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POR EM 22/06/2009 ÀS 10:20 AM

Poesia no asfalto

publicado em

Eu pensava já ter visto de tudo em matéria de pedintes, vendedores e entregadores de panfletos nos semáforos da cidade. Foi então que avistei um rapaz cego (o queixo inclinado, o caminhar cuidadoso e os óculos escuros eram de um cego) empunhando uma bengalinha de metal, singrando entre os automóveis, tateando as latarias, marcando com as digitais da pobreza as janelas, tudo isto num dos cruzamentos mais caóticos da capital.

“Putz! Um cara cego no meio desta loucura...” — pensei, mas toquei em frente, acompanhando pelo espelho retrovisor o desenlace da cena inédita, o sujeito se escafedendo do alvoroço de carros, motos, buzinas e gente estressada.

Nesta cidade, os principais cruzamentos transformaram-se em escritório de trabalho para os informais, palco para as performances de artistas mambembes durangos, e sórdidos mostruários em que os excluídos sociais expõem rencas de filhos ou as suas deformidades físicas à cata de misericórdia e, claro, grana. Ao final de um mês, as cédulas e moedinhas se somam numa renda superior ao atual salário mínimo pago no Brasil. Ou seja, graças à misericórdia (ou seria remorso?) dos cidadãos que alimentam a mendicância, esta turma não vai deixar as ruas tão cedo. Afinal, eles são pobres, mas não são bestas.

A mendicidade, contudo, também disfarça comportamentos anti-sociais os mais perigosos. Outro dia, eu soube de uma senhora da alta casta que teve o rosto chamuscado com ácido sulfúrico porque, além de não entregar dinheiro ao adolescente que “dava um trato” no pára-brisa do seu carro importado, esbravejou por causa da lambança provocada pelo mesmo. O moleque sacou da cintura outra garrafinha “pet” e disparou um jato de líquido corrosivo na face perplexa da madama. Peraltices de criança?

Minha mãe diz ter “estômago fraco”. Volta e meia ela é acometida por cinetose, que são náuseas provocadas pela movimentação dentro de automóveis, ônibus, aviões, navios, etc. Ao parar num cruzamento, a gente se deparou com um homem de cinqüenta e tantos anos que esmolava entre os carros, carregando um coletor plástico amarrado à cintura que parecia cheio de fezes (a cor e o aspecto eram de merda). A bizarra exibição do colostomizado constrangia os motoristas, e muitos faziam caretas, desviavam os olhares, tamborilavam no volante, balançavam as cabeças, ou simplesmente fechavam os olhos e atiravam moedas pelas janelas. Mamãe vomitou no assoalho. Eu tive raiva daquele exibido. Já disseram que sou um insensível, mas eu acho que também não presto.

À noite, quando dirijo, evito parar o carro para escapulir da bandidagem que pulula na cidade escondendo-se nas sombras. Um dia vacilei. Eu dirigia pelo Centro, região negligenciada pela administração pública municipal, como sói ocorre à maioria das capitais brasileiras. Uma mulher (olhei sem o devido cuidado e me pareceu um homem vestido de mulher) batucou três vezes na janela do meu lado. Enxerguei uma mão enorme adornada com anéis extravagantes em dedos coloridos com esmalte vermelho. Num lapso de sensatez, baixei o som do rádio, desci o vidro e me deparei com um par de tetas. Por “apenas cinco reais” eu poderia tocá-las. Desembolsando dez reais, tinha direito a sugar os mamilos. Investindo um pouco mais de dinheiro, quem sabe... Embora o rapaz insistisse tentando vender o seu peixe, afundei o pé no acelerador e saí dali o mais rápido que pude.

Nem tudo são horrores nas tresloucadas esquinas desta metrópole. Nos últimos dias, por exemplo, fui surpreendido pela apresentação de dois originais desempregados. O primeiro fazia serenata em plena luz do dia, no meio de uma tarde calorenta, cantando “Ói, olha o trem, vem surgindo por trás das montanhas azuis, olha o trem...”, de Raul Seixas. O violão estava desafinado, provavelmente por causa do sol escaldante ou porque o sujeito era, visivelmente, um amador no ofício de musicista. Ainda assim, gostei do sarau no asfalto. Ruim, mas original. Melhor que os costumeiros cuspidores de fogo.

O segundo foi um poeta que, estático, declamava versos sobre a faixa de pedestres. Pendurado no pescoço, ele carregava um cartaz com o poema, supostamente de sua autoria, escrito à mão, em português errado. Por causa da caligrafia ruim do sujeito ou da minha óbvia miopia, não consegui ler todos os versos. Tampouco ouvi a declamação. Pensando bem, nem precisava. Poesia no teatro, na cama, no cemitério ou no semáforo, quase sempre funciona. Quem sabe os poetas devessem mesmo ocupar as ruas e as esquinas da cidade. Com a palavra os bardos goianos entregues ao ostracismo...

Cheguei a presumir que a cidade tivesse jeito, se a gente parasse um pouco para se irmanar. Poesia tem destas coisas. Pode quebrar os ranços, comover pessoas aparentemente embotadas. Por alguns segundos fiquei tão pasmado com o ofício do imprevisível vate que o motor do carro morreu e as buzinas nasceram atrás de mim, furiosas, pedindo passagem como se fossem apitos de um trem.

Ai, Raulzito... quem vai chorar, quem vai sorrir?!
 

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