O sexo de que se fala
O sexo de que e fala não é o sexo que se pratica. Assim como a família de que se fala não é aquela que afligimos, e que nos faz sofrer. Nelson Rodrigues foi mais cortante do que navalha afiada, ao dizer: “Se as pessoas conhecessem a vida sexual uma das outras ninguém se cumprimentaria na rua”.
O sexo difere de outras necessidades básicas do corpo, como o alimento e o sono, pelo menos em dois sentidos. Em primeiro lugar, em termos ideais, requer a participação de outros seres humanos. Essa participação aumenta a possibilidade de prazer, assim aumenta a perspectiva de confusão emocional, que poucos conseguem evitar diretamente.
Em segundo lugar, embora não seja absolutamente essencial à sobrevivência, muitas são as pessoas que declaram não poder passar sem “aquilo”. Outros, que por motivos de opção religiosa conseguem se manter celibatários, ou refratários ao natural, passam a cultivar perversões terríveis, decorrentes da repressão a um instinto natural
O sexo não seria motivo de opressão, sedução, servidão ou mendicância, fosse um gesto ou ato solitário, como o é, na “contravenção” a que chamamos de masturbação. Desde a bíblia até os livros de sexologia mais antigos, esta prática, pela qual a pessoa dá satisfação ou prazer a si mesma é tida, havida e defenestrada como infame, hedionda, capaz de levar uma alma aos infernos dantescos.
No mais das vezes, porém, o sexo é cumprido e exercido a dois, exigindo, portanto, participação de outra pessoa, do sexo oposto, ou do mesmo, como vem se tornando moda — havendo casos em que a participação de mais de uma pessoa é requerida, levando a supor que um parceiro ou parceira não é suficiente para se alcançar o “alumbramento” a que os sexólogos chamam de orgasmo.
Este, no mais das vezes, quando comparece, dá o ar da graça de modo ridico e esporádico, emboramente existam os felizardos (oh!Insana inveja — as felizardas) que o têm no modo múltiplo e incontido, parecendo serem habitados por explosões sucessivas de paraíso. Repito: se fosse um ato solitário, como o é na masturbação, o sexo não seria motivador de tanta dor e confusão.
Os que buscam satisfação como criaturas pervertidas, possuídas por estranhas pulsões antinaturais, que implicam em violação do direito de outros não desejarem fazê-lo, apelam para a sedução ou a sevícia. Outros violentam ou aliciam, com armas feridoras, ou argumentos econômicos. Mas felizmente há também, em maioria, o encontro amoroso que se faz com carinho e ternura, e não com violência e força bruta.
Se em alguns casos o caso é de amor de cochambração, resultante de apego à satisfação, em outros o sexo é perpetrado como violência bruta, podendo ser feito ao modo de incesto, no seio da sagrada família, tendo como vítimas criaturas inocentes e indefesas, como no caso da menina de 9 anos, que o padrasto engravidou — vindo sua família a ser excomungada pela igreja, que não viu com escândalo e reprovação o ato criminoso daquele que violentou e abusou, em vez de dar guarida e proteção.
No sexo como na vida cotidiana de nobres e plebeus, milionários e descamisados, “o que dá pra rir dá pra chorar”, como diz a canção popular. Onde se inicia o som da vida a morte também tem seu lugar. Assim, é possível conhecer o grau de sanidade física, psíquica ou mental de uma pessoa pelo modo como ela fala (ou se cala) sobre o sexo que faz, ou que renega.
Ou, em outros termos: pela sanidade ou verdade do sexo que a pessoa faz, nega, (ou do qual vive a falar) sabe-se o que a pessoa é. Assim como for a qualidade dos desejos de uma pessoa, assim será sua qualidade de Ser. Jean-Ives Leloup o disse: “Basta que nasça um desejo em nós, para que as coisas comecem a existir”.





