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POR EM 06/04/2009 ÀS 05:25 PM

O vício da paixão

publicado em

A paixão é um vício que nada tem de santo. Pessoas apaixonadas são perigosas. Perdem a tramontana por qualquer dê cá essa palha. Por nadica de nada, um olhar fora das grandes a que foram atiradas as vítimas de seu amor de escravidão, o apaixonado entra em crise de ciúme mortal e mortífero, e desanda a mandar sopapos e trovoadas nos ambientes pacatos. Pessoas assim transtornadas constituem perigo à sociedade, pois consideram-se proprietárias do corpo e alma das criaturas que dizem amar. 

Os gregos antigos eram prudentes quanto aos arrebatos passionais. Buscavam manterem-se distantes das turbulências das paixões. Quando atendiam ao império dos sentidos, trocavam-se fluidos no intercurso sexual, mas tendo o cuidado de não caírem de quatro nos arrebatos passionais. Mas há paixões e paixões, sendo que algumas são até bem cotadas, tidas como sendo inspiradas pelos deuses. A paixão pela arte e literatura, por exemplo, que faz tantos de seus corifeus endeusarem a si mesmos. 
 
Desconhecem o fato de que a arte, em si mesma, não tem maior valor que o de ser um narcótico suave, que nos ajuda a nos esquecer de nós, e dos problemas que nos afligem. Além de que, em inúmeros casos, serve de penico, vomitório ou catarse para neuroses, psicoses e outras fraturas psíquicas. Isto se dá quando, em vício apaixonado, artistas (ou simples loucos, que julgam sê-lo) a seu oficio se entregam com frenética e neurótica assiduidade. Não fosse cercada de glamour, a sua atividade, e não hesitariam em colocá-las em camisa de força, nas clínicas psiquiátricas mais acreditadas. 
 
Poetas existem que despejam de versos e livros sobre seu tempo e sua cidade, sendo incapazes de conceder aos outros e a si mesmos o benefício do silêncio criativo. Outros, políticos ou não, são bandas barulhentas, a arrotar esquerdismo infantil e populista, embora sejam bem burgueses, em seus prazeres mundanos, e até direitistas, fora das câmeras. Não conseguindo resistir à tentação da vaidade, não dão ao público estóico o alívio de sua ausência. No dizer de Freud, tais personalidades consideram a realidade sua única inimiga, e fonte de todo sofrimento. Ao ver na arte o canal de escape de suas aflições narcisistas, acabam por erigi-la em torre de ilusões. Assim se abstêm de viver sob o princípio da realidade.
 
Se tais personas transbordantes elegem o amor (e a sexualidade, um de seus canais) como o veículo maior de sua realização como seres humanos, o faz de modo tão radical, que passam de uma paixão a outra, tendo o cuidado de fazer com que sejam destrutivas, avassaladoras ou simplesmente ridículas. Isto porque não admitem solução de continuidade, melhor dizendo, não dão um refresco, em suas ardentes e barulhentas trombadas sentimentais e pulsões. São deste tipo as que colecionam desastres existenciais. 
 
Tais criaturas são muito bem quistas por cartomantes, pais de santos, terapeutas, psiquiatras e psicanalistas, sendo useiras e vezeiras em freqüentar bares acima e abaixo de qualquer suspeita... Além de suas trombadas emocionais as levam freqüentemente às clínicas ortopédicas e às oficinas de conserto de automóveis. Não que sejam propriamente amantes profissionais, pois que estes têm de ser frios e racionais, em seu suado ofício, e sim porque têm a paixão como um vício, violento e abrasador, do qual não conseguem e não desejam ver-se curadas. 
 
Mais perigoso, porém, do que viciado em paixão, é o neocínico, que jamais se apaixona, e faz alarde de sua frieza emocional de mármore feito humano - pois seu prazer e empenho é o usar as pessoas para seu gozo animalesco e despótico. O homem psiquicamente deformado e moralmente pervertido usa o sexo como vetor e canal para suas aberrações sádicas, em que realiza sua vontade de domínio e manipulação. 
 
Ele quer a posse, o aviltamento da pessoa com quem se relaciona, não o encontro humano, evolvido pelo afeto mútuo. Nada sabe nem quer saber da grande e milenar arte da sedução. O cinismo nele substitui o riso e a pura e jovial alegria. Luta para enriquecer e possuir coisas, não para desfrutá-las no convívio com bons amigos, mas para afirmar seu ego doentio e, com a força de seu dinheiro, poder submeter e corromper. 
 
O animal humano está buscando ter mais energia para destruir mais rapidamente os recursos da Vida. Quer ficar mais energizado para ser mais destrutivo do que tem sido. Em sua perfídia, usa até o pré-texto do seu amor de apego, para aliciar vítimas para a sua lascívia ou perfídia. Tais personas inviáveis, sendo doentes de alma e pervertidas de psique, só vêm as pessoas como instrumentos para a satisfação de seus desejos perversos. Incapazes de abrigar, em sua gélida sensibilidade, sentimentos como amizade ou amor, tornaram-se aleijões humanos, de alma prisioneira e sem vida. Em seu fingir serem capazes de sentir afeto, levam a dor e o sofrimento aos que as rodeiam.   
 
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