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POR EM 08/12/2009 ÀS 07:38 PM

Parente da vítima

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Olhos acesos e afoitos e aflitos, como se perdidos na noite, são faróis de veículos diversos, indo — para onde? —  e vindo — para quê? Para a demanda que há entre viver e morrer. Vaga-lumes nos calcanhares, os tênis iluminados dos meninos, com o pai e a mãe no bar da esquina. Os casais nas mesas, alguns aos beijos, outros falando mal de seus pais e parentes. As línguas feito víboras, difamando a família, botando o dedo na ferida dos defeitos, expondo em público a roupa suja da privacidade doméstica, depreciando a mobília, “ripando a lenha” nos amigos, porque isso, porque aquilo, de fulano e de fulana. Falando e falando, reclamando do churrasco que não deu certo no sábado, comentando os arranjos de samambaias na sacada do apartamento, lamentando pelo lindo par de sandálias que se deixou de comprar no shopping e se arrependeu. Essa gente corriqueira, com o trivial de sempre. Essas vidinhas previsíveis, com as futilidades da existência. 

E ali a churrasqueira fumegante, o fumaceiro, o cheiro de carne assada, e ali os cães famintos, os olhos suplicantes, comendo a fome com a vontade de tanta gente no bar dos espetinhos. Homens e cães famintos, mas ali homem nenhum se trisca a jogar um pedaço de churrasco aos olhos caninos da súplica. O cão de estimação é o melhor amigo do homem. O egoísmo do homem é inimigo de outro cão que não seja o seu. O cão-mendigo não tem amigo. 

Ferinas as línguas humanas; excretam veneno ao que salivam. A fome é canina, e os cães vadios,  silenciosamente, imploram — parece que choram — pela carne. Padecem de fome, os tristes cães sem dono e sem nome, que vivem nas ruas do abandono. Mas não lhes falta, conquanto ocasionalmente — por não ser assídua presença no ambiente, obviamente não é frequente —, alguém que se compadeça e reparta a carne do espeto. Alguém que conheço e que sempre oferece pedaços da carne avulsa. Sempre se comove, e ainda que possa o dono do bar desaprovar o gesto, pois o cão à roda das mesas incomoda os fregueses — incomodam muito mais os olhos pidões do triste cão! —, a ínclita pessoa insiste, pois sente que a carne incha e perde o gosto em sua boca.  

Nada mais incômodo — ou tanto quanto a ignorância e a injustiça — do que os olhos súplices da fome. Dói, machuca, a silenciosa súplica de um cão faminto, que só sabe falar e pedir com os olhos.  Dói muito, uma criança ou um adulto procurando o que comer nos restos azedos da lata de lixo, como se vê em toda grande cidade que se rejubila com o seu deus e se vangloria de seu desordenado e injusto crescimento econômico. Não, Deus não passa por aqui, pelos caminhos da fome, por onde andam os homens semeando a injusta distribuição de renda. A justiça divina? Vá ver se ela se encontra lá na esquina. Caso a encontre, traga-a até aqui, que queremos vê-la. 

Administrações corruptas, uma atrás da outra. A sociedade hipócrita, a igreja pedófila e sodomita; os templos satânicos, as tripas do bezerro de ouro à mostra. A família-instituição, não-afetiva, já corrompida, gerando a desagregação dos laços de  ternura. A escola a serviço da dominação, onde se adestra o cão e não se liberta o indivíduo. Um Estado de conveniências, o governo desgovernado, a democracia do Demo. Sorria. Você está sendo enganado e roubado. A justiça sacana e o cinismo da canalha no poder. “Pai, aqui estamos reunidos. Sabemos que somos falhos, que somos imperfeitos, por isso roubamos desse jeito”. 

A multidão de autômatos se desloca, um mar de cabeças anônimas e monótonas, com as faces macilentas dos mortos. Passos que se pisam às pressas, no sorriso do amolador de facas. O gado ao matadouro, o homem numa lata de salsicha. Monstros de aço,  escarificadores, escavadeiras, guindastes, ganchos e garras e dentes da força, guincham e trituram e deglutem os contrastes da divisão de classes. 

A fedentina emana-se do ânus urbano. Húmus humano. Caótica e trágica, a cidade é o tumulto, o grito e o túmulo dos aflitos. A sangria dos dias que se fragmentam no mosaico do passeio público. Resíduos. Ruídos agudos, atritos, irritando os nervos da metrópole, parafernália de ossos moídos e aço laminado, réguas, esquadros, pérgulas e mámore, pedra sobre pedra, barras de ferro e lâminas de vidro, vértices e farpas, prismas e ângulos. 

O perigo em toda parte, a cada passo, no solo ou no terraço da morte. O homem respira e cospe veneno. A metrópole expele fuligem e vomita o homem com monóxido de carbono. A vida se vomita. A negra grávida de negra vida, a branca com a penca de bocas famintas, a miséria absoluta que se ramifica com a fome. A sociedade parindo a desigualdade feito uma ninhada de ratos. A noite desumana que se avulta. 

A sociedade em ruínas se reúne, farinha do mesmo saco. Faltos de afeto, os corações estão secos e fartos de amores mortos. E ali os frutos gratuitos das relações carnais, o “canibalismo” imediatista dos casais, o nariz de pênis do pai, a cara de vagina da mãe. O amor é esse odor de éguas e cadelas no cio; os machos feito cachorros farejando o fêmeo feromônio. O homem, esse monstro, é um acidente de percurso. Se assim não fosse, não seria o ser que se é ao nascer, para não ser senão o bicho que será ao morrer. A carniça e o lixo se merecem. 

O morto é o resto. Morrer é engordar o verme bendito do Espírito Santo. As mazelas da cidade, os excluídos da distribuição de renda no país, a cesta básica que humilha a família, enquanto se desfilam o glamour e as futilidades das colunas sociais. Tudo se faz do excremento de todos nós, e Jesus não salva ninguém, meu bem. Pode tirar o cavalinho da chuva. Jesus por aqui não volta nunca mais. Ser santo não quer dizer que seja besta. 

Dê-me o voto, idiota, patriota cara de palhaço. A corrupção de vento em popa, enfiando notas no oco do pau da bandeira nacional. A propina nadando por cima da carne seca. O sorriso cínico dos corruptos, a fazer pouco da opinião pública e do Judiciário caído em descrédito, já o dinheiro do roubo seguro em contas bancária. E não é que propina rima com vaselina? É baixo o povo que se agacha e não se apruma, pois vai indo e se acostuma, mesmo por que as imagens em si não provam nada, ou não são suficientes, não é mesmo, Presidente? Nesse país diz-se uma coisa, depois desdiz-se e diz-se de outro jeito. Que nem caranguejo: um passo à frente e dois para trás. Como diria o apóstolo Paulo aos tolos, na verdade não disse e com isso pecou por omisso, razão por que não se sabe o que teria dito, como no Brasil não se faz o que imediatamente deve ser feito. 

Enquanto isso, um carro atropela um corpo no cruzamento do sinaleiro, os curiosos se amontoam e um deles, que não consegue ver a contento, começa a empurrar os demais e tenta avançar, dá licença, dá licença, sou parente da vítima, ao que todos começam a rir, dando-lhe passagem até o atropelado, no caso a vítima: um pobre cavalo, desses ocasionais que ainda andam à solta pelas ruas. 

A moral da história, com os insultos da escrita, é que esse país é uma velha piada. Assista agora à novela das oito — ó eleitor prostituto —, enquanto retiras a cera de toda a porqueira brasileira que respiras e se acumula no teu nariz de porco. 

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