Ozymandias e o sentido da vida
Ozymandias
Encontrei um viajante de uma terra antiga,
Que disse: Duas pernas feitas de pedra, vastas e sem tronco,
Permanecem no deserto. Perto delas, na areia,
Meio enterrada, uma paisagem devastada se estende
(...)
E no pedestal estão estas palavras:
“Meu nome é Ozymandias, Rei dos Reis;
Vejam minhas obras, poderosos, e desesperem!”
[Entretanto] Nada resta. Em volta, só a decadência
Dessa colossal destruição, crua e sem limites
Apenas solitária areia por toda parte.
O poema acima foi escrito por Percy Bysshe Shelley (não confundir com Mary Shelley, sua esposa e autora de Frankenstein), em uma tradução (livre) minha. Ozymandias era outro nome para o Faraó Ramsés II (se quer saber mais a respeito dê uma googoleada que há vários links disponíveis). Por causa de seu conteúdo, foi apropriado pela psicologia como “Melancolia de Ozymandias”, e essa, por sua vez, citada por Sandy Bates, o personagem de Woody Allen em “Stardust Memories”.
Correndo o risco de ficar monotemático, correlacionarei aqui outro filme de Woody citado na Bula passada, Manhattan, e Stardust Memories (até porque, minha tese é de que Woody não só é um filósofo, mas um de rara e invejável coerência). Em Manhattan, quase ao final, Ike (Woody) está deitado no sofá e falando ao microfone de um gravador (é meio bizarro hoje ver o tipo do microfone e do gravador, e imaginar que essas coisas fizeram parte de nosso cotidiano há tão pouco tempo... a sensação não é boa). Propõe-se enumerar as dez coisas que dão sentido à vida. São elas:
1- Groucho Marx
2- Willie Mays (jogador de baseball)
3- Segundo movimento da sinfonia Júpiter de Mozart
4- Potatohead blues cantada por Louis Armstrong
5- Filmes suecos
6- Educação sentimental, de Flaubert
7- Marlon Brando, Frank Sinatra
8- As maçãs e peras de Cézanne
9- O caranguejo do (restaurante) Sam Wo
10- O rosto de Tracy (Mariel Hemingway com 17 anos de idade)
Já em Stardust Memories, muito mal recebido pela crítica, que interpretou (corretamente) como um tapa com luva de pedra, Sandy Bates, um cineasta famoso, está em crise, acometido por uma Melancolia de Ozymandias: que diferença faz se ele faz filmes bons ou não, se daqui a cem, mil ou dez mil anos nada do que ele realizou existirá? Digamos que resista a cem anos, ou até a dois mil (como Platão e companhia), mas e a dez mil? E a cem mil? Não fará a menor diferença.
Seguindo por essa trilha assustadora, nem nossos genes egoístas dawkinianos fazem sentido, já que lá pela centésima linhagem pouco ou nada de nós prevalecerá. Ou seja, nem filhos, a mais básica das tentativas de imortalidade, acessível a qualquer descerebrado (não-estéril, evidentemente), adianta.
Pascal tem várias tiradas famosas e uma delas é o parágrafo 347 de seus Pensamentos: “O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água bastam para matá-lo. Mas, mesmo que o universo inteiro o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que quem o mata, porque sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhece tudo isso.”
Digamos que se Pascal fosse psicólogo ou psiquiatra, não deveria tratar deprimidos.
A consciência plena de nossa finitude não me parece um bom prêmio de consolação. Antes, maldição.
Somente suplantada pela consciência plena de nossa infinita mediocridade, se acometidos pela Melancolia de Ozymandias. Com uma diferença reconfortante: somos tão insignificantes quanto Shakespeare, Goethe e Kafka serão! (Não estaremos presentes pra checar, mas podemos estar certos disso).
Ninguém perguntou, mas, pra afastar Ozymandias de mim, aqui vai minha própria lista:
1-Casa tomada, Cortázar
2- O processo, Kafka
3- Quarto movimento da nona e segundo movimento da sétima sinfonias, Beethoven
4- Paixão de São Mateus, Bach
5- O anjo exterminador, Buñuel
6- Crimes e pecados, Woody Allen
7- Terceiro ato d'A Valquíria, Wagner
8- Ária Nessum dorma!, de Turandot, Puccini
9- Tríptico As tentações de Santo Antônio, Bosch
10-Frango ao açafrão com quiabo babento e abóbora com pequi
(Não incluo aqui minha família por ser uma obviedade)





