“Palavras ao mar!”, gritou o poeta...
Sempre que uma tragédia acontece, nós finalmente paramos e nos perguntamos atônitos: “E aí? E a vida, o que é?”. Foi assim que o compositor Gonzaguinha, também ceifado do planeta num trágico acidente automobilístico, construiu a canção “O que é, o que é”. Coletando depoimentos de pessoas da sua convivência a respeito do que seria a vida, o poeta coseu um tocante poema-de-retalhos e compôs uma das pérolas da música popular brasileira. O enigma, contudo, continua como nas charadas infantis: advinha o que é...
É comum que a mídia explore alguns fatos até a exaustão de seus leitores, ouvintes e telespectadores. Tem sido assim com a queda do avião da Air France no Oceano Atlântico que fez desaparecer mais de duzentas pessoas. O acidente com o airbus domina os noticiários há vários dias, mesclado a outros dramas de menor impacto, como bebedeiras de um craque do futebol ou o lisérgico escândalo de alguma celebridade. Até que uma nova desgraça nos surpreenda, vamos ruminando este ibope mesmo.
O sumiço de dezenas de passageiros em alto mar assusta, interrompendo nossas escrotas rotinas de ir e vir pelas ruas das cidades em busca sabe-se lá do que. Alguns mais afoitos apressaram-se em cancelar viagens aéreas e pegaram as estradas brasileiras crentes que assim viajariam mais seguros. Rodovias sem sinalização, asfalto em péssimo estado de conservação, motoristas com cérebros esburacados, caminhoneiros rebitados, latas velhas circulando sobre quatro rodas, uma combinação que resulta na aniquilação de dezenas de pessoas todos os dias no Brasil. Cai um avião lotado de gonzaguinhas toda semana, mas pouca gente se dá conta disto.
Preocupados em informar a população e arrebanhar audiência a qualquer custo, a despeito da ética e do bom senso, alguns comunicadores se esmeram em detalhes e suposições mórbidos, sem dúvida, desnecessários. “Os corpos cujos abdômenes não foram dilacerados pela queda da aeronave, boiarão no prazo máximo de cinco dias, caso ainda não tenham sido arrastados pelas fortes correntes marítimas ou devorados por peixes e tubarões...”, foi este um dos vulgares comentários que ouvi pela TV. Opiniões desrespeitosas, adornadas com adjetivos de mau gosto apenas tornam o episódio mais chocante, piorando a dor de amigos e familiares das vítimas.
Enquanto a Marinha catava destroços de fuselagem e os corpos dos passageiros, em buscas absolutamente milionárias (era como se buscássemos a nós mesmos naquela imensidão de água), fui catando letras no teclado, garimpando palavras, parindo sentimentos antagônicos que fizeram surgir um poema meia-boca. Entretido com entreveros cotidianos, a cada dia me sentindo mais parte da engrenagem desta roda-vida que é morar e trabalhar numa metrópole, há tempos eu não escrevia versos.
Nem todos têm paciência e se dispõem a “perder tempo com bobagens” como a poesia. Ainda assim, nadando contra a corrente, enfrentando tubarões indóceis, exibo o poema abaixo, concebido sob demandas de fé, destroços ou barrancos nos quais me agarrar. E a vida o que é, meu irmão?.
Air France
caídos num mar de nós mesmos
somos puro pavor e sal sobre a fuselagem da alma
não há dor que resista a tantas dúvidas
não há mistério maior que sonhar sonhos impossíveis
por que caem das noites solitárias os pensamentos inquietantes
como: às vezes deus é mau?
marinheiros de mil e uma viagens recolhem do oceano pedaços da gente
alguns deles já em avançado estado de saudade
equipes, lanchas, radares e helicópteros vasculham sobre as ondas
buscam algum vestígio de fé boiando na superfície
não tem jeito porque tubarões e outros sentimentos sinistros
devoram-nos por demais humanos
sorrisos de retratos riem em dias intermináveis
às vezes nos animam às vezes nos fazem mais chorar
como se já não bastassem tantos abraços faltosos
e lágrimas ao mar






