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POR EM 22/05/2009 ÀS 01:51 PM

Poesia pra quê, companheiro?

publicado em

Um amigo, assim como eu, perfilado na quarta década de vida, confessou que já não lia mais poesia. Não tinha mais tempo a perder com aquilo. E mais: abandonara também os contos e os romances. Leitor inveterado desde os bancos da escola, ele decidira centrar fogo em biografias e livros de história.

O comentário, ainda que regado a vinho e mulheres inebriantes (as nossas, “of course”), deixou-me acabrunhado, pois provinha da boca de um jornalista, escritor quase imortal e, segundo o próprio,  ex-poeta (falou como se fora um viciado). Só não fiquei seguro se a sua atitude fora tomada por falta de tempo ou de paciência com a literatura.

Durante a recente II Bienal do Livro, por exemplo, fui a um lançamento coletivo de obras de escritores goianos. A lotação foi meia-boca. Presentes no local um monte de escritores solidários solitários, alguns parentes (quase sempre se pode contar com a família nos momentos difíceis da vida), e raros amigos ociosos. Aonde andava o povo interessado em literatura?! Saí do local com uma ojeriza sintomática.

A administração pessoal que fazemos do tempo parece mesmo complexa e frustrante. O ritmo veloz da modernidade, em especial nas metrópoles caóticas, nos impele às estafas física e mental. Aturdidos demais com o excesso de trabalho e atribuições, a chamada “roda-viva” cantada por Chico Buarque nos embrutece, amortece, emburrece. Algemas invisíveis atam-nos aos relógios.

No balanço das horas, de que forma “gastar” o mixuruca tempo livre que nos resta: dormindo, fazendo sexo, lendo livros, brincando com os filhos, fazendo reparos domésticos, escrevendo crônicas para a Revista Bula, praticando música, malhando o corpo, vagando a esmo pela internet, entregando-se ao paralisante charme da televisão, ficando depressivo?

Os bons e maus hábitos derivam da infância. Conheço um sujeito que desafiou o filho mais velho, adolescente meio alérgico à literatura (como sói acontece a alguns presidentes barbudos), internauta inveterado, experimentado em vídeo-games e orkut. Visitante assíduo de shopping-centers, o menino foi um dia barrado pelo pai. Somente voltaria a passear com os colegas de escola no shopping, após a leitura obrigatória de um “livro essencial” ("O Estudante", de Adelaide Carraro), acompanhado da respectiva resenha (para evitar fraudes pueris).

O garoto preferiu mudar o passeio a ler a encomenda. Não se sabe até quando a queda de braço vai durar, e se ela será útil e promissora. Contudo, me pareceu uma plausível última tentativa do pai para incutir no filho o hábito pela leitura, além de alertá-lo quanto ao risco do consumo de drogas (como os livros ruins, por exemplo). Ontem, com satisfação indisfarçável, o homem garantiu ter visto o livro da Adelaide no piso do banheiro, ao lado da privada. Forte indício que o menino o folheara.

“Mas na internet a gente também lê...”— alguém haverá de bradar por aí, defendendo os mergulhos virtuais. Existem sim inúmeros blogs e sites interessantes, entretanto, a maioria dos internautas usa a rede para se comunicar em “salas de bate-papo” e “comunidades”. Não bastasse o pífio conteúdo da leitura feita pelo monitor, é corriqueira a utilização de linguagem virtual paupérrima, repleta de abreviaturas que são neologismo para se “ganhar tempo”. De novo, os dilemas temporais...

Fico com a sensação que toda a parafernália tecnológica atual nos conduz a uma vivência muito confortável, porém, tola. A cada dia, apesar dos “chips e megabytes”, gozamos de menos tempo “livre” e os convívios andam fortuitos.

Mas e daí? Cada qual faz do seu tempo o que bem entende, certo?! Certíssimo. Quem sabe, a leitura de boa poesia seja mesmo uma puta perda de tempo, assim como praticar jardinagem, filantropia e confabular sobre os porquês da nossa existência terrena.

É isso aí, cambada de escravizados. Não há mais tempo a perder. Poesia boa, música de qualidade, florestas virgens... Tudo isto é bobagem descomunal. Usemos o nosso tempo (já que ele de nós abusa) com questões mais edificantes, como as tramas de novelas, intrigas “big-brotheranas” e os alvissareiros livros de auto-ajuda. Que se foda todo o resto, inclusive a poesia de Mário Quintana e Manoel Bandeira!
 

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