Os Coen são bons, McCarthy, não
No country for old men, um livro sofrível de Cormac McCarthy, originou o mais sofrível ainda filme (aqui no Brasil intitulado) Onde os Fracos Não Têm Vez. Que, inacreditavelmente, papou o Oscar de melhor filme, além de direção pros irmãos Coen, de ator coadjuvante pro Javier Barden e de melhor roteiro adaptado. Ao contrário do que muita gente boa diz, o filme não é uma adaptação fiel do livro. É uma pioração fiel, isso sim. No country for old men começa bem, vai bem até ali pela metade ou dois terços inicias. Depois descamba. McCarthy ficou com preguiça, perdeu a paciência, a inspiração, sei lá. Conseguiu a proeza de empobrecer o que parecia ser uma linda mistura de entretenimento com enriquecimento intelectual. Em outras palavras, uma boa estória, recheada de boa filosofia. Uma boa estória que faz pensar. Desgraçadamente, não manteve firme o leme até o destino. A “boa estória” se transformou em uma apressada e desconexa costura de pontos soltos. A filosofia descambou pro piegas.
Luiz Carlos Zanin, em seu blog, critica positivamente o filme. Acerta no que diz respeito à parte filosófica, mas se equivoca ao considerá-lo “não-acabado”. Transcrevo aqui o último parágrafo:
Talvez frustre aqueles que esperam finais fechados, roteiros com todas as pontas amarradas e diálogos explicativos. Não. Essa tragédia moral chamada Onde os Fracos Não Têm Vez mantém-se aberta até o final. Nos acompanha após a sessão e permanece conosco. Produzindo ainda efeitos, pedindo compreensão e apaziguamento. Mesmo que saibamos, como o xerife Bell, que os filmes e os sonhos apenas sugerem e são pontos de luz, nunca lições terminadas e definitivas.
Zanin está errado. Onde os fracos não têm vez não é “não-acabado” (no sentido tchekhoviano da palavra). É, sim, malacabado, mal-costurado. Tanto o livro, quanto o filme. Mas o filme mais ainda. O terço final, que no livro é preguiçosamente mal-feito, no filme é apressadamente pior-feito.
A verdade é que os Coen ganharam esse Oscar por que a Academia deve estar com vergonha de nunca tê-los premiado pra valer (eles só haviam recebido um Oscar por melhor roteiro original por Fargo). Não só o próprio Fargo, mas O Homem que Não Estava Lá, Barton Fink, Miller’s crossing, etc, são filmes excepcionais que mereciam uma baciada de prêmios da Academia. Esse que receberam agora foi, portanto, uma espécie de “Oscar pelo conjunto da obra”, não declarado.
Mas agora podem me confrontar: então tá, já que o filme dos Coen não merecia, quem, então? Boa pergunta.
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias deveria ter estado entre os indicados pra melhor filme estrageiro. E deveria ter vencido.
Berlim 2008
Independente de qualquer discussão que caiba fazer a respeito do suposto facismo encravado em Tropa de Elite, fico feliz por ele ter ganho o prêmio principal no Festival de Berlim 2008. Primeiro por ser brasileiro (dá licença?!). Mas também, e principalmente, por ser um ótimo filme. Vai colado aí embaixo um artigo meu sobre o filme , publicado no jornal O Popular de 09-11-2007.
Estética sem ética
Logo no começo de O Poderoso Chefão há uma cena em que um pai angustiado implora a Don Vito Corleone (Marlon Brando) que mate o rapaz que havia estuprado sua filha. A Justiça, acusava o pai, havia sido por demais condescendente. Don Corleone hesita em concordar, deixando-nos, o pai e a platéia, mais angustiados ainda. Queremos sangue. Queremos morte violenta aos estupradores. Finalmente, para nosso alívio, o magnânimo Don aquiesce. E com isso temos a primeira das inúmeras vezes, nas três partes que compõem a saga dos Corleone, em que torcemos com todas as forças para o... crime organizado.
Ao final de Crimes e Pecados, o vilão, um médico oftalmologista canalha, se safa, e o mocinho, um cineasta idealista, se dá muito mal. Acusado de ter invertido a “moral da história” de Crime e Castigo de Dostoiévski (livro em que fora inspirado) e realizado um filme cínico, Woody Allen se defendeu: não era cínico, mas, sim, realista.
Os exemplos são muitos, mas fiquemos com esses e vamos direto ao ponto: é possível desgrudar a ética da estética? (Sim, esse é mais um artigo sobre Tropa de Elite). É justo submeter uma obra de arte ao crivo do juízo moral? Ou, por outra, é possível não submeter uma obra de arte ao crivo do juízo moral? E, em se o fazendo, é justo atribuir-lhe nota melhor ou pior a partir desse juízo?
Submetemos uma obra de arte ao nosso julgamento ético tanto quanto estético, queiramos ou não. É automático, quase medular. O que nos leva a outra questão: sendo automático o julgamento, não o será o veredicto. Em outras palavras, o que é mau eticamente, não necessariamente o será esteticamente. Podendo ser, até mesmo, o contrário. O que faz de O Poderoso Chefão e Crimes e Pecados filmes brilhantes é justamente o que têm de mais “condenável”. Já o famoso Epílogo que Dostoiévski colocou em Crime e Castigo, salvando a alma de Raskolnikov, empobreceu consideravelmente uma obra de arte genial.
O que me traz, finalmente, a Tropa de Elite. Não se trata apenas de gostar da forma, da produção caprichada, das interpretações magistrais (particularmente de Wagner Moura, o capitão Nascimento, redimindo-o da pateticamente caricata atuação em Ó Paí, ó). O que Tropa de Elite tem de melhor é justamente o que tem de mais condenável. O sentimento catártico-justiceiro do espectador quando vê a elite da tropa torturar e matar traficantes e maus policiais.
Em arte, convenhamos, a transgressão é bem mais charmosa do que a correção. Cabe formular matematicamente: o prazer estético de uma obra de arte é inversamente proporcional a sua postura ética. Até aí tudo bem. O problema é o que vem depois. É preciso discernimento, espírito crítico para não nos deixarmos inebriar pelo charme da incorreção. Senão saímos todos de uma sessão de Tropa de Elite no ponto pra formar nossas próprias milícias.
P.S.: Proibido Proibir é um filme nacional lançado em 2006 que tem muitos pontos em comum com Tropa de Elite. Vale conferir.





