesa do bar, no divã do terapeuta, na frente das câmeras, no tribunal, no confessionário, na frente do espelho, e até mesmo no pau de arara (valha-me, Deus!) e na hora da morte. É. Tem gente que não se desgarra mesmo dos seus mundinhos particulares. Somos mentirosos, egoístas e vaidosos também.
No universo político, então, a impostura grassa de forma avassaladora. Tem-se a sensação que a fraude seja parte fundamental do trabalho. Não é por acaso que os políticos sejam ridicularizados no mundo inteiro. Quer dizer, o mau-caratismo não é exclusividade dos brasileiros. Um ou outro parlamentar quixotesco exerce o ofício por puro ideal. São exceções a confirmarem a regra.
Recentemente, um ginecologista, amigo de longa data, contou-me que, enquanto aplicava determinado tratamento numa paciente portadora de DST (doença sexualmente adquirida), a mesma teria perguntado, laconicamente: — “Por que vocês homens dizem que nos amam, mas nos traem o tempo inteiro?”. Desconcertado, o bom doutor garantiu que o defeito não era exclusivo do sexo masculino, mas da espécie humana. Nada que o tempo não curasse e desse um jeito. Acostumados às inverdades, estamos sempre abertos às novas experiências. Parceiros novos, velhas enganações.
Há que se louvar, nesta minha infrutífera reflexão existencial, as mentirinhas úteis desprovidas de maldade, lorotas que contamos aos amigos e às crianças para não os magoar e ferir. Desculpas esfarrapadas, costuradas às pressas para preservar a amizade e poupar sofrimento. Quer dizer, a gente se dedica tanto a mentir diariamente que nem precisava alguém ter inventado o Dia da Mentira para comemorar o defeito.
Está escrito nos dicionários. Mentir: verbo intransitivo; afirmar coisa que sabe ser contrária à verdade; errar no que se diz; induzir a erro; ludibriar; enganar; trapacear. Apesar de muitos se valerem dela para ganhar a vida, a mentira talvez seja o maior defeito do homem. Maior até que a vaidade e a ingratidão. Pena que o Dia 1º de abril não seja um feriado. Quem sabe, a gente pudesse usar este dia para imaginar as relações humanas libertas da falsidade e da hipocrisia.
Não. No Brasil, não daria certo. Com certeza, usaríamos mais este feriado para outros fins, como praia, clube, sexo ou fazenda, exceto para refletir sobre o quanto nossas vidas têm sido tão bisonhas e ridículas.






